"> Editorial LMF - Outubro

16 de Novembro de 2020

Editorial LMF - Outubro

Editorial LMF - Outubro

 

Marcado pelas expectativas referentes ao cenário eleitoral estadunidense, somadas com o avanço dos casos de Covid 19 e decisões dos bancos centrais mundo afora, outubro foi um mês de bastante tensão. De tal modo, justamente por apresentar um contexto mais estável, o mês foi guiado pelas especulações futuras, ao passo que que também trouxe algumas tendências mais diversificadas quanto aos avanços nos indicadores econômicos, nacionais e internacionais.

Nesse quesito, o caso europeu, no qual diversos países quebraram o recorde histórico de casos por infecção do novo coronavírus, acabou por apresentar bastante incerteza ao mercado, o que já tem tido reflexos diretos ]sobre seus indicadores econômicos. Conforme apontou o Índice Ferentes de Preços (PMI) de serviços da Zona do Euro, as atividades se reduziram entre setembro e outubro, passando, respectivamente, de 48,00 para 46,90; já o indicador referente à atividade industrial demonstrou expansão, passando de 53,70 para 54,80 - é válido ressaltar que resultados acima de 50 pontos demonstram uma expansão das atividades no setor, ao passo que as atividades abaixo representam uma retração. A inflação, por sua vez, se mostrou mais afetada pela retração dos serviços, avançando 0,2% na base mês a mês, mas obtendo uma retração anual de 0,3%

O caso britânico, por outro lado, apresentou uma desaceleração em ambos os índices PMI, chegando a 51,40 (ante 56,10 em setembro) no caso de serviços e 53,70 (ante 54,10) no industrial, o que, contudo, representou um avanço na medida inflacionária, passando de 0,2% para 0,5%.

Pode-se ainda citar a atuação da política monetária da região, ao passo que o ECB (Banco Central Europeu) decidiu em meados de outubro que não reduziria sua taxa básica de juros, movimento semelhante ao tomado pelo BoE (Banco da Inglaterra). A Presidente do banco, Christine Lagarde ainda afirmou que frente à segunda onda novos mecanismos de estímulo econômico para contenção da crise econômica poderão ser tomados e transpassou certa incerteza quanto às futuras ações da autoridade monetária europeia. Seguindo as políticas tomadas pelo FED, o BCE afirmou que poderá deixar a inflação ultrapassar a meta para reaquecer as atividades econômicas do bloco. 

Já na China, a divulgação do PIB na medição anual tomou destaque após apresentar uma retração, passando de 2,4% em setembro para 1,7% em outubro, levemente abaixo das expectativas de 1,8% por parte do mercado. Por outro lado, a taxa de desemprego apresentou queda pelo sexto mês seguido e encontra-se em 5,4%, um recuo de 0,2 pp em relação ao mês anterior. Esse recuo pode ser explicado pela retirada das restrições para o setor de serviços o que ajuda a impulsionar a demanda do consumidor interno.

Apesar dos resultados sobre PIB, o governo optou por manter as taxas de juros sem alterações. O Banco do Povo da China (PBoC, o BC chinês) decidiu no dia 20 de outubro manter inalteradas suas taxas de juros de referência para empréstimos de curto e longo prazos pelo sexto mês consecutivo; a chamada Loan Prime Rate (LPR) de um ano permaneceu em 3,85% a.a. e a LPR para empréstimos de cinco anos ou mais longos ficou em 4,65% a.a.

Em relação à atividade industrial, a China teve uma expansão num ritmo ligeiramente mais lento em outubro, mas ficou acima das expectativas de analistas, sugerindo recuperação contínua da economia do choque provocado pelo coronavírus. PMI oficial de indústria da China caiu a 51,4 em outubro (ante 51,5 em setembro), de acordo com dados da Agência Nacional de Estatísticas, permanecendo acima da marca de 50 que separa crescimento de contração.Entretanto, a disseminação da epidemia no exterior, em especial a segunda onda na Europa, pode aumentar as incertezas para as exportações chinesas nos próximos meses.

