"> A inflação no Brasil: Para além do feijão com arroz

17 de Setembro de 2020

A inflação no Brasil: Para além do feijão com arroz

A inflação no Brasil: Para além do feijão com arroz


 

Nas últimas semanas o preço do arroz (que subiu 120% nos últimos 12 meses) tem ressuscitado o debate acerca da inflação no país. Verdade seja dita, basta uma ida rápida ao mercado e uma olhada mais atenta à cesta básica de consumo (incluindo feijão, carnes etc.) para se constatar que de fato há algo de estranho. Em meio a tudo isso e com um cenário pandêmico como plano de fundo, o velho dragão, aparentemente adormecido, da inflação volta a dar as caras, relembrando os, não tão saudosos, tempos de hiperinflação que o país enfrentou, sobretudo pela década de 1980. Entretanto, o debate, como de praxe na economia, acaba sendo mais complexo, ganhando nuances próprias de cada período e situação. Dito isso, nosso objetivo aqui é tentar discutir um pouco mais sobre o que de fato é a inflação, como ela se reflete histórica e atualmente no cenário brasileiro e, por fim, o quadro atual e como ele apresenta desafios para o consumo do tão amado feijão com arroz.

 

Começando pelo começo

Antes de tudo, sob uma definição mais básica, é interessante observar que para além de uma “alta de preços”, a inflação se dá sobre uma escalada generalizada e constante do custo da cesta de consumo. Definir isso é importante pois nos permite diferenciar aumentos esporádicos de custos de um determinado produto em decorrência de situações mais extremas, como é o caso atual, de processos de fato mais macroeconômicos, que se dão em meio à elevação dos níveis de preço, afetando produtos e serviços gerais, por períodos de tempo maiores e a impactar o país estruturalmente de modo mais completo - obviamente o processo gera efeitos dramáticos à população, seja por uma escalada inflacionária, seja por um aumento pontual, contudo é importante distinguir bem os problemas pois eles requerem respostas um pouco diferentes.  

Nesse sentido, antes de buscar compreender propriamente o atual processo econômico presente no Brasil, faz-se interessante realizar uma pequena regressão teórica e histórica, de forma com que possamos ir compreendendo bem o que é e o que causa um processo inflacionário.

Dito isso, ao pensarmos na inflação, como um fenômeno macroeconômico, pode-se elencar três principais determinantes: (1) Câmbio; (2) Dinamismo econômico e (3) Taxa de juros.

  1. Ao se analisar o câmbio, pensamos diretamente no poder de compra do real em relação às outras moedas do globo, o que, em grande medida, acaba se relacionando ao dólar, dado que ele se faz preponderante no comércio internacional. Em nossa discussão, isso ganha relevância ao passo que eleva custo de diversos produtos pela economia (como os insumos industriais), aumentando o preço final dos mesmos na ponta, ou seja, ao consumidor.

    Contudo, para além disso, pode-se citar o efeito do câmbio sobre as commodity. Uma moeda menos valorizada acaba, por consequência. significando um aumento dos valores em itens importados (como o arroz), mas o maior impacto acaba se dando nas cotações do petróleo (a variar no mercado interno ao sabor da dinâmica de preços internacionais). Refletir justamente sobre o petróleo acaba se fazendo mais necessário no caso brasileiro pela configuração dos modais de transporte do país, com uma dependência absurdamente alta sobre o combustível fóssil, ao passo que uma elevação de seus preços afeta praticamente toda cadeia produtiva nacional. Assim, Para além de encarecer os produtos diretamente, a taxa de câmbio adquire caráteres bastante particulares na inflação brasileira. 

     

  2. Considerando o dinamismo econômico do país, passamos a analisar, sobretudo, a taxa de desemprego. Isso se dá pois no caso de uma população altamente empregada e uma economia mais aquecida (o que de longe não é nosso caso), as empresas que buscarem mão-de-obra acabam tendo mais dificuldade para contratar, dado que há menos pessoas buscando empregos, de modo que se vêem obrigadas a elevar seus salários como uma forma atrair funcionários - o que, por sua vez, se traduz também em um aumento salarial pelas empresas com quadros de colaboradores mais robustos, como uma forma de justamente se garantir à perda do mesmo.

