"> De Olho no Mercado

11 de Setembro de 2020

De Olho no Mercado

De Olho no Mercado - Setembro

 

Durante as últimas semanas, os setores siderúrgicos e financeiros tomaram um forte destaque pelo mercado. Com projeções expressivamente boas, a metalurgia brasileira, como um todo, tem apresentado um momento muito bom, embora tenha sido mais duramente afetada ao começo do ano. Por outro lado, os bancos (e todo resto do ramo financeiro) têm enfrentado momentos mais críticos,  o que se revela através de um cenário bastante desafiante às ações na bolsa. Durante essa edição do De Olho No Mercado nos focaremos em tentar compreender um pouco mais dessas dinâmicas pela economia, ao passo que também estaremos comentando sobre outros aspectos estruturais, que têm sido fundamentais para compreender toda conjuntura atual. 

Durante o mês, o ramo de siderurgia teve um forte protagonismo dentro da bolsa, revelando-se bastante dinâmico e expansivo em meio a alguns vetores de recuperação econômica no Brasil e no resto do mundo (com forte destaque à China). 

Nesse quesito, pode-se citar como o setor acaba se beneficiando agora da percepção de melhoras em relação ao início do ano. Tal retrospecto é bem compreensível ao ponto que se observa seus principais tópicos de atuação, que tem 80% de seus clientes divididos entre:  Construção Civil com 33%; Setor Automotivo com 24% e Bens de Capital (BK), com máquinas e equipamentos, com 21% das destinações de vendas. De tal modo, durante o período mais agudo da crise, viu-se um Setor Automotivo praticamente ao todo congelado, metade do setor de BK fechado e a Construção Civil sob certas dificuldades, o que gerou a paralisação de alguns alto-fornos e dezenas de outras unidades produtivas, ocasionando uma ociosidade de 58% de toda capacidade siderúrgica brasileira. A partir disso, alguns sinais pungentes de melhora acabam movimentando e beneficiando as ações do conjunto.

A mudança de perspectivas do setor vem justamente em meio à retomada econômica nacional, aumentando a demanda interna, contudo se soma também às melhorias conjunturais externas, fruto da relação cambial mais favorável às exportações. Pode-se assim observar o aumento da produção por parte das empresas automobilísticas, que se expandiram em 21% dentre junho e julho, afetando sobretudo a demanda por aço, o que também acaba por se estender à indústria BK em menor grau. Ademais, como visto aqui em discussões anteriores, a forte desvalorização cambial acaba por tornar o valor das exportações mais atrativo, apesar de também implicar em um aumento das dívidas dolarizadas que as empresas tenham - é importante ainda notar que as atividades produtivas acabam requisitando uma constante compra de insumos que muitas vezes não se fazem presentes no território nacional, ao passo que o setor é naturalmente cliente das mineradoras, ou seja, a despeito de algumas empresas terem investido na verticalização produtiva, o aumento na cotação dos minérios, que se vincula ao dólar, tende a oferecer certos desafios às siderurgias. Em todo caso, a desvalorização do real permanece suficientemente positivo, o que se ilustra, inclusive, quadro comercial atual.

 

Fonte:Infomoney

 

De tal modo, faz-se importante também que nos atentemos à dinâmica de exportações atual. Com uma forte participação por toda América Latina, as empresas do país também se apoiam no mercado estadunidense, o que também traz certos riscos, isto é, as políticas protecionistas de Trump volta e meia tendem a ameaçar nossa participação através das cotas e aumentos taxativos. Por outro lado, é interessante notar como a China, notadamente um rival comercial às empresas (que sozinha representou 41% das importações de aço do país em 2019), acabou inclusive demandando produtos nacionais em meio aos fortes investimentos estruturais realizados por suas políticas anti-cíclicas. Ao todo, o cenário externo passa assim a beneficiar as empresas do ramo.

Já no quesito interno, é válido notar a forte importância do setor de construção civil e infraestrutura durante o período. A despeito de todo contexto de crise, a resiliência do ramo tem garantido uma demanda fundamental por insumos, o que se aplica tanto por parte da iniciativa privada (crescendo em diversos estados do país, como Ceará, Minas Gerais ou Santa Catarina) e pela própria iniciativa pública, ao passo que o próprio governo tem realizado aportes bilionários para a extensão do programa Minha Casa Minha Vida, além ainda de mais R$ 160 mi investidos em programas de infraestrutura, ambos anunciados ao começo de agosto. 

