"> Editorial - Setembro/2020

6 de Outubro de 2020

Editorial - Setembro/2020

Editorial LMF - Setembro

 

Com um contexto internacional mais estável, o cenário interno teve foco durante setembro. Com destaque às questões políticas, o noticiário cuidou das recentes rusgas entre o Bloco Europeu e o Reino Unido em relação à interminável novela do Brexit, o que se somou a uma nova postura diante da China, ao passo que o Gigante Asiático, a despeito de uma recuperação econômica mais consistente, acumula também problemas com os EUA, acentuados conforme clima eleitoral se intensifica. Os EUA, por outro lado, tem vivido o processo à flor da pele em meio ao início dos debates, com toda polêmica e polarização que o momento permite. Por fim, o Brasil passa por seu própria drama interno, com questões ainda políticas, mas também fiscais que têm tirado o sono do mercado. 

 

Durante o mês, as preocupações referentes à Covid-19,  voltaram à tona ao passo que importantes países da Europa, como a Espanha e a França, ultrapassaram os 500 mil casos registrados da doença. Contudo, o continente se mostra como um importante bastião de confiança global aos investidores conforme se vê um fortalecimento de 10% da moeda local em relação ao dólar (encerrando o mês em uma média de US$ 1,17), sobrecarregando a economia da região e tornando suas exportações menos competitivas em meio à primeira deflação da Zona do Euro nos últimos quatro anos. Apesar de tudo isso, a última reunião do Banco Central Europeu (BCE) optou por manter sua política monetária estável, sem correções em sua já bastante baixa taxa de juros (mantendo sua principal cifra em -0,5%).

 

O mês ainda representou um acirramento de questões referentes a importantes acordos comerciais envolvendo o continente. Com fortes críticas ao atual cenário ambiental brasileiro, diversos países europeus se mostram contrários ao tratado comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, acrescentando mais entraves ao já complicado processo. Além disso, a situação do Brexit voltou a dar as caras após o Reino Unido tentar modificar unilateralmente parte do acordo, alterando as normas estipuladas às fronteiras entre as Irlandas e buscando o controle alfandegário da região, diferentemente do acordado inicialmente. Segundo Boris Johnson (premiê britânico), a medida seria uma forma de evitar o desabastecimento alimentar na região, mostrando, porém, um claro nervosismo com o prazo final à relação comercial com o bloco (que se encerra ao final de 2020). Espera-se assim uma nova rodada de negociações entre as partes durante outubro.

 

No sentido econômico, pôde-se observar um cenário mais afetado pelas restrições pandêmicas. Com um considerável recuo em relação a agosto, o Índice de Preços de Gerentes de Compras (ou PMI Markit, na sigla em inglês) de serviços da Zona do Euro passou de 51,9 para 50,4 pontos, retratando as medidas de isolamento que voltam a se implantar pelo continente, resultado que se compensa com o setor industrial, que passou de 51,7 pontos para 53,7, projetando um índice composto de 50,4 (ante 51,9 no mês anterior). Dentre as principais economias do bloco houve um movimento semelhante, de modo a Alemanha e a França apresentaram, respectivamente, 54,7 e 48,5 pontos no índice composto - o resultado se reflete sobre a taxa de desemprego do bloco, em seu quinto mês consecutivo de alta, atingindo 8,1%.

 

Ao contrário do resto do mundo, a China permanece a apresentar sinais consistentes de uma melhora na economia conforme volumosos investimentos do governo, somados ao apetite dos consumidores, passam a trazer resultados importantes ao país. A curva do PIB tem esboçado assim a esperada recuperação em “V”, fruto de controle efetivo sobre a Covid. Com uma forte atuação através de crédito e subsídios às empresas, além de estímulos ao setor público, formulam-se projeções tais quais a de Qu Hongbin, economista-chefe do banco HSBC na China, a calcular que no segundo semestre do ano o gasto em infraestrutura crescerá 15% em relação à 2019. As estimativas se somam às próprias projeções do governo, conforme o Banco Popular da China prevê um crescimento de 6% do PIB no quarto trimestre.

 

Entre os principais indicadores do país, o PMI permaneceu acima dos 50 pontos pelo quinto mês consecutivo, indicando um avanço econômico. Nesse sentido, os dados referentes a setembro mostram que a expansão ao setor de serviços apresentou uma pequena queda em relação ao mês  anterior (de 54,1 para 54,0), indicando, porém, uma forte expansão. O indicador industrial, por sua vez, teve um breve avanço, passando de 51,0 para 51,5. Os resultados mostram um importante retrospecto à indústria do país, que tem retornado aos níveis pré-pandemia.