Além desse fator, outra razão pela qual se aumentaram as incertezas em relação às exportações chinesas, é o câmbio. Após o anúncio em julho sobre a flexibilização da taxa de câmbio, o Yuan Chinês (CNY) está no nível mais forte desde maio de 2019, o que não favorece a economia da China, que perde atratividade de suas exportações. Isso pode prejudicar, também, as exportações brasileiras para o país.

Os EUA, por sua vez, apresentaram um crescimento do PIB de 33,1% (em termos anualizados) no terceiro trimestre de 2020 na comparação com o segundo trimestre, segundo o Departamento de Comércio do país, dado levemente melhor que o esperado pelo mercado (32%). O forte crescimento carrega consigo sim um componente de recuperação da economia, mas também é resultado de um efeito estatístico, após forte queda no trimestre anterior (-31,4%). 

Os dados de emprego refletem a modesta recuperação, demonstrando a sexta queda consecutiva (desde maio), atingindo o atual patamar de 6,9% ante 7,9% de setembro. Só em outubro, o mercado de trabalho teve criação líquida de 638 mil postos, acima da mediana das expectativas do mercado (580 mil). Os pedidos iniciais de seguro-desemprego continuam estabilizados (com leve tendência de queda) ao redor de 750 mil por semana.

Os indicadores de atividade também reforçam a retomada da economia norte-americana. O PMI industrial (ISM) e atualmente, o índice se encontra nos 59,3 pontos, semelhantes ao nível pré-pandêmico. O setor de serviços foi afetado de modo mais intenso, o que é demonstrado pelo índice PMI, que relutava a chegar acima dos 50 pontos até setembro. Em outubro, este índice ultrapassou ligeiramente os 50 pontos, mostrando uma possível retomada do setor de serviços. Porém, com o aumento dos casos de Covid no país, é possível que o Governo dos EUA adote novas medidas de restrição de circulação entre a população, o que ameaça fortemente a recuperação deste segmento. 

Por fim, pode-se ainda apontar como no início do mês de novembro, o FOMC realizou uma reunião programada pelo calendário, e manteve sua política de forward guidance, mantendo as taxas de juro próximas de 0% a.a., como esperado pelo mercado. Na ata, a instituição continua a destacar o papel da incerteza que o vírus traz para a economia e a necessidade do FED em utilizar suas ferramentas para garantir seus objetivos.

Já no Brasil, mantendo a tendência  de recuperação, o último Boletim Focus do Banco Central (BC) mostrou que a expectativa de melhora do PIB de 2020 subiu para -4,80%. No segundo trimestre deste ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a economia contraiu 9,7%.  

Nesse sentido, registrou-se como o comércio varejista alcançou o recorde histórico em agosto, influenciado pela combinação de uma reabertura da economia, juros mínimos, um crescimento da massa salarial ampliada e uma forte estratégia de vendas online. Segundo a última Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do IBGE, em setembro de 2020, o volume de vendas no varejo seguiu a trajetória ascendente iniciada em maio de 2020, com alta de 0,6% sobre agosto. No entanto, embora os indicadores da margem registrem o quinto mês consecutivo de variações positivas, o setor mostra desaceleração, em uma ação de acomodação após forte recuperação. 

Em função das incertezas quanto à sustentação deste nível de vendas, os níveis da indústria ainda estão se recuperando parcialmente, contudo o cenário se mostra positivo, ao passo que a utilização da capacidade instalada chegou, durante o mês, à média histórica de 2015, a despeito dos níveis de estoques na economia, que se mantêm baixos. Por outro lado, setor de serviços, o mais atingido pelas medidas de distanciamento social, permanece em recuperação lenta. Ao avançar 1,8% na passagem de agosto para setembro, o setor registrou o quarto resultado positivo consecutivo, acumulando um ganho de 13,4%, ainda insuficiente para reverter a perda de 19,8% verificada entre fevereiro e maio, segundo dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS). 