Contudo, os avanços dentro da Reforma Tributária também cumprem um papel fundamental na atual conjuntura. Sofrendo uma carga tributária bastante elevada financeira e burocraticamente, o Brasil atualmente apresenta um Custo país de R$ 1,5 tri (22% do PIB), conforme divulgado pelo próprio Governo, o que incide drasticamente sobre as empresas siderúrgicas em decorrência das próprias taxas incidentes, que se somam ao efeito de cumulatividade, gerando um pagamento de 46,2% de impostos (na medição em relação ao PIB). De tal modo, os avanços na pauta tributária vem também como um bom sinal, significando uma simplificação dos processos e um possível ressarcimento tributário pelas etapas produtivas, anulando a reincidência dos taxativa e melhorando a competitividade brasileira em relação aos demais players globais. De tal modo, o setor como um todo demonstra bons resultados produtivos, apresentando um crescimento significativo nas vendas, sobretudo na comparação mensal, ao passo que as perspectivas favoráveis também beneficiam as ações.

Por outro lado, é interessante perceber como o posicionamento dentro da percepção ESG tem se tornado cada vez relevante e atuante dentro das empresas do setor. Destacando-se pela poluição ambiental gerada, as empresas acabam gerando emissões de gases poluentes, além de afetar o meio-ambiente conforme, direta ou indiretamente, mobilizam atividades minério-extrativistas. Nesse sentido, há ainda casos mais extremos, tais quais o de Brumadinho, que também podem resvalar sobre  as siderurgias - de tal modo, um referenciamento voltado à adoção de políticas da ODS, com um papel fundamental no âmbito das comunidades que vivem às margens da empresa e passam a ser eventualmente afetadas por parte das atividades que compreendem o processo extrativista, passam a ser necessárias. Toda essa situação contribui, inclusive, para a pressão pública sobre as mesmas, o que, inclusive, já tem suscitado certas discussões acerca da possibilidade do possível desenvolvimento de alguns impostos seletivos relacionados ao ramo, algo que naturalmente pode significar novos desafios e exigências, embora as empresas do setor já demonstrem, de maneira bastante tímida, certa atenção à problemática. 

     Dentro das análises mais aprofundadas, destacamos duas das principais empresas do ramo: a Gerdau e a Usiminas. A primeira é a top pick do setor na América Latina para muitos analistas, com 120 anos de solidez e experiência, a Gerdau tem a maior parte da sua produção concentrada no aço longo, que é usado na construção civil, obtendo assim uma importante distinção em relação aos seus concorrentes. Nesse quesito, a alta exposição à construção civil acabou sendo um importante driver à companhia, sobretudo em retrospecto à pandemia, ao passo que, conforme visto, o ramo mostrou certa resiliência, sobretudo ao se comparar com a situação de consumo do aço plano, destinado principalmente aos setores automotivo e de máquinas e equipamentos, mais pesadamente afetados.

         Além disso, a Gerdau possui uma diversificação geográfica interessante, com uma presença relevante na América do Norte e na América do Sul, de modo que também se beneficia com a abrangência de mais mercados e com a desvalorização cambial, que torna seus preços mais atraentes aos consumidore, locais e internacionais. 

 

Fonte: RI Gerdau

 

Deste modo, por mais que as empresas siderúrgicas sejam muito afetadas por crises e que tenham se desvalorizado muito até abril, as perspectivas para a Gerdau S.A. (GGBR4) e para a Metalúrgica Gerdau (GOAU4) são positivas, aumentando consideravelmente o preço de suas ações durante o mês de agosto. Como visto, dentro do contexto brasileiro espera-se um mercado de construção que continue resiliente e uma retomada gradual da indústria. Já na América do Norte, a expectativa é de um desempenho positivo da indústria de construção e de estímulos para a liberação de investimento em infraestrutura pública, ao passo que na América no Sul se prevê uma retomada mais significativa pelos setores industriais, sobretudo pela Argentina, Uruguai e Peru. Ademais, é ainda válido pontuar as operações com aços especiais se recuperando com a retomada do setor automotivo tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

Parte disso já é visível nas cifras do segundo trimestre, que se mostraram até melhores que as previsões, apresentando um resultado líquido de 315 milhões de reais, o que representa um aumento de 43% em relação ao trimestre anterior. Mesmo que com uma queda de 15% se comparado ao mesmo período de 2019, os números do trimestre mostram uma perspectiva de retomada em um cenário de pandemia.Por outro lado, alguns fatores poderiam alterar esse cenário, entre eles a diminuição na demanda e no preço de aço na China com a escalada da guerra comercial, uma desaceleração na economia brasileira ou uma redução nas tarifas de importação de aço, o que afetaria preços e volumes.