 

Dentro do ambiente diplomático, as recentes posturas tomadas pelo país em relação a Hong Kong, a desconfiança internacional ligada à investigação da Covid-19 e a própria percepção internacional sobre o avanço econômico chinês parecem estar trazendo frutos bastante negativos. Após anos de parceria mais direta, a Europa parece estar se afastando do gigante asiático, o que, em meio a um tom mais ríspido e protocolar na última Cúpula UE-China, indica se ressoar por toda Bruxelas. Para além disso, há ainda os próprios confrontos com os EUA, intensificados em meio à iminência das eleições, na estratégia de Trump em pressionar mais o país em sua campanha eleitoral. De tal forma, o país continental enfrenta uma desconfiança internacional bastante prejudicial, podendo a ter seu processo de recuperação afetado. 

 

Já nos EUA, os dados sobre os novos casos e mortes referentes ao coronavírus se mostram relativamente estáveis pelo mês, apesar do alto patamar. A economia norte-americana continua sofrendo os impactos da pandemia, porém, em menor escala, desde que os estímulos monetários e fiscais começaram a concretizar sua eficácia na economia real. O  PMI industrial permaneceu estático em 53 pontos desde agosto, o que por um lado demonstra que a economia está em expansão (valores maiores que 50), mas também mostra que após rápida recuperação, estamos prestes a continuar a observar o antigo processo de baixa expansão no setor industrial, que já apresentava esses sintomas antes da pandemia.

 

Em relação ao desemprego, o mercado parece se encontrar numa relação relativamente estável, recuperando os empregos perdidos ao longo da pandemia aos poucos. Quase metade de todos os 22 milhões de empregos perdidos em março e abril foram recuperados, deixando a taxa de desemprego em 8,4% ao final de agosto. Com os gastos das famílias subindo aos poucos e o mercado imobiliário apresentando forte recuperação, o FED espera que a taxa de desemprego chegue a 7,6% até o final do ano. 

 

O mês ainda foi marcado pelos discursos proferidos pelo FED, em especial, o discurso feito no dia 16, pelo presidente Jerome Powell. Diante do cenário totalmente adverso enfrentado pelos formadores de política monetária, um “novo” sistema de metas de inflação foi levantado pela autoridade monetária. Nesse novo sistema, a meta de inflação deixa de ser um número específico – ou uma faixa de números – e passa a ser uma taxa média de inflação. Agora, a inflação poderá, em determinados momentos, estar acima ou abaixo da meta de 2% sem maiores problemas, pois o que importará para o FED é mantê-la em 2% na média ao longo de x anos. Nenhum esclarecimento foi feito sobre a janela de tempo da média (variável x), o que deixou o mercado intrigado, mas aliviado ao mesmo tempo, já que isso demonstra uma certa flexibilização do sistema antigo de metas de inflação e permite que o FED continue a manter as taxas de juro próximas de 0% por um período mais longo. Tal fato foi inclusive sinalizado pelo FED, que assinalou a manutenção da taxa de juro em 0% até 2023, tentando trazer mais estabilidade aos mercados.

 

Por fim, já no cenário político, pode-se citar o avanço nas eleições, conforme as pesquisas eleitorais começam a se tornar o centro do debate nos Estados Unidos. A disputa entre os candidatos Donald Trump e Joe Biden passaram a ficar mais acirradas recentemente, porém, a vantagem ainda está para Biden. Dos 270 votos eleitorais totais, estima-se que Biden já conta com 183 contra apenas 88 de Trump, já que o candidato está ganhando em estados importantes como Califórnia, Nova York e Illinois. Apesar de Trump voltar a se apoiar na recuperação econômica e nos ataques à China, Biden, mais recentemente, conseguiu se beneficiar dos resultados do tumultuoso debate e, sobretudo, do diagnóstico de Trump, infectado pela Covid-19, projetando justamente uma postura de maior atenção sanitária que o atual presidente.

 

Já a economia brasileira, apesar de apresentar alguns importantes indicadores positivos de recuperação, tem se tornado cada vez mais exposta ao risco fiscal. Apresentando certa dificuldades no alongamento de suas dívidas, tem-se visto uma pressão para o DI futuro bastante altista, o que revela os temores do mercado em relação à possibilidade do ajuste do Teto de Gastos. Setembro também se revelou um mês de estresse para o câmbio, que voltou a explorar a casa dos R$ 5,60, em meio às polêmicas envolvendo o governo. 

 

O alto patamar cambial tem se manifestado diretamente sobre a inflação do país, conforme visto mais claramente sob a cotação dos produtos agropecuários, resultado de um aumento de 21,5% no IPA agrícola pelo ano. Apesar da situação ser considerado mais propriamente um choque pontual, relatórios importantes como a ata do Copom indicam um cenário de atenção, deixando dúvidas sobre o direcionamento das políticas monetárias do país em meio a cenários mais estressados, com um real constantemente desvalorizado e uma inflação ao consumidor mais forte, o que, porém, passa a depender do dinamismo no setor de serviços (como educação, turismo etc.), altamente afetado pelos efeitos da crise.