    O efeito final disso se dá em um aumento generalizado da massa salarial do país. A receita então já é bastante conhecida: mais salário implica em mais consumo, que aumenta a demanda por produtos e consequentemente gera um aumento produtivo até o limite da economia; uma vez nesse limite, a oferta deixa de crescer, elevando então os preços gerais.

     

  3. Já a Taxa de juros, por sua vez, acaba refletindo na atividade econômica indiretamente. Uma Selic mais baixa, como é o caso atual, pode melhorar as perspectivas de investimento de uma empresa, que agora pode contrair empréstimos com custos menos elevados, ao passo que também induz investidores a tirarem suas reservas de títulos públicos ou poupanças, que com baixos rendimentos deixam de ser tão atrativos, fazendo-os partirem para uma alocação dentro dessas companhias, garantindo um maior acesso de capital às mesmas, o que se traduz em maiores investimentos e no dinamismo econômico geral.

 

Dito isso, é válido ressaltar que esses são aspectos que atingem os custos totais da economia, ou seja, pensamos aqui em um modelo básico macroeconômico. Nesse quesito, faz-se interessante observar que o país se encontra com uma taxa de juros historicamente baixa, em retrospecto a um câmbio extremamente desvalorizado (fenômenos que justamente beneficiam um processo inflacionário), contudo, a atividade econômica brasileira se encontra fragilizada em decorrência do processo pandêmico (o que a redução do PIB em 9,7% no 2T20 já mostrou claramente), ou seja, a situação não é exatamente simples. Desta forma, determinar se de fato ocorre ou ocorrerá um processo inflacionário (com essa escalada generalizada e constante de preços) não pode e nem deve ser algo feito com tamanha leviandade. 

 

Um histórico turbulento

Falar de inflação no contexto de Brasil é sempre “cutucar uma ferida” que parece nunca sarar de fato e sempre provoca um arrepio na espinha daqueles que são defrontados com este tema. Se um IPCA de 10,69% em 2015 numa série em que até 2018 tinha meta de inflação em de 4,5% ao ano assusta as pessoa mais novas, relembrar dos anos 1980, que carrega a alcunha de década perdida, com inflações galopantes exponenciais é de desanimar qualquer um com uma boa memória acerca das variações de preços, despertando na mente o barulho da máquina de preços trabalhando 24 horas por dia reajustando constantemente o valor econômico dos produtos dentro dos supermercados.

A inflação ainda é um assunto difícil de se tratar basicamente devido a dois motivos. O primeiro é devido ao período que o carma da hiperinflação assombrou o país, de 1979 a 1994; foram 15 anos de inflações anuais chegando ao nível de 1972,91% em 1989 (IPCA) e 2477,15% em 1993 (IPCA). Entre 1980 e 1994, o índice IPCA acumulado ultrapassou 13 trilhões em percentual, um valor inimaginável que marcou toda a população que viveu essa época.

Vários fatores foram elencados como responsáveis por causar a década perdida, no entanto há diversos debates ainda hoje acerca dos fatos que realmente foram essenciais para gerar a hiperinflação. Mas, discussões à parte, é interessante entender suas colaborações e relevâncias e para compreender esses fatos o ponto de partida é o governo Juscelino Kubitschek (JK).

Em 1956, JK foi eleito com a promessa de reverter o atraso da economia brasileira em relação ao mundo desenvolvido, de modo a investir fortemente em seu programa de metas visando tornar eficiente os setores tidos como “motor” da economia e ainda arquitetar a criação de uma nova capital para integrar o país. O crescimento de “50 anos em 5” foi feito utilizando “mundos” e fundos privado e público, de tal modo que essa empreitada custou caro aos cofres públicos, refletindo no desempenho econômico do país. O financiamento de tais empreendimentos, caros ao governo Kubitschek, se deu através da pressão inflacionário e alta da dívida externa, basicamente expandindo a base monetária e contraindo empréstimos no exterior, aí está o primórdio de um dos fatos que corroboraram à hiperinflação de quase 30 anos mais tarde. 