Já a Usiminas (USIM5) possui uma estrutura produtiva muito diferente, concentrando a maior parte de sua produção no aço plano, usado principalmente pelos setores automotivos e de máquinas e equipamentos. Além disso, apresenta uma participação mais relevante no mercado interno e pouco relevante no mercado internacional.

 

Fonte: RI Usiminas

 

Muito em virtude dessa estrutura produtiva, ou seja, da grande dependência de setores que praticamente pararam suas atividades em decorrência da crise do coronavírus e do pouco espaço de atuação no mercado externo, os resultados do segundo trimestre do ano foram duramente afetados, registrando queda em 42% nas vendas do aço se comparado ao trimestre anterior e um prejuízo líquido de 395 milhões de reais.

         Durante o mês de agosto, no entanto, a empresa viu suas ações se valorizarem, fechando o mês com um aumento de 20%. Esse aumento se deu principalmente pelo reaquecimento do setor automotivo e pela perspectiva de melhora na economia brasileira, levando a empresa a reabrir operações e retomar seus investimentos.

         Sendo assim, se percebe duas empresas do mesmo setor mas com estratégia muito diferentes, ambas registrando altas durante o mês. A Gerdau se mostra mais eficiente e é a empresa siderúrgica menos afetada por um cenário pandêmico. A Usiminas, por outro lado, foi amplamente afetada por esse contexto, o que mostra sua grande dependência de uma realidade econômica favorável para o desenvolvimento de suas operações, realidade própria do contexto mais cíclico que vive. 

Para além disso, podemos também tratar do setor bancário, apresentando um forte viés de baixa pelo último mês. Nesse quesito, faz-se interessante nos atentarmos às condições econômicas e até mesmo políticas do país, causando direto reflexo sobre a percepção do mercado em relação aos bancos. 

No quesito econômico, como não poderia deixar de ser diferente, a pandemia acabou por ocasionar uma série de desafios ao setores financeiros de todo mundo. O que, no caso dos bancos, tem se figurado muito em conta de seus processos de provisionamento econômico, de modo que, tal como veremos em seus respectivos balanços, os lucros foram duramente afetados. A despeito de isso ser uma medida mais puramente contábil, acaba por se revelar também como um importante reflexo da percepção dos bancos acerca do atual cenário, o que se soma, inclusive com a política mais conservadora de crédito adotada pelos mesmos. Buscando compreender a situação mais diretamente, faz-se útil observar o próprio balanço divulgado pelas principais instituições do país em relação ao segundo trimestre.

Levando em conta, portanto, os resultados de Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander, pôde-se observar que o lucro líquido contábil conjunto foi igual a R$12,1 bilhões, ou seja, 40% a menos do que no mesmo período em 2019 (R$ 20,4 bilhões), segundo a Economatica. 

 

                            Lucro líquido contábil dos 4 maiores bancos do país

Fonte: Economatica

 

Através do gráfico, vê-se que o resultado do segundo trimestre de 2020 foi o pior dos resultados apresentados nos últimos anos. Após uma máxima histórica no quarto trimestre de 2019, os bancos acabaram sofrendo com a crise do novo coronavírus, mais especificamente com as provisões realizadas para cobrir potenciais perdas e concessões do governo. Isso é mostrado, conforme citado, através da maior redução de lucro líquido (4T19 para 1T20) e pela contínua contração do 1T20 para 2T20. A queda em relação ao 1T20 foi de 11,62%, enquanto que a queda em relação ao 4T19 foi de 44,24%. 

Destrinchando os lucros líquidos específicos de cada banco, nota-se que o Bradesco (BBDC4) foi o banco que mais faturou no segundo trimestre de 2020, seguido por Itaú Unibanco (ITUB4), Banco do Brasil (BBAS3) e Santander (SANB11). 

O Bradesco apurou lucro líquido contábil de R$ 3,5 bilhões no 2T20 contra R$ 6,042 bilhões no 2T19 e R$ 3,382 bilhões no 1T20, ou seja, teve uma queda significativa de 42% na comparação year over year e uma pequena alta de 3,6% na comparação quarter over quarter. Ainda sobre o Bradesco, é importante ressaltar que com o fechamento dos resultados do 2T20, o banco teve o maior lucro dentre 582 outras empresas de capital aberto da América Latina no primeiro semestre de 2020 com R$ 6,88 bilhões, segundo estudo realizado pela Economatica.

