"> De Olho no Mercado - Outubro (Edição ESG)

15 de Outubro de 2020

De Olho no Mercado - Outubro (Edição ESG)

O mês de setembro foi ambientalmente bastante significativo para o país. Com as recentes polêmicas envolvendo as queimadas do Pantanal e Amazônia como um todo, diversos países têm tomado uma postura mais crítica em relação ao Brasil e sua atuação ecológica. Faz-se interessante ver como essa postura, para além das esferas políticas, tem também alcançado o campo financeiro, conforme o mercado passa a olhar cada vez mais ao posicionamento das empresas em relação às políticas ESG. Nesta edição trataremos de compreender brevemente alguns setores que, a bem e a mal, têm se destacado. 

 

É válido também notar como os incentivos à adoção de políticas ESG se dão. Nesse sentido, para além do próprio benefício ambiental, social e financeiro que ocorre diretamente, há também uma pressão governamental e, principalmente, popular a favor dessas políticas, isto é, da mesma forma que alguns países se mostraram críticos às queimadas no pantanal brasileiro, ocorre também um maior crivo desses governos em relação às empresas que atuem em seus respectivos territórios. 

 

Por outro lado, a sociedade tem se mostrado cada vez mais engajada nesses aspectos, o que tende a influenciar diretamente no resultado das empresas - de tal modo, a importância do ESG se faz cada vez mais evidente. Visando isso, nos últimos 12 meses o Brasil já ganhou 6 novos fundos focalizados no investimento consciente (Warren Green FIA, Total Impacto Fia, JPG ESG FIC FIA, Trend ESG Global, Selection ESG e JGP ESG Ações 100 Prev XP Seg FIC FIA), além ainda do Índice S&P/B3 Brasil ESG (BRL), a medir o rendimento das principais ações da bolsa a partir de um sistema de pesos baseado no ranqueamento das empresas em relação ao ESG, o que ilustra bem o avanço da discussão no país.

 

Desta forma, conforme passamos a analisar melhor as críticas que a nova ótica traz, passamos a observar também alguns dos mais clássicos setores, conhecidos por sua atuação consideravelmente desfavorável para com a sociedade, tal como toda a estrutura produtiva mineral. Nesse sentido, empresas como a CSN (CSNA3), Gerdau (GGBR4) e a Vale S.A. (VALE3) tomam destaque, apresentando um retrospecto bastante negativo de negligência pública e ambiental, o que alude diretamente aos grandes desastres da última década, como o rompimento da barragem em Mariana (MG), em novembro de 2015, referente às atividades da Samarco Mineração S.A. e o caso semelhante de Brumadinho (MG), em janeiro de 2019, que deixaram juntos centenas de mortes, além de um rastro de devastação que afetou duramente ambas as cidades. Paralelamente a isso, os danos ambientais também foram bastante severos, ao passo que os resíduos tóxicos das barragens devem permanecer a influencer o ecossistema local por alguns anos. 

 

Em meio a esse contexto o próprio setor e as empresas relacionadas a ele acabaram por ser afetadas, estando ou não relacionadas diretamente aos acidentes. Dessa forma, houveram retrospectos diretos nas atividades produtivas, que tiveram de ser revistas - o que muitas vezes significou a redução da produção - e auditadas, além do próprio processo legal, com gastos ligados às ações jurídicas de honorários e ressarcimentos, o que naturalmente elevou a percepção de risco e custo de crédito, afetando o resultado da empresa para muito além dos próprio acidente, além do próprio estigma público criado. 

 

Contudo, para além do retrospecto bastante negativo, é interessante notar como essas empresas se vêem forçadas a justamente a adequar a novos padrões produtivos, em função da própria pressão pública que se cria. Nesse quesito, a adoção por processamento a seco, realizada pelas empresas minério-extrativas,como a Vale e a Gerdau, tem se tornado uma adoção cada vez mais visada, sendo considerada, inclusive, como um decisivo dentro da análise de risco às mesmas; outro importante fator é a aplicação do modal bio-redutor, conhecido por usar carvão vegetal para produção de aço, sendo considerada a o modelo ambientalmente menos prejudicial,dada o menor índice de emissão dos gases de efeito estufa. Além disso, a própria reciclagem também toma destaque dentro desse conjunto de ações mais positivas, de modo que a própria Gerdau se mostra atualmente como um grande exemplo, sendo maior processadora de sucata das Américas, com uma faixa anual de 2,5 milhões de toneladas no país em todo ano. Desta forma, é interessante notar como se vê no setor um maior conjunto de esforços à remediação dos problemas postos, contudo os recentes eventos e a própria pegada ambiental que o setor causa não deixam dúvidas acerca do longo caminho que há pela frente. 