Os governos seguintes, de 1961 a 1963, falharam em conter o arrefecimento econômico e alta inflacionária que vinham desde 1956. Em 1961 a inflação acumulada já batia os 47,8% (IGP-DI) e não parava de crescer; em 1962 a economia só cresceu 0,6% (PIB) e no ano seguinte entrou em recessão, apresentando um cenário de estagflação, alta dos níveis de preços e queda no crescimento econômico. No final de 1964 a economia apresentava uma inflação acumulada de 92,12% (IGP-DI) - vale lembrar que o IPCA ( índice de Preços ao Consumidor Amplo) é o índice de inflação oficial desde 1980 feito pelo IBGE, ao passo que de 1948 a 1979 o nível de preços era calculado pelo IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna) - de forma com que o novo governo assumiu com problemas econômicos e políticos que se arrastavam de anos anteriores.

A partir de 1964 uma série de medidas políticas e econômicas sob o governo militar seriam adotadas para conter os problemas herdados dos governos antecessores. Logo após a o golpe de Estado de 1964, Roberto Campos e Octávio G. de Bulhões foram convocados para as pastas, respectivamente, do Planejamento e Fazenda. Sendo ambos de perfil ortodoxo, concentraram-se na dura missão de conter o processo inflacionário e retomar o crescimento econômico. Para tanto medidas austeras foram postas em prática e um programa de ação iniciado: o Paeg (Plano de Ação Econômica do Governo), que em suma tinha o objetivo não de acabar com a inflação, mas sim controlá-la a patamares razoáveis (que para a época era de no mínimo 10% na projeção dentro de três anos); reativar as exportações; desacelerar o financiamento externo para desafogar o Balanço de Pagamentos e, por fim, conter os gastos públicos, aumentando as arrecadações via reformas fiscais e administrativas. 

O programa desenvolvido pelo Governo foi posto em prática e de fato trouxe resultados. A partir de 1966 o PIB passou a crescer mais consistentemente, ao passo que o nível de dívida externa aumentava a um nível mais razoável e a inflação, mesmo que longe dos 10% previstos, alcançou em 1967 o nível de 25,01% (IGP-DI). O período seguinte, já mais estabilizado, abriu portas para que uma retomada do crescimento fosse iniciada, associando-se a uma nova interpretação da questão inflacionária pelo então ministro Delfim Netto, estímulos pesados para reduzir os custos de produção e consequentemente o preço final dos produtos foram tomadas. De 1968 a 1973, a economia nacional passava pelo “milagre econômico” em que apresentou um crescimento do PIB numa média de 11,15% ao ano, sendo em 1973 o maior crescimento do período com 14% de elevação, além de taxas de inflação sob controle em média 19,13% ao ano. No entanto, para financiar os empreendimentos nacionais, as obras faraônicas e o sistema financeiro nacional, o governo recorreu a emissão de títulos e empréstimos estrangeiros “ a torto e a direito”, elevando as dívidas interna e externa.

Esse período de grande crescimento econômico, controle inflacionário e, até mesmo, alto endividamento teria sido um grande presente para o governo seguinte, de Emílio Garrastazu Médici, se não fosse um “balde d’água fria” geopolítico vindo do Oriente Médio chamado de “Primeira Crise do Petróleo”. Uma elevação de mais de 4 vezes no valor nominal da commodity fez com que a inflação no mundo inteiro se elevasse abruptamente e no Brasil a inflação, a partir de 1974, começou a acelerar. Se em 1973 o IGP-DI fechou o ano em 15,54%, no ano seguinte já tinha ido a 26,9%, oscilando drasticamente até 1978 (chegando ao seu pico em 1976, atingindo 46,26%). Contudo, partir de 1979, o cenário inflacionário que já estava complicado, se tornou um caminho muito bem pavimentado para o desastre. Somando-se ao constante aumento da dívida interna e da dívida externa que de 1973 a 1979 aumentou quase 400%, o PIB em gráfico se assemelhava a um eletrocardiograma e o tal do “milagre econômico” deu lugar a rezas e orações para o que estava por vir.

