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2 de Outubro de 2018

Quantitative Easing: A Herança da Crise de 2008 e Nossa Incapacidade de Superá-la

Quantitative Easing: A Herança da Crise de 2008 e Nossa Incapacidade de Superá-la

Escrito por: Matheus Jorge Bulascoschi
 

Após o estouro da Crise de 2008 o mundo entrou em um estado de insegurança quanto aos futuros da economia como um todo e, como previsto em todo tipo de teoria econômica, quando não há confiança no futuro, o investimento cessa e a recessão se alastra. Foi basicamente isso que foi observado pelo mundo pós-subprime. As pessoas preferiam guardar o dinheiro que recebiam, ou usá-lo para pagar dívidas, ao invés de consumir. O mesmo ocorria com os bancos, que não enxergavam um negócio vantajoso no empréstimo para o varejo (pessoas físicas procurando adquirir poder de compra e empresas procurando financiamento produtivo) devido ao alto risco de inadimplência que pairava no mercado. Diante desta situação, foi necessário que os bancos centrais tomassem alguma atitude para evitar o agravamento da crise econômica.

 

A função de um banco em uma sociedade capitalista é arrecadar dinheiro de agentes superavitários e emprestá-lo para aqueles que precisam de crédito (agentes deficitários), porém quando os bancos preferem pegar o dinheiro do agente superavitário e usá-lo para comprar bonds, torna-se previsível que haverá um problema na produção nacional. A ação tomada pelos bancos centrais foi a adoção de uma política agressiva de expansão monetária, que é a injeção de mais dinheiro na economia. A filosofia por trás dessa ação seria, basicamente, jogar tanto dinheiro no mercado que passaria a ser atrativo para um banco emprestar dinheiro para empresas e pessoas. Este é o Quantitative Easing, ou afrouxamento quantitativo, no português.

 

A política em si é relativamente simples e sua adoção é feita em dois passos para incentivar o crédito. Primeiramente devemos considerar que a taxas de juros básicas da economia encontram-se em níveis muito próximos ou iguais a zero. Não há sentido em implementar essa política com taxas de juros altas, seria mais fácil simplesmente baixar a taxa para baratear o crédito. Porém, se mesmo com as taxas tendendo a 0% os bancos não se sentirem motivados a conceder o crédito, aí sim se faz necessário a adoção de uma política mais agressiva.

 

O primeiro passo a ser tomado na implementação é a real injeção de dinheiro na economia. Esta acontecerá através da compra de ativos por parte do Banco Central, esses ativos seriam “ativos tóxicos” de bancos comerciais como empréstimos de alto risco, hipotecas e etc. Assim o balanço patrimonial desse banco passa a ser gradualmente limpo enquanto o risco de inadimplência é absorvido pelo comprador, que ao comprar essas obrigações dará aos bancos o dinheiro por um título que pode sofrer um calote. Basicamente o banco comercial está securitizando seus títulos para a autoridade monetária, livrando-se do risco.

 

Como a taxa de juros cobrada em empréstimos leva em conta, também, o risco de calote, ao se limpar a estrutura financeira de um banco, as taxas de juros passam a cair pois haverão menos “operações tóxicas” para serem compensadas. Porém ainda há um fator importante. Ainda é atrativo para grandes bancos comprarem bonds e receberem o generoso e seguro yield que eles oferecem, ao invés de se arriscar no mercado inseguro de varejo. Para contrapor essa prática implementa-se o segundo passo, o banco central começa a comprar bonds também, trazendo uma maior liquidez e demanda pelos títulos, dessa maneira o preço irá subir mas os yields, por outro lado, irão cair em resposta, deixando de ser uma alternativa vantajosa para os bancos que passarão a emprestar mais dinheiro para o varejo.

 

Espera-se que a injeção de dinheiro promovida pelos bancos centrais ajude a baratear o crédito e fazer a economia voltar a crescer, a volta do consumo não é a única consequência. A polêmica que cerca a política de Quantitative Easing gira em torno da capacidade de gerar inflação ao usar a ferramenta. Não que se duvide se ela gerará inflação, já que o resultado esperado para qualquer melhora no consumo de uma economia é justamente uma alta nos níveis de inflação, mas a grande dúvida está na capacidade de gerar uma inflação controlada.

 

A injeção de dinheiro em qualquer economia implica uma alta na inflação pelo simples fato de ocorrer, sem a necessidade de que haja o aumento efetivo no consumo, já que se passa a ter uma quantidade maior de dinheiro para representar o mesmo número de bens disponíveis na sociedade, logo os bens serão superiormente precificados. Em segundo lugar, ao diminuir os yields de ativos seguros, anteriormente procurados por bancos, estes passarão a procurar ativos mais arriscados que bonds, porém menos arriscados que empréstimos ao varejo: as commodities. Como commodities são matéria-prima para grande parte de uma produção nacional, quando estes sofrem uma alta em seus preços, é natural que haja uma alta proporcional nos preços dos produtos. O terceiro fator remete ao mercado de câmbio. Se há uma alta na oferta de uma determinada moeda, peguemos o dólar como exemplo, sem uma respectiva alta na demanda haverá uma compressão da cotações no mercado internacional. O efeito do dólar fraco para a economia americana seria uma faca de dois gumes, para as exportações americanas seria benéfico, visto que um dólar mais barato representará menores custos no mercado internacional e, consequentemente, menores preços gerando uma maior competitividade dos produtos americanos e alta nas exportações. Por outro lado, para o mercado doméstico o dólar fraco é negativo, as importações ficarão mais caras e os produtos importados e os que requerem commodities como matéria-prima sofrerão alta nos preços finais também, gerando inflação. Alguns autores colocam como tentativas fracassadas de implementação do Quantitative Easing a da Alemanha na década de 20 e do Zimbábue no início dos anos 2000, ambos os casos levando a um cenário de hiperinflação.