 

É interessante notar que o caso das mineradoras, apesar de gerar uma forte reação por parte do governo, acaba não se relacionando diretamente aos consumidores, o que muda de figura no caso das produtoras de proteína animal. Tendo no desmatamento seu principal subproduto negativo, com 80% do desmatamento da Amazônia ligado a pecuária e o cenário não é muito diferente no cerrado, a discussão ganha contornos bastantes sensíveis. 

 

É preciso entender, no entanto, como funciona a cadeia produtiva da carne bovina para compreender o papel dos principais players do mercado no combate ao problema. O ciclo começa nas fazendas de reprodução e criação de gado, chamadas de fornecedoras indiretas, a segunda fase se dá nas fazendas finais, onde acontece o confinamento, conhecidas como fornecedoras diretas. A última fase é quando ocorre o abate e o processamento da carne, é justamente nesse último estágio que grandes empresas como JBS (JBSS3), Marfrig  (MRFG3), BRF SA (BRFS3) e Minerva (BEEF3) concentram a maior parte das suas atividades.

 

Fonte: Chain Reaction Research (CRR)

 

A partir disso, conclui-se que essas companhias não atuam diretamente no desmatamento, tendo o papel de monitorar e rastrear os passos anteriores para garantir um processo sustentável. Uma vez assegurado que os fornecedores diretos representam uma pequena parte da questão, vê-se que o problema real se passa no monitoramento dos fornecedores indiretos, nas fazendas de reprodução e criação animal, parte da cadeia que concentra as atividades de desmatamento. É importante notar, no entanto, que as empresas estão em diferentes estágios na adequação dessas políticas, adotando diferentes iniciativas para conter o problema.

 

Dessa forma, ainda engatinhando no processo, a JBS apresenta questões tanto de governança quanto ambientais. Faz-se assim notável o peso da governança corporativa sobre as métricas de ESG, de modo a posicionar a companhia em colocações bastante delicada, o que se explica pelo próprio histórico polêmico. Na questão ambiental, são perceptíveis esforços recentes com o objetivo de atenuar os efeitos dos desmatamentos com a criação fundos de até de R$ 1 bi para investimentos no desenvolvimento sustentável do bioma amazônico. Por outro lado, a companhia está ligada a mais de 70 mil acres de desmatamento desde 2008, sendo seus fornecedores indiretos responsáveis por mais de 50 mil deles. Desta forma, o resultado se dá na própria métrica da MSCI, que classifica a empresa como CCC.

 

Já a sua concorrente Marfrig, se mostra mais alinhada com a cultura ESG, se colocando consideravelmente superior nos ratings, como é o exemplo do próprio rating da MSCI, em que foi classificada como AA. Nesse sentido, pode-se destacar o projeto “Plano Marfrig Verde +”, com o objetivo de garantir uma cadeia de produção 100% sustentável e livre de desmatamento nos próximos 10 anos, com um investimento na ordem de R$ 500 milhões. O segundo, em parceria com a Embrapa, foi o lançamento da marca “Viva”, de carnes com atributos de sustentabilidade e carbono neutro (CCN), que é uma certificação dada para o gado criado em sistemas silvipastoril (integração pecuária-floresta) ou agrossilvipastoril (integração lavoura-pecuária-floresta), com efeito comprovado na mitigação dos gases de efeito estufa liberados na produção da proteína animal.

 

Vê-se assim que o setor de proteína animal se apresenta ainda muito problemático em relação às questões ESG, principalmente no que diz respeito ao desmatamento, ao passo que também apresenta uma dinâmica própria de progressos e retrocessos em suas pautas produtivas, contudo é bastante claro como as empresas tendem a gerir cada vez mais esforços para se afastarem do estigma mais negativo que carregam. 