1979 se tornou assim um ponto de inflexão tão relevante quanto 1973. Foi nesse ano que ocorreu a “Segunda Crise do Petróleo” e o preço do óleo, já bastante elevado, aumentou ainda mais. Num país predominantemente rodoviário como o Brasil, essa elevação puxou novamente de forma vigorosa a inflação. A dívida externa brasileira desde 1973 tinha ganhado dinâmica própria e seus custos e amortizações já não eram mais pagos com uma balança comercial positiva e o país necessitou fazer novos empréstimos para cumprir com a obrigações internacionais, elevando as dívidas internas e externas.

Por fim, nesse ano tão conturbado, a “pá de cal” foi um evento chamado Choque Volcker, em que o presidente do Federal Reserve, Banco Central estadunidense, visando controlar a inflação que perdurava nos Estados Unidos por toda a década de 1970, decidiu elevar a taxa referencial de juros dos EUA para 20% ao ano, gerando uma queda na liquidez global, valorizando o dólar e encarecendo as dívidas externas, afetando principalmente os países emergentes. A alta das taxas de juros pelo FED tornou a dívida externa brasileira impagável; se até os anos 1979 a dívida correspondia a 25% do PIB, após 1980 a mesma dívida correspondia a mais da metade do Produto. Para tentar minimamente reverter o quadro cataclísmico no final do ano de 1979, o Brasil fez a uma maxidesvalorização cambial para impulsionar exportações, causando uma depreciação de 30%, que culminou com a aceleração da inflação.

Contextualizado o que foi o ano de 1979, os anos seguintes foram deveras turbulentos. O alto endividamento do país, a expansão monetária sem fim e a alta do dólar impulsionaram a inflação de altos 99,2% (IPCA) em 1990 para mais altos ainda 242,24% em 1985 quando a ditadura militar cai no Brasil, entregando um país com crescimento praticamente nulo desde a recessão de 1981, além de índices galopantes de inflação. O ano de 1986, por sua vez, apresenta uma inflação um número nominal mais modesto devido à Reforma Monetária, estabelecendo o Cruzado como nova moeda; um deslocamento a partir de fevereiro da apuração do IPCA para que os valores anteriores a fevereiro não contaminassem o índice e por fim o congelamento de preços e do câmbio. No caso dos preços, utilizou-se o efeito coercitivo dos chamados “fiscais do presidente” ou “fiscais do Sarney”, que, em síntese, fiscalizavam os comércios quanto ao tabelamento dos preços, assim ao final de 1986, o IPCA acumulava uma alta de quase 80%. 

O sucesso do chamado Plano Cruzado de Sarney funcionou a curto prazo, superaquecendo a economia, contudo o congelamento dos preços feriu o princípio da Lei de Oferta e Demanda, causando distorções no mercado. Com alguns bens e serviços sendo congelados, houve uma defasagem de seus valores em relação a outros bens e serviços, uma medida como esse engessa a rentabilidade de seus alvos, minando os incentivos sob sua produção. De tal modo, em meio a uma economia já mais aquecida, sentiu-se um choque entre o crescimento da demanda pelas cestas básicas de consumo e sua oferta, fazendo com que os  produtos começaram a sumir das prateleiras, iniciando um processo de desabastecimento - surgiu aí um mercado paralelo com preços muito mais elevados, esses preços não fazendo parte do cálculo do IPCA. 

O desabastecimento forçou assim o país a importar produtos, o que porém não resolveu o problema. A despeito do congelamento do câmbio, havia a inflação inerente às moedas no mercado externo, o que implicava em custos elevados demais aos consumidores,de modo que a partir dali o congelamento de preços não se fazia valer sustentável, causando um repique extraordinário à inflação. Após o Plano Cruzado, vieram outros planos: Bresser (1987), Verão (1989), Collor I (1990) e Collor II (1991), todos com ousadas práticas para conter a inflação, mas que os números a seguir mostrarão suas sucessivas falhas. Os IPCAs de cada um desse anos se deram respectivamente 363,41%, 1972,91%, 1620,96% e 472,69%. Logo após em 1992, a inflação já voltou a 1119,09% e em 1993, o recorde de 2477,15%, mostrando que as medidas tinham princípios ideias mirabolantes, sempre “batendo na mesma tecla” em congelar alguma coisa, seja preços, tarifas ou poupanças, como no governo Collor. De fato, só após a implantação de um plano que levasse em conta todas as flutuações e implicações da Lei de Oferta e Demanda e uma sólida Economia de Mercado é que a inflação foi controlada, o que ocorreu partir de 1995, primeiro ano após o Plano Real. De tal modo, os frutos de política econômica mais sóbria se mostraram rapidamente e assim, em 1996, o Brasil experimentou pela primeira vez uma inflação de apenas 1 dígito, com um IPCA de 9,56%.

