"> De Olho no Mercado - Setembro 2021

11 de Novembro de 2021

De Olho no Mercado - Setembro 2021

De Olho no Mercado - Setembro 2021

 

Durante as últimas semanas tivemos grande destaque para dois setores: o de energia e o de mineração. Estamos acompanhando uma elevação relevante no preço tanto da energia elétrica quanto das commodities energéticas. Enquanto isso, o preço do minério de ferro que ainda durante esse ano chegou a bater o seu recorde sendo cotado acima dos US $210, hoje opera abaixo dos US $130. Nesta edição do De Olho no Mercado vamos focar na análise dos setores e das dinâmicas que propiciaram esse cenário de modo a compreender seus efeitos.

Ao longo do mês de setembro começamos a acompanhar os efeitos da crise energética que não se resume ao Brasil, alguns eventos climáticos e geopolíticos se somaram às disfunções na cadeia de suprimentos causadas pela pandemia, dando origem a uma escassez de energia global. Apesar disso, a Opep decidiu pela manutenção do seu guidance de julho, de aumento gradativo da produção em 400 mil barris de petróleo por dia até a normalização. Assim, o barril de petróleo do tipo Brent, referência internacional, passou dos US $80 ao longo do dia 28/09 pela primeira vez desde outubro de 2018, fechando na casa dos US $79,09.

 

Já no Brasil, temos o agravamento desse cenário dada a cotação do dólar, moeda à qual o valor do petróleo é atrelado e que no mês sua valorização chegou a 5,34%. Além disso, como consequência direta das faltas de chuva e geadas que reduziram a produção de cana-de-açúcar, observamos a elevação dos preços dos biocombustíveis que entram na composição da gasolina e do diesel.

Como consequência, a Petrobras elevou o preço médio da venda do diesel de R $2,81 para R $3,06 por litro, um reajuste de R $0,25 por litro, alta de 8,89%. De acordo com os dados do IPCA, o óleo diesel subiu 28,02% no acumulado do ano até agosto. O preço da gasolina e do gás de cozinha (GLP), por sua vez, também avançou, já observamos um aumento de 39,6% e 34,67% respectivamente.

A crise energética, por outro lado, não se resume às commodities e aos combustíveis. O Brasil passa hoje por sua pior crise hídrica na região das hidrelétricas dos últimos 91 anos. Existia uma previsão de que a La Ninã ocorresse em 2021 e o fenômeno se concretizou, ocasionando meses com poucas chuvas. A região hidrelétrica do país foi duramente afetada, prejudicando a geração de energia elétrica. No mês de julho, foram produzidos 34.489 MWmed, menor nível desde fevereiro de 2002.

Por esse motivo, o Ministério de Minas e Energia (MME) junto com a Aneel anunciaram a criação de uma nova bandeira tarifária em setembro, a “escassez hídrica”, que irá custar R$ 14,20 adicionais para cada 100 quilowatts por hora (kWh) consumidos. Para além disso, com a redução da oferta dado o baixo nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas, o governo acionou as termelétricas, uma fonte de energia mais cara e poluente, elevando os gastos de produção nas indústrias, fazendas e comércios.

 

Assim, fica evidente que o impacto que essas crises podem proporcionar para a economia é grande e seus efeitos são múltiplos. O mais relevante deles é a pressão inflacionária, que já pode ser observada pelo IPCA de setembro. O índice foi o maior para o mês desde 1994, patamar esse que foi alcançado principalmente pelos setores de habitação, dado o aumento das tarifas de energia elétrica, e transportes, puxado pela alta das commodities energéticas.

Temos ainda os efeitos indiretos, que mais uma vez pressionam a inflação do país. No caso dos combustíveis, visto que o transporte é feito principalmente pelo modal rodoviário, podemos esperar um aumento relevante no preço dos fretes, que é repassado para todos os produtos. Já no caso da energia elétrica, possíveis faltas ou restrições ao seu uso têm grande impacto nas cadeias de produção, que podem por sua vez restringir a oferta de suprimentos e agravar as disfunções causadas pela pandemia.