 

Já em contraponto, podemos destacar o setor de bens e serviços, a se desenvolver, em geral, com uma visão mais consciente de sua produção e buscando meios de diminuir o impacto ao meio ambiente e ao coletivo por meio de projetos sociais, reciclagem e reaproveitamento, de modo a se destacar como um dos grandes destaques na ótica ESG. Ao que nos tange, a afirmação de João Paulo Ferreira, CEO da Natura (NTCO3), parece se mostra mais comumente posta em prática, afirmando que a “Sustentabilidade não é um custo adicional, não é um pedágio, é um investimento para melhores negócios”, o que, no caso da empresa de cosméticos, tem significado projetos que, para além das pautas socioambientais mais usuais, também incluem uma maior diversidade dos funcionários, conquistar a equiparação salarial e consumir energia sustentável. 

 

Pode-se assim destacar o projeto “Amazônia Viva”, que preza pela por uma extração que mantenha a floresta em pé e valoriza o trabalho dos moradores locais, de modo a unir o lucro da empresa ao respeito pela cultura e vivência local. Para isso, a empresa conta com mais de 5,1 mil famílias fornecedoras, oferecendo seu apoio mais direto, de modo garantir o desenvolvimento de sua linha Ekos e alternativas inclusivas para a Amazônia - o que consiste em trabalhar na extração do máximo de recursos da floresta sem prejudicar o bioma e assim fomentar ainda a economia local. São três os pilares que sustentam o projeto: (1) Ciência, Tecnologia e Informação, com pesquisas focadas na biodiversidade e agricultura sustentável; (2) Cadeias Produtivas de Sociobiodiversidade, com aprimoração e expansão das cadeias produtivas sustentáveis na Amazônia e (3) Fortalecimento Institucional, através do empoderamento das instituições locais. Desta forma, o projeto conquistou a Patente Verde, concedida pelo INPI, sendo assim a primeira empresa de cosméticos do Brasil com o certificado.

 

Para além, a companhia mostra grande responsabilidade socioambiental promovendo embalagens menos poluentes. Nesse sentido, fundou ainda em 2010 a linha de produtos “Crer para Ver” em 2010, a qual toda a rentabilidade dos produtos é revertida para projetos na área da educação pública, destinados, inclusive, na capacitação de professores, com foco na capacitação de alfabetização dos mesmos, além investir em projetos gestão pública sob esse viés.

 

Ademais, podemos destacar também a participação da Renner (LREN3) que, tal como a Natura, apresenta também alguns projetos bastante relevantes nesse aspecto. Podemos, porém, destacar a forma com que a empresa vem elaborando meios de criar peças com um menor impacto ambiental e se destaca como a única varejista brasileira que faz parte do Índice Dow Jones de Sustentabilidade em 2019, que avalia o desempenho das companhias no âmbito sustentável. Dentre suas ações, podemos destacar seus esforços em razão do consumo consciente, que se dá através da produção de peças de vestuário com material reciclável. Nesse sentido, a empresa tem buscado aproveitar sobras de tecidos que são desfibradas e transformadas em um novo fio, diminuindo assim a geração de resíduos - o intuito é reduzir o consumo de água na produção de jeans, o que traz resultados bastante importantes, com a redução de até 44% em todo o processo de fabricação.

 

Por mais que algumas empresas apresentem alguns planejamentos para um desenvolvimento sustentável da economia, o Brasil infelizmente se mostra bem atrasado no quesito preservação ambiental. São poucas as políticas governamentais que valorizam métodos produtivos alternativos e mais sustentáveis, ao passo os esforços das empresas, em grande medida, também se mostram em um estágio incipiente, com uma preocupação bastante limitada em alterar o atual cenário. Desta forma, a vemos que a implantação de uma cultura ESG parte desde os incentivos governamentais quanto privados, criando uma lógica mais justa a todos, de modo que a principal discussão passe a ser, para além do crescimento estritamente econômico, também relacionada a um desenvolvimento sustentável, prezando para uma relação consciente com o ambiente, à sociedade e a própria comunidade, através dos esforços corporativos, prezando pela produção consciente sem exploração do meio ambiente e de seus funcionários. 


 

Relatório desenvolvido por: Beatriz Viola, Isabela Consorte e Mariana Venancio

 

Edição final: Welker Abner

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