 

Gráfico de autoria própria com dados do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) do IBGE

 

Os índices de níveis de preços

Em decorrência de todo processo hiperinflacionário, o Brasil possui vários tipos de métricas para medir o nível do poder de compra dos brasileiros e apesar de serem vários para inflação, engana-se quem pensa que inflação é tudo igual. Os índices distintos medem o aumento no preço de alguns itens específicos, mas cada um analisa os preços de acordo com sua aplicabilidade, sejam eles produtos, localidades e rendas diferentes, ao passo que são calculados por instituições diferentes, sendo os mais comuns desenvolvidos pela Fundação Getúlio Vargas e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O IPCA, já comentado, é o chamado Índice de Preços ao Consumidor Amplo e corresponde a uma análise dos 400 itens mais consumidos por famílias com renda mensal entre 1 e 40 salários mínimos observados em 13 capitais. É o índice oficial que baliza o rendimento de alguns títulos públicos e alguns de renda fixa. O seu antecessor, o IGP-DI, Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna -, disponibiliza todo dia 21 do mês os preços no atacado para produtores, no varejo para consumidores e na construção civil, desenvolvendo-se por uma média ponderada numa proporção respectiva de 60%, 30% e 10%. Há ainda o IGP-M que é similar ao indicador anterior, mas mede o movimento médio dos preços em 30 dias corridos. Ambos são usados para reajuste da aluguéis, e tarifas públicas, mas apenas o primeiro deles também possui fundos imobiliários que remuneram a sua taxa. 

O IPCA-15 só muda a data de análise em relação ao IPCA, ao passo que o IPCA mede a inflação do início ao fim do mês, o IPCA-15 mede a inflação do dia 15 de um mês, ao dia 15 do mês seguinte. O INPC, Índice Nacional de Preços ao Consumidor, mede os mesmos parâmetros do IPCA, mas restrito a questão de renda, se situando entre as famílias que ganham de 1 a 5 salários mínimos - usualmente é utilizado como corretor salarial. 

Falando ainda em índices mensais, destacam-se também o INCC, Índice Nacional de Custo da Construção, que mede a variação de preços da construção civil em 7 capitais, refletindo a dinâmico dos custos, e o IPA-M, Índice de Preços ao Produtor Amplo – Mercado, que analisa a oscilação de produtos agropecuários e industriais, nas transações entre as companhias, feitas antes do consumo final do produto.

Como indicador trimestral, há o IPC-3i, responsável por apontar variações médias de preços para famílias predominantemente compostas por pessoas de terceira idade, avaliando 7 capitais e sendo usado para referência em políticas públicas de saúde e previdência de pessoas com mais de 60 anos.

Todos os indicadores possuem uma metodologia e um tipo de análise, mas também possuem algumas limitações. No caso dos indicadores mais utilizados para políticas públicas e análises de consumo como o IPCA e o IGP-DI, não se leva em conta o impacto que cada produto analisado interfere em cada condição financeira. Em termos mais simples, é como se a análise levasse em conta que o peso de alimentação e bebidas e educação é o mesmo para famílias que ganham até 1 salário mínimo e as que ganham 40 salários mínimos, quando é significativamente razoável inferir que a alimentação impacta mais as faixas de renda mais baixas, ao passo que o fator educação impacta mais as faixas de renda média e alta. Para tanto, o IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, criou o índice mensal Inflação por Faixa de Renda, que atribui pesos e altera alguns produtos de acordo com a faixa de renda das famílias.