O Itaú Unibanco, por sua vez, registrou lucro líquido contábil de R$ 3,424 bilhões no 2T20 contra R$ 6,815 bilhões no 2T19, ou seja, houve uma queda de 49,75% na comparação YoY (a maior entre os quatro bancos). É importante ressaltar que o banco registrou lucro líquido recorrente de R$ 4,205 bilhões no 2T20. O lucro líquido contábil é o atribuído aos acionistas, que é levado em conta na distribuição dos dividendos. O lucro líquido do banco teve uma queda maior por conta da doação de R$ 1 bilhão ao programa Todos pela Saúde no segundo trimestre, segundo Renato Lulia, responsável pelo RI do Itaú. 

O terceiro banco que mais obteve lucros no 2T20 foi o Banco do Brasil com R$ 3,2 bilhões no período contra R$ 4,2 bilhões no 2T19 (queda de 23,7%). O Banco do Brasil foi quem apurou a menor queda na comparação YoY. 

Por último, o Santander constatou lucro líquido contábil de R$ 2,02 bilhões no 2T20, o que significa uma queda de 40,76% em relação ao mesmo período do ano anterior, em que registrava R$ 3,41 bilhões. 

É importante ressaltar como os lucros dos bancos tendem a incorporar as provisões despendidas conforme o cenário se estabilize, contudo a atual situação econômica não parece prescrever esse resultado, o que se mostra através das próprias cotações dos bancos. Segundo a economática, o PDD (provisão para devedores duvidosos) revela que a provisão de recursos contra calotes do primeiro trimestre de 2020 é a segunda maior da história, a soma das quatro instituições foi de R$ 28,38 bilhões de janeiro a março, um sinal de antecipação ao aumento da inadimplência que está por vir.

A atual situação se dá em meio à percepção da forte dependência econômica do país em relação ao auxílio emergencial fornecido pelo governo, que atuou profundamente sobre a renda de milhões de famílias, permitindo, inclusive, seu incremento para níveis além dos vistos no pré-crise. A questão assim se dá conforme o desenvolvimento dos auxílios se mostra cada vez mais insustentável e as alternativas apresentadas pelo governo, tal qual a aplicação da popularmente chamada “nova CPMF” se mostra também menos plausível, ao passo que a pauta da Reforma Tributária se mostra esvaziada. Somando-se a isso, o próprio Renda-Brasil, política ventilada pelo governo como uma sobreposição mais elevada e abrangente do Bolsa Família também tem sido jogada a escanteio. 

Teme-se assim que com o fim dos auxílios uma faixa populacional considerável perca sua única fonte de renda (dado as demissões decorrentes do processo). Se o cenário se confirmar, o consumo do país pode ser ainda mais fortemente afetado, atingindo toda cadeia produtiva do país, o que significa um aumento da inadimplência do país e, consequentemente, da necessidade das provisões supracitadas. É interessante notar como esse movimento não é somente notado em território nacional, mas em diversos países (como os EUA) que adotaram sistemas próximos ao auxílio emergencial oferecido pelo Governo.

Por outro lado, a Reforma Tributária, através da ascensão da discussão dessa “Nova CPMF”, apresentada como um imposto sobre transações digitais inicialmente (mas muito mais abrangente) acabou representando um aspecto bastante problemático aos bancos. Nesse sentido, como o próprio nome evidenciam, o imposto passaria a se aplicar sobre as transações financeiras de modo mais abrangente, o que acaba por ser desestimular duramente o processo de bancarização, além de atingir duramente as atividades bancárias, que passariam a ser ainda penalizadas (algo que se soma ao próprio acréscimo tarifário que as propostas projetam ao setor). Como dito, a pauta da Reforma Tributária acabou por se afastar da discussão do Governo, contudo, para além de sua aparição pelo mês, há uma forte expectativa para sua retomada, dado o próprio momento de forte cooperação entre os entes da União para tal. Em todo caso, ao passo que o projeto do Ministério se vincule a programas sociais, tal como ocorreu com o Renda Brasil, seu nível de aceitação passa a se tornar mais substancial, o que eleva a apreensão do mercado.

 

Relatório desenvolvido por: Beatriz Viola, Isabela Consorte, Leonardo Kodama, e Mariana Venancio

 

Edição final: Welker Abner

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