Já dentro das análises mais aprofundadas, destacamos duas das principais empresas do setor, uma de cada segmento: a Engie e a Petrobrás. A primeira é a maior empresa privada no setor de geração de energia do país. Começou como sociedade anônima de capital aberto em 1994 em um projeto do Banco Nacional, e hoje se destaca por sua diversificada gama de modais geradores, como termelétricas, hidrelétricas, parques de energias solar e eólica. A empresa ainda pratica a sazonalização do despacho de hidrelétricas, amenizando as consequências dos períodos de estiagem na geração de caixa.

Essas e outras ações acarretam o seu sucesso no mercado, fazendo com que ela se expandisse e entrasse para o setor de transporte de gás natural, em 2019 ao adquirir participação na Transportadora Associada de Gás (TAG), e para a área de iluminação pública e monitoramento de energia em 2017.

Mesmo com um cenário desafiador, a companhia pôde reduzir os impactos da crise energética a partir da diversificação do seu portfólio e das suas estratégias de gestão. Assim, a Engie vem sendo cautelosa na distribuição de energia de modo a garanti-la em 2022. Além disso, a diversidade de seus produtos e de seus meios de produção, além de cada vez mais alinhados às políticas ESG, garantem maior previsibilidade na produção e nos fluxos financeiros.

 

Ainda assim, o reajuste de concessões feito pelo IGP-M impactou notavelmente o desempenho da empresa, que apresentou uma diminuição de 58,4% no lucro líquido no 2T21, quando comparado ao mesmo período de 2020. O impairment no ajuste do valor da negociação da planta de carvão de Jorge Lacerda também foi apontado como um catalisador desse declínio. Contudo, o período de alta da inflação aumentou o preço médio da venda de energia em 4,9%, mitigando a queda de 0,4% na quantidade de energia vendida. De modo geral, apesar dos percalços, a Engie continua com um bom caixa e um bom posicionamento no mercado.

Passando para o segmento de petróleo e gás, destacamos a Petrobrás. Tendo início em 1954, é uma companhia de capital misto, gerida pelo Governo Federal. Ela atua nos setores de exploração, produção, refino, processamento, comercialização e transporte de petróleo, derivados, gás natural e etc. É de distinta importância na B3, Bolsa de Valores Brasileira, e tem poder majoritário na produção de combustíveis do país, sendo uma das principais empresas de energia do mundo.

A companhia sofreu escândalos de corrupção evidenciados pela Operação Lava-Jato em 2014, e com isso, enfrentou as consequências financeiras, reconhecendo a perda de R $6 bilhões.

Já no contexto atual, a gasolina, carro chefe de seus produtos, e o gás de cozinha passam por diversos reajustes em seu preço. A partir disso, a Petrobras teve EBITDA recorde de R $60 bilhões, aumento de 147% comparado ao ano anterior e 26% ao trimestre passado. Isso é resultado da valorização de 13% do preço do petróleo Brent, aumento de 5,5% do volume de vendas e ganho com a retirada do ICMS do cálculo do PIS/COFINS. Além disso, a venda de gás natural para abastecer a crise do setor energético também alavancou a receita da empresa, gerando um aumento de 23,4% desde o primeiro trimestre.

No segundo trimestre, a empresa investiu US $2,4 bilhões: US $1,9 bilhão na área de exploração e produção (com foco na produção no pré-sal da Bacia de Santos) e US $254 milhões em refino, transporte e comercialização. O fluxo de caixa disponível do período foi de R $48,6 bilhões. Esses fluxos permitiram a redução do endividamento da companhia - de U $71 bilhões no primeiro trimestre, para U $64 bilhões no segundo - e o pagamento de dividendos que chegaram a R $31,6 bilhões.

Para além disso, podemos tratar sobre o setor de mineração que, ao contrário do abordado acima, vem lidando com quedas consecutivas na sua cotação. A partir do começo do segundo semestre passamos a acompanhar uma diminuição do crescimento marginal da economia global, a entrada no que chamamos de meio do ciclo. Os indicadores de atividade passaram a apresentar registros menores, com grande atenção para o PMI chinês de agosto, que veio indicando contração. Essa diminuição no dinamismo da economia significa também uma diminuição relevante na demanda pelo minério de ferro e, consequentemente, no seu preço.