As faixas de renda foram distribuídas em 6 patamares que são corrigidos tendo como base o ano de 2009. Atualmente as faixas correspondentes às rendas domiciliares se distribuem de acordo com o gráfico a seguir:

 

Para ilustrar de modo mais prático, os vetores de pesos obtidos pelas pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística acerca do orçamento familiar de 2008 e 2009 apresentaram naquela época que os gastos com alimentação nas famílias de renda mais baixa é 2,5 vezes maior que nas famílias de renda mais alta, assim como gastos com aluguel e transporte público que representam respectivamente 8,5% e 8,4% contra os 5,5% e 1,7% das faixa de renda mais alta. Quando abordados educação e plano de saúde, as proporções acerca dos gastos se invertem, sendo para as famílias mais abastadas respectivamente a proporção de gasto no orçamento igual a 10,3% e 6,8% contra 2,2% e 1,4% das famílias que se na faixa de renda mais baixa.

Em agosto de 2020, a inflação por faixa de renda das famílias mais pobres foi de 0,38% ao passo que o mesmo indicador das famílias de renda mais alta foi de -0,1%. Essa variação se deu em conta da alta dos preços dos alimentos, puxados pelo arroz (19,2%), feijão (35,9%), leite (23%) e ovos (7,1%) que contribuíram com 0,2 ponto percentual para inflação da classe de renda mais baixa, ao mesmo tempo em que o impacto da alta dos alimentos somou 0,05 ponto percentual na classe mais alta de renda. Já o processo de desinflação da alta renda se deu pela queda nas mensalidades escolares, retração dos valores de atividades de recreação como hospedagem (-1,8%) e clubes (-0,8%) e queda de 2,0% no preço das passagens aéreas e de seguros de veículos.

 

 

 

Deste modo é observado que o poder de compra das classes mais baixas foi perdido, ao passo que as classes mais altas ganharam poder de compra.Dado essa proporção de gastos distintos entre as faixas de renda, é razoável inferir que as inflações são diferentes para diferentes grupos e num país em que a desigualdade social entre as classes sociais aumenta na medida em que a pirâmide afunila, um cálculo levando em consideração os acessos de cada renda pode permitir um entendimento melhor de como os preços impactam na economia e como eles refletem as desigualdades

 

E agora, ao arroz!

Uma vez compreendido bem isso, podemos passar a analisar mais propriamente a dinâmica por trás do aumento de preços em produtos mais básicos da cesta de consumo brasileira, o que tange, em grande medida, a própria questão do arroz. É importante observar como os fatores macroeconômicos condicionantes à inflação citados anteriormente acabam por naturalmente refletir também na dinâmica de preços dos produtos individualmente, contudo pode-se melhor explicar o cenário atual conforme observamos também os fatores mais propriamente microeconômicos, o que em suma se dá por dois aspectos básicos: Oferta-demanda e expectativas de consumo:

Oferta e demanda - Bastante intuitiva, a ideia de oferta e demanda se explica ao passo que se compreende que o preço do produto tende a variar (positivamente) conforme haja um aumento da demanda e uma queda da oferta - o contrário também é válido -, contudo, há casos, tais como o atual, em que esses dois efeitos se combinam, causando um choque direto nos preços.

Expectativas de consumo - Atuando quase como sub-consequência da oferta e da demanda, os termos de expectativa de consumo se dão em casos mais extremos, quando os consumidores passam a acreditar que de fato haverá um aumento de preços ou uma ausência na oferta do produto e, tentando se proteger, passam a estocar os mesmos. É interessante notar como isso se traduz em uma espécie de profecia auto-realizável, isto é, se os consumidores como um todo passam a estocar, a demanda imediata pelo produto naturalmente aumenta, causando o crescimento de preços e, em última linha, desabastecimento nos mercados.

Vale dizer que esses efeitos podem naturalmente acontecer de modo separado, contudo a questão atual dispensa trivialidades; ocorre pois um efeito duplo entre choque de aumento de demanda e queda de oferta, ao passo que as expectativas quanto a impossibilidade de acesso, como dito, acaba por incentivar as pessoas a esvaziar as  prateleiras, ressaltando o efeito.

A atual conjuntura, por sua vez, acaba sendo o produto de uma série de fatores já bastante específicos que, partindo de um cenário de excepcionalidade e de uma série políticas públicas equivocadamente aplicadas, nos trouxeram até aqui. 