 

 

No quesito inflacionário, conforme divulgado pelo IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegou a 3,92% nos últimos 12 meses, após alta de 0,86% em outubro. A taxa de inflação foi pressionada pela onda de consumo de alimentos, materiais de construção e eletroeletrônicos, ressaltando como a alta de preços passou se espalhar para além do grupo de consumo mais básico, condição resultante, sobretudo, da expansão do consumo proporcionada pelos programas de transferência e pela desvalorização do real. 

O desemprego no Brasil se elevou a uma taxa recorde de 14,4% no trimestre encerrado em agosto, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PNAD Contínua) divulgada pelo IBGE. Foram fechados 4,3 milhões de postos de trabalho em apenas 3 meses, levando o total de desempregados a 13,8 milhões. É válido, contudo, notar como a atual taxa também se relaciona ao crescimento do número de pessoas procurando um trabalho, que se reduziu devido a uma redução das medidas de isolamento social - ilustrando, inclusive, como a atual situação do país pode ser ainda mais crítica do que o indicado atualmente. 

Pode-de assim também destacar a decisão do Copom ao fim do mês, que foi em linha com o mercado e deu-se na manutenção da atual taxa Selic, de 2,00%. Na decisão, o comitê voltou a destacar seu estado de atenção referente à atuação inflacionária, apesar de ainda indicá-la como uma pressão de curto-prazo. É válido ainda destacar como o texto mantém sua menção referente ao “espaço remanescente” para o corte de juros, o que, porém, perde força em decorrência do forward guidance, que prescreve uma manutenção da taxa até o fim de 2021. É válido, contudo, ressaltar a sustentação do atual nível de juros em relação às condições  fiscais do país, condições essas com alto potencial de mobilizar a atual política monetária.

De tal modo, a atenção agora parte justamente à capacidade do governo em manter o atual teto dos gastos para 2021. Tal como já citado em edições anteriores, a estruturação fiscal do país se reflete diretamente na taxa de juros futura, em condições constantemente mais estressadas em meio ao déficit público (que, segundo as projeções do FGV IBRE, podem passar de 75,8% para 97,5% em 2020). Nesse sentido, a divulgação do planejamento referente à expansão do programa de transferência pública toma destaque, medida que, apesar de poder trazer implicações públicas bastante benéficas à sociedade como um todo, deve ser realizada com cautela, sobretudo em meio ao atual cenário. 

Espera-se, assim, uma intensificação da discussão fiscal nas próximas semanas. Dentre as últimas medidas ventiladas pelo governo, destaca-se a utilização dos recursos destinados a alguns fundos públicos que não foram incorporados durante o ano, além ainda da chamada PEC Emergencial, que prescreve um corte de gastos em diversas áreas da atuação de servidores públicos, o que se daria por uma redução da carga horária de trabalho, congelamento de salários, suspensões de promoções etc. É válido ainda ressaltar que o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) ainda não foi concluído, o que ilustra um cenário bastante problemático no qual decisão sobre a alocação dos recursos públicos de 2021 passe a discutida ainda durante o ano em questão.

Trabalho desenvolvido por:

  • Ana Bárbara Tsivum;

  • Luis Felipe de Miranda Arthur;

  • Matheus Shiro Pinheiro Hirata; e

  • Victor Pelachin Borges da Silva;

 

Edição Final:

  • Welker Abner de Oliveira;

 

Disclaimer:

O texto em questão apresenta apenas um caráter informativo, partindo de uma Liga de Mercado Financeiro (instituição estudantil), não deve, portanto, ser interpretado como uma sugestão de investimento em qualquer classe de ativo. As informações aqui publicadas são obtidas por fontes checadas, consideradas seguras, contudo, não há garantias de sua precisão e integralidade, de modo que a Liga de Mercado Financeiro Unesp não se responsabiliza por eventuais perdas ou lucros decorrentes da utilização desse material.

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