 

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Evolução da inflação americana após 2008. Apesar de se manter em um regime estável durante o período de QE, com os dados ficando entre 4% e 0% durante 7 anos, a inflação americana se manteve abaixo da meta do Federal Reserve (2%) durante a maior parte do tempo.

 

Enquanto as aplicações da política podem ser traçadas para a fase pós-crise de 29 dos Estados Unidos, há divergências se a política baseada nos ensinamentos de Keynes que foi usada por Roosevelt se tratava de um afrouxamento quantitativo propriamente dito. O primeiro uso assumido da política monetária se deu pelo Japão no início dos anos 2000. Porém demorou cerca de 2 anos para que o banco assumisse de fato estar usando uma política chamada Quantitative Easing (QE), isto porque antes de 2001 o Banco do Japão (BoJ - banco central japonês) seguia uma política ortodoxa para o controle da situação deflacionária do país enquanto os seus críticos defendiam ferrenhamente a adoção da política intervencionista. Em fevereiro de 2001 funcionários do BoJ lançaram um documento negando a eficácia da política. No mês seguinte o banco começou um programa de compra de ativos dos bancos japoneses. O programa teve uma duração de 5 anos, sendo encerrado em 2006. Em 2001 o Japão registrou uma deflação de 1,67% e em 2006 foi registrada uma inflação de 0,3%, longe das metas de inflação de 2% ao ano, fazendo com que a popularidade da flexibilização monetária no Japão enfraquecesse, o que perdura até hoje.

 

Nos Estados Unidos o processo de afrouxamento quantitativo foi iniciado após a crise de 2008, porém ele foi “picotado” em três fases, chamadas de QE1, QE2 E QE3. O QE1 foi iniciado com a proposta de compra de US$ 600 bilhões em ativos para segurar a economia americana, de maneira já explicada acima. Em meados de 2010 a política foi deixada de lado em decorrer de uma melhora no cenário econômico americano, porém em novembro do mesmo ano foi anunciado a retomada da expansão da base monetária pelo Fed que não estava contente com o crescimento real da maior economia do mundo. O QE2 durou até setembro de 2012 e foi igual ao primeiro processo, comprando 600 bilhões de dólares em ativos do mercado.

 

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Gráfico mostrando uma comparação entre o crescimento do PIB americano (Nominal GDP), a quantidade total de dinheiro na economia (M2) e a base monetária (Monetary Base). Note o crescimento pós 2008 e como o PIB não acompanha a base monetária americana.

 

O que vem chamando a atenção do mercado atualmente é exatamente a terceira fase, ou tentativa, de aplicar a política. O fato é que tanto a primeira tentativa como a segunda não atingiram o resultado esperado pelo Fed, somente agora com o QE3 que o mercado de trabalho americano mostra força mais uma vez. A terceira tentativa da política nos Estados Unidos foi feita de maneira diferente das primeiras, dessa vez o Fed compraria 40 bilhões de dólares em ativos mensalmente até que conseguisse atingir o seu objetivo. Com a economia americana beirando o pleno emprego pode-se afirmar que o alvo do Fed está sendo atingido e a agressiva política de expansão da base monetária americana está com os dias contados. O que preocupa o mercado financeiro mundial é justamente o que acontece após um processo de Quantitative Easing, este que pode ser visto como um território inexplorado pelo banco central americano. Seu balanço patrimonial, após quase 10 anos de compras, é colossal e, com a inflação americana voltando a crescer e com uma sólida geração de empregos, chegamos ao segundo problema da teoria: Como o Fed irá administrar o fim da política de modo a não trazer o caos para os mercados que tiveram sua liquidez artificialmente inflada, como é o caso das ações e commodities.

 

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Comparativo entre o crescimento do PIB americano (GDP) e a evolução do emprego (NFP) durante o período de afrouxamento quantitativo.

 

Quando os estímulos cessarem os yields voltarão a subir, as taxas de juros voltarão a subir e os mercados globais perderão a liquidez que eles possuem hoje, no caso do mercado de ações esse efeito já foi pré-visualizado em fevereiro de 2018, quando as ações despencaram após o relatório de emprego americano e os números de inflação apontarem para mais altas na Federal Funds Rate (FFR, taxa de juros básica dos EUA) do que o esperado, gerando uma migração de capital para os títulos públicos e para o dólar. Como se não bastasse a gigante economia americana deixar seus estímulos, a União Europeia também está se aproximando do fim de seu processo de Quantitative Easing, porém de maneira mais incerta visto que os alvos ainda não foram atingidos como no caso dos Estados Unidos. Com expectativas sobre a FFR apontando para mais duas altas ainda este ano e com uma economia americana apresentando constante evolução no mercado de trabalho e nos índices de inflação, fica claro que os próximos meses serão um teste de fogo para os mercados internacionais.

 

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Evolução do índice S&P 500 durante os últimos anos. Note a evolução aguda nos momentos de adoção do QE até o fim da série um pouco antes de 2015, com o índice cotado a cerca de 2.000 pontos. Hoje o S&P 500 está cotado na casa de 2.800 pontos.



 

Fontes:

 

 

 

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