Partindo inicialmente das condições extra-Brasil, podemos citar a forte demanda externa. Conforme alertou a Agência das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) ainda em março, o cenário pandêmico e a disruptura dos sistemas produtivos e de escôo alimentar acabariam apresentando uma ameaça à distribuição de produtos básicos, como grãos, pelo mundo. A argumentação se dava em função da percepção de que, sob uma maior ameaça de seu abastecimento interno, os grandes países exportadores tenderiam a fechar suas fronteiras, ou ao menos a elevar seus preços. Os alertas se mostraram agora mais do que coerentes, ao passo que diversos dos principais exportadores do globo (como a Índia, Tailândia e Vietnã) seguiram justamente o previsto, suspendendo suas exportações, notícia bastante negativa a um país como o Brasil, importador líquido de arroz. 

Nesse sentido, o cenário se torna ainda mais desolador com a desvalorização cambial. Como se pode imaginar, uma moeda mais fraca em relação ao dólar em um mercado como o das commodity, naturalmente dolarizado, tende a encarecer o produto, o que  se soma ainda à queda de oferta do mesmo, dando um suporte duplo à elevação de preços. Paralelamente a isso, a cotação mais alta do arroz tende também a induzir a produção local (já bastante limitada) a deixar o solo nacional, elevando o drama brasileiro. É válido também observar como esse aumento de preços se estende ao resto do globo, o que, porém, passa a impacta-los ao passo que se mostram mais ou menos preparados à situação.

Assim sendo, pode-se já passar ao contexto nacional, conforme analisamos a própria ausência de oferta no país. Diferentemente de diversos de seus pares, o Brasil tem esvaziado seus estoques regulatórios de produtos essenciais, tal como o arroz, há alguns anos, o que, apesar de continuar no Governo atual, ocorre já desde os últimos mandatos. Ademais, faz-se ainda importante observar como a própria dinâmica de exportação do país, privilegiando algumas modalidades produtivas específicas com maior cotação internacional, acabam tendo uma maior pressão produtiva em tempos de desvalorização cambial, o que justamente se ilustra bem conforme observamos o 1T20, ao passo que o país apresentou um recorde de exportações agro, no qual 63% da pauta escoada se relacionou somente a 5 produtos (grãos de soja, proteína animal, celulose, açúcar e farelo de soja). Nesse sentido, o país se induz a diminuir sua produção de pautas essenciais, como o arroz, e liquida estoques que justamente poderiam controlar os preços em momentos como o atual.

Por outro lado, é também interessante observar como a própria cesta de consumo brasileira tem mudado consideravelmente. Com um impacto direto dos processos de distanciamento social, o consumo dentro dos lares passou a ganhar um expressivo aumento, o que por sua vez se traduziu em um aumento das refeições de base padrão no país, reforçando o consumo de arroz e de feijão por toda população, que outrora acabava por muitas vezes descartar seu consumo em função de  pautas alimentares mais diversas incluídas nas refeições de restaurantes, lanchonetes e assim por diante;

Nesse mesmo viés, faz-se necessário analisar, com uma maior dose de cuidado, a participação dos próprios auxílios governamentais em toda situação. Correspondendo a um aporte explosivamente maior do que o valor prestado pelo Bolsa-Família, os até então R$ 600,00 disponibilizados pelo Governo, para além de garantir a renda de milhares de famílias, possibilitou, inclusive, uma expansão dela em inúmeros casos, o que naturalmente se traduziu em um aumento da demanda, consequentemente afetando também os preços. Contudo, apesar de lógico, o raciocínio pouco diz sobre os demais efeitos listados, tornando-se mais propriamente um acréscimo à escalada de preços, sem porém ter protagonismo no processo.  

 

Mas o que fazer?

Como já visto, medidas mais truculentas por parte do Governo, através de uma regulação que afete diretamente os produtores ou os mercados, tendem a fracassar gravemente. Dado a magnitude do problema e sua relação envolvendo a restrição da oferta, apelar à boa vontade ou ao patriotismo é uma medida, na melhor das hipóteses, inócua, dado que a situação ocorre justamente por um repasse de custos; para além disso, projetar o problema sobre os mercados ou aos produtores gera justamente um clima de maior instabilidade, que pouco beneficia o país em um momento como esse.