 

Além disso, alguns eventos recentes acabam por reforçar esse cenário. O risco de calote da Evergrande e as incertezas em relação ao mercado imobiliário chinês provocaram uma onda de desvalorização nas principais bolsas do mundo, incluindo o Brasil. Isso se dá a partir do receio do mercado de que o problema dessa companhia atrapalhe a economia chinesa e, por tabela, o crescimento mundial.

As restrições que o governo da China impôs à produção do metal no país, em uma tentativa de manipulação de preços e diminuição do impacto ambiental da cadeia produtiva do aço, também têm grande influência no contexto. Isso porque a sua capacidade de influenciar a economia global tem crescido na medida que aumenta sua participação no PIB global.

O país tem ainda uma relevância especial no caso do Brasil: é o maior comprador de produtos brasileiros e um fornecedor importante de insumos e equipamentos para a indústria, além de ser um dos cinco maiores países investidores na economia brasileira. A partir disso, podemos observar uma queda significativa no preço do minério - só entre agosto e setembro a commodity cedeu 34,7% - e uma tendência de queda para o curto e médio prazo.

Com essa depreciação do minério de ferro, empresas do setor de mineração e siderurgia, como a Vale (VALE3) e a Companhia Siderúrgica Nacional - CSN (CSNA3), vêm sendo impactadas. No período entre agosto e setembro, os papéis da Vale e CSN desvalorizaram cerca de 21% e 25%, respectivamente. Entretanto, ao separarmos o cenário macroeconômico do microeconômico, vemos um excelente desempenho das finanças internas nos resultados do segundo trimestre em ambas as empresas. Gerando grandes fluxos de caixa e rentabilidade - impulsionados pelo preço alto e grande volume de minério de ferro produzido neste período.

Estes resultados também são reflexo da solidez dessas empresas. A Vale é considerada uma das maiores mineradoras do mundo, produtora de minério de ferro, pelotas, manganês e níquel. A multinacional é sediada no Brasil, mas está presente em quase 30 países, com cerca de 220 mil acionistas em todos os continentes. Somente no 2T21, a Vale registrou um EBITDA (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) 32% maior que no 1T21, além de um lucro líquido R$9,53 bilhões acima do 1T21. Neste mesmo período, também foi gerado um fluxo de caixa US$680 milhões acima do 1T21 e divulgada a distribuição de R$8,19 em dividendos para os seus acionistas.

Os mesmos efeitos foram vistos pela CSN, empresa que atua nos setores de siderurgia, mineração, logística, cimento e energia. É considerada a segunda maior exportadora de minério de ferro do Brasil e está presente em 18 estados brasileiros e em outros dois países (Alemanha e Portugal). A CSN Mineração reportou fortes números no 2T21 e representou a segunda maior receita do grupo CSN, com crescimento do EBITDA de 36% na comparação trimestral e de 258% no comparativo anual, além de um crescimento do lucro líquido de 34% na comparação trimestral e de 174% no comparativo anual.

Além das demandas por aço aquecidas desde o 2S20, com produções acima do nível pré-pandemia reportadas no 1S21, impulsionadas pelo setor de construção, empresas como Vale e CSN também possuem baixos custos de produção frente aos seus pares internacionais.

Nesse sentido, as opiniões se dividem com relação às perspectivas futuras deste setor. De um lado, há quem diga que as perspectivas são positivas devido à resiliência da construção civil no Brasil, ao preço ainda elevado do aço no mercado interno, e às perspectivas de retomada do crescimento na China, estimulado pelo crédito. Outro fator que influencia positivamente as exportadoras é a desvalorização do real frente ao dólar.

Por outro lado, a agenda verde da China, que prevê o fim da emissão de carbono até 2060, deve resultar em uma maior interferência das autoridades do país nas empresas de mineração, segmento responsável por cerca de 20% das emissões deste gás. Medidas como essa influenciariam diretamente as empresas brasileiras do setor, já que cerca de 50% da receita do segundo trimestre da Vale foram provenientes da China. Dessa forma, no curto prazo ainda permanecem as incertezas macroeconômicas em relação à atuação do governo chinês no setor.

 

 

Relatório desenvolvido por: Ana Luísa Bacelar Dos Santos, Gabriel Yuuki Furukawa, Laura Carmona Ferreira e Vitoria Gomes Cardoso

Edição final: Isabela Falcade Consorte

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