 

Nesse sentido, faz-se também interessante analisar a própria decisão do Comitê de Política Monetária, que interrompeu seu histórico ciclo de cortes, mantendo a atual taxa de 2,00%. Com um teor ainda bastante incerto, o órgão apontou justamente uma preocupação referente à política fiscal e variação dos preços no país, reafirmando, porém, a existência de espaço para novos estímulos, ainda que modestos. Além disso, a última ata ainda indicou um “forward guidance”, próximo à resolução estadunidense, apontando para uma permanência de um nível próximo ao atual por ao menos 2021, reafirmando assim a percepção do mercado mais a médio prazo acerca de uma tendência de estabilidade cambial, controle da inflação e, consequentemente, redução das pressões sobre a curva de juros futura.

 

Já no campo político, pode-se destacar as medidas apresentadas pelo Governo para dar sequência ao chamado “Renda Cidadã”, pacote social que funcionaria como uma extensão do Bolsa Família - atuando sobre a população mais vulnerável em meio ao contexto de disrupção econômica. Apesar do programa já ser esperado, a fonte de recursos sugerida, surgindo de parte do Fundeb e dos Precatórios, não agradou o mercado, que respondeu rapidamente sobre o câmbio e DI. Em meio a esse contexto, uma nova aproximação entre o Planalto, Senado, Câmara e Judiciário tem sido desenvolvida, visando agora novas fontes de financiamento, que novamente traz ares à PEC 45, compondo a Reforma Tributária ao novo imposto sobre transações digitais.

 

Já ao campo econômico, faz-se interessante citar o nível de desemprego. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid (Pnad Covid-19) divulgados ao fim de setembro, a taxa de desemprego brasileira atingiu durante o mês a marca de 14,1%, resultado que, apesar de bastante elevado, mostra uma maior estabilização, indicando que uma possível melhora dentro dos próximos levantamentos, o que se acentua conforme os dados divulgados também apontam uma diminuição da parcela ocupada que permanece afastada do trabalho, atualmente em 3,7% (com uma diminuição contínua). 

 

No quesito produtivo, o país tem apresentado resultados mais animadores. Dentro do setor de varejo restrito, o nível de vendas retornou a patamares anteriores à crise de 2015, muito acima do pré-pandemia, beneficiadas pelas transferências de renda, pelo e-commerce, pelo crédito e pela substituição do consumo de alguns serviços por bens. O setor de serviços, por sua vez, ainda está atrás neste ciclo de recuperação, mas a tendência de retomada mais firme iniciada julho, com a flexibilização de algumas medidas de distanciamento social, permanece, indicando um retrospecto mais positivo. 

 

A indústria também apresenta bons retrospectos. Com um nível de utilização também em patamares próximos ao pré-crise de 2015, agosto registrou um avanço de 3,2% na atividade manufatureira (ante avanços, respectivamente, de 8,9% e 8,0% em junho e julho), consolidando um avanços mais compensado, porém ainda bastante significativo, preenchendo uma demanda reprimida no mercado interno e externo (o que, porém, ainda se mostra insuficiente para compensar as perdas entre março e abril, que representaram uma retração de 27% acumuladas durante o período). O destaque do mês de agosto ficou para o aumento de 18,5% na produção de Bens de Consumo Duráveis (com destaque à produção de veículos automotores, reboques e carrocerias).

 

Vale ainda ressaltar as altas consecutivas apresentadas às projeções apresentadas pelo Boletim Focus em relação ao PIB do ano, que, junto de outros levantamentos, convergem à queda de 5%. A cifra, embora bastante negativa, revela uma melhora significativa em meio às previsões mais catastróficas do início da pandemia, apontando a quedas próximas aos 10%. É evidente, porém, que atuação dos auxílios emergenciais  teve uma participação decisiva nessas melhora, o que justamente dá o tom às discussões que deverão se formar durante outubro, ao passo que a manutenção do quadro de auxílios, mesmo que diante de outras roupagens, ganha mais peso, seja na perspectiva do governo, com um ganho de popularidade, seja na perspectiva econômica mais agregada. Esse novo pacote, porém, exige um novo enquadramento fiscal, que deve testar mais uma vezes as volúveis articulações do Governo pelas próximas semanas. Em meio a tudo isso, a aproximação das eleições estadunidenses também devem deixar sua marca no país, implicando em um cenário mais instável.


 

Trabalho desenvolvido por:

Ana Barbara Tsivum

Luis Felipe de Miranda Arthur

Matheus Shiro Pinheiro Hirata

Victor Pelachin Borges da Silva


 

Edição Final:

Welker Abner de Oliveira

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