De tal modo, a resposta mais imediata acaba se direcionando ao próprio mercado externo, o que contudo também apresenta certas dificuldades. Nesse quesito, a redução da alíquota de importações desenvolvida pelo Governo pode ser de fato uma boa alternativa ao problema, o que, contudo, não necessariamente resolve o problema dos altos custos dado que, a despeito das tarifas, as cotações já se encontram bastantes elevadas no mercado externo, ao passo que, mesmo que haja uma maior compra do produto, há certo período temporal de algumas semanas entre o aval governamental e a chegada do produto às mesas, o que implica na permanência da atual situação por mais tempo. 

Por outro lado, uma restrição de exportações também se mostra bastante limitada. Em meio a um momento bastante delicado do contexto de abastecimento nacional, os dados referentes à exportação de arroz, que cresceu 73% em 2020, acabam por chocar. Contudo, faz-se necessário também perceber que para um país com uma grande pauta agro-exportadora como o Brasil o fechamento das fronteiras acaba por ter impactos mais gerais sobre o comércio, implicando na possível perda de clientes em produtos mais diversos, com um maior grau de importância comercial ao país, como a Soja e o Milho, trazendo efeitos bem mais generalizantes do que inicialmente se espera. Ademais, apesar da importância que políticas como essa possam ter, é também importante perceber como um maior intervencionismo agora pode, inclusive, desincentivar os grandes produtores nacionais, que passariam a ver outros regimes produtivos com maior atratividade, o que poderia afetar o cenário de abastecimento interno mais a médio-longo prazo.

Pensando em um planejamento já macroeconômico, analisar a dinâmica relacionada à taxa de juros pode também ser uma perspectiva inicialmente aplicável, contudo é algo que também envolve questões um pouco mais profundas. Como discutido, o processo atual acaba por se relacionar mais propriamente a um aumento de preços temporário, afetando itens importantes da cesta básica de consumo, mas não a economia como um todo. De tal forma, pensar em uma elevação da taxa básica de juros acaba por envolver efeitos econômicos mais globalizantes, que afetarão ainda mais a dinâmica produtiva do país (em um momento que ela já está bastante fragilizada), reduzindo as perspectivas de investimento, contratações e assim por diante. Ademais, movimentos muito bruscos agora e, sobretudo, movimentos que revertam a tendência de baixa acabam por trazer maior instabilidade ao mercado, algo bastante danoso à economia.

De tal modo, ao pensar no problema da falta de abastecimento à cesta básica brasileira, a resposta geral se daria mais propriamente em um planejamento da política agrária mais eficiente. É interessante observar como toda essa discussão poderia facilmente ser um tema para novos trabalhos, mas em suma, pensar na importância dos estoques regulatórios para momentos como esse acaba sendo um bom caminho para o início do debate. Paralelamente, uma maior atenção à agricultura familiar, responsável pela produção substancial de alguns produtos mais básicos restritos ao consumo interno, também vem como uma alternativa interessante, de modo a não afetar tão diretamente outros aspectos da economia do país como um todo.

Ao fim, a situação que se projeta pouco tem de simples. Discutir altas de preço específicas e os próprios processos inflacionários que atingiram o país, em meio a um histórico tão sensível dentro do tecido social e métricas tão complexas para avaliação do nível de custos, muitas vezes exige um olhar mais atento. De igual modo, observar o aumento de preços de um determinado produto, como se faz agora no caso do arroz, propondo soluções para se contornar o problema é também discutir aspectos econômicos que muitas vezes transcendem as fronteiras nacionais, ao passo que se relaciona com políticas gerais do Estado e o direcionamento macroeconômico tomado, inclusive, por gestões anteriores, ou seja, percebe-se aí uma maior dificuldade em elencar respostas fáceis, com responsáveis claros. 

Desta forma, o assunto dificilmente se encerra dentro dessa breve explanação, de modo que até mesmo o “feijão com arroz” da discussão passa a envolver debates mais profundos acerca dos impactos da política de juros, posicionamento comercial do país, planejamento agrário  etc., contudo, podemos minimamente passar a olhar o aumento de preços de um modo um pouco mais sóbrio, enxergando nele condicionantes e variantes que vão muito além de qualquer resposta simples.  



 

Um artigo por:

Matheus Shiro Pinheiro Hirata e Welker Abner de Oliveira

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