"> Editorial - Agosto/2020

3 de Setembro de 2020

Editorial - Agosto/2020

Editorial - Agosto/2020

 

Com grande foco no noticiário econômico, agosto trouxe consigo o retrospecto do tenebroso cenário referente ao segundo trimestre por diversas economias no mundo. De tal modo, faz-se interessante observar e contrastar os fracos, embora já bastante previsíveis, resultados no Produto dos países, que, em grande maioria, apresentaram retrações de dois dígitos. A despeito disso, o cenário global segue mais otimista, traçando resultados referentes já a agosto mais positivos, demonstrando uma retomada de dinamismo em meio às atividades que resistiram ao impacto mais severo da crise. 

 

Pela Europa, o cenário político e econômico trataram de ser bastante movimentados. Em meio ao aumento de casos de Covid por algumas regiões , como França, Portugal e Reino Unido, a região ainda assistiu em estado de alerta os resultados eleitorais da Bielorrússia, ao passo que a reeleição do atual presidente,  Aleksandr Lukashenko (no cargo desde 1994) incitou dezenas de protestos pelo país, elevando as tensões e as suspeitas de possíveis intervenções estrangeiras, seja contra o governo (o que poderia envolver alguns outros países do continente), seja a favor (o que incluiria a própria Rússia). 

 

Já no campo econômico, pode-se citar a ligeira retração em alguns índices de atividade e produção. No quesito de atividades, o chamado Índice Gerente de Preços (PMI, na sigla em inglês), apresentou certa estabilidade, ao passo que o índice referente à atividade dos serviços passou de 54,7 para 50,1. O índice homologo para indústria teve uma leve queda de 0,1 ponto comparado com o mês anterior, fechando agosto em 51,7 - vale dizer que cifras acima de 50,0 indicam avanço e as abaixo indicam recessão na atividade econômica respectiva. Por Outro lado, tem se elevado as expectativas de possíveis novos estímulos econômicos por parte do bloco europeu, o que ganha força em meio à divulgação da inflação pela região, a apresentar uma queda de 0,2% em agosto (ante 0,4% em julho).

 

Por outro lado, as divulgações do Produto Interno Bruto (PIB) referentes ao segundo trimestre do ano também demonstraram bem do que foi uma das piores recessões das últimas décadas. Nesse sentido, pode-se destacar o caso do Reino Unido, protagonizando as baixas com uma retração de 20,4% (pior queda histórica). A Alemanha, por sua vez, apresentou uma queda trimestral de 9,7%, resultado um pouco menos negativo do que as previsões, que apontavam a uma retração de 10,1%. A França, por sua vez, também teve uma queda histórica, retraindo em 13,8% durante o período, resultado que desta forma se consagrou como uma marca sombria às três principais economias do continente. Por fim, pode-se citar o próprio bloco do euro, que em seu aglomerado caiu 12,1% na comparação trimestral.

 

O Dragão Asiático, por sua vez, destacou-se nos noticiários ao ser um dos poucos países (junto à Índia) de todo globo a apresentarem uma medida de PIB positiva durante o mês, o que, a despeito da confiabilidade dos dados, sugere uma forte e rápida retomada nas atividades econômicas do país. Com um avanço de 11,5%, segundo dados oficiais, o país vê um importante avanço dentre seus índices de atividade, ao passo que o PMI de serviços do país apresentou uma leve retração de 0,1 durante o mês, fechando agosto em 54,0 pontos, por outro lado, seu homólogo referente ao setor industrial também figurou com uma retração de 0,1 pontos, fechando o mês em 51,0. Os resultados se sustentam em linha às taxas inflacionárias da região, conforme o Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) demonstrou um avanço considerável na comparação mensal referente ao caso de julho, com um acréscimo de 2,7% (ante 2,5% no mês anterior), o que, em grande medida, tem sido puxado pelos alimentos (que subiram 13,2% em julho) ao passo que a grande massa dos demais produtos manteve-se estável. 

 

Pode-se ainda citar como as empresas voltaram a contratar em agosto após seis meses de dispensas, indicando certa recuperação no mercado de trabalho, que tem sido afetado com força por quedas na demanda devido às restrições da pandemia. Graças à recuperação do setor automotivo e ao aumento da demanda por produtos eletrônicos, os lucros industriais cresceram 19,6% em julho com bases anuais, o que permitiu que a produção industrial liderasse a recuperação do país no segundo trimestre, quando a economia voltou a crescer, apresentando um avanço de 3,2%, ante a contração histórica e 6,8% nos primeiros três meses. Os resultados se ilustram bem ao se observar a balança comercial do país, que registrou um superávit de US$ 62 bi (acima das expectativas de US$ 42 bi), em meio à demanda internacional por insumos médicos de combate aos casos de Covid. 

 

Nos EUA, os dados referentes ao mês de agosto apresentam poucas surpresas ao mercado em geral. Na releitura do resultado do PIB do 2T20 (descontados os efeitos sazonais), que refletiu as consequências da crise do Covid-19, o resultado veio menos negativo do que esperado pelo mercado, recuando -31,7% (em termos anualizados) se comparado ao trimestre anterior, enquanto a mediana das expectativas esperava queda de -32,5%. Já em relação aos dados de emprego, os novos pedidos de seguro desemprego somaram 1,006 mil na semana encerrada dia 21 de agosto, ligeiramente acima da expectativa do mercado (1 mil) mas abaixo do registrado na semana anterior (1104 mil). Com esse resultado, a média móvel de quatro semanas apresentou queda no período. Tal fato demonstra o porquê o mercado enxerga uma nova queda na taxa de desemprego, que atualmente se encontra em 10,2%.

 

Ao se observar as atividades econômicas pelo país, pode-se destacar um avanço importante pelo mês. Com um PMI industrial bastante forte, a potência visitou a cifra de 56,0 pontos em agosto (ante 54,2 na leitura anterior), superando as expectativas que apontavam a um avanço de 55,0. Os Resultados vem em linha com o avanço de serviços, passando de 50,0 para para 55,0, o que demonstra uma recuperação mais rápida dos fracos resultados apresentados no começo do ano, além de uma sustentação do consumo decorrente dos auxílios governamentais e da recuperação dos empregos. O índice composto do país se estabeleceu assim em 53,6, ante 50,3, o que direciona o país em um momento mais favorável, indicando um terceiro trimestre já de avanços significativos, a despeito do quadro pandêmico. 

 

A tendência positiva apresentada pelos dados econômicos explica, de certa forma, as altas nos mercados de capitais americanos. O S&P500, após a grande queda de aproximadamente 30% em março, já recuperou todos os prejuízos dados desde então, e volta a bater recordes históricos. Assim como a Nasdaq (bolsa majoritariamente composta por empresas de tecnologia), que foi pouco afetada pelos efeitos da pandemia, apresenta retorno de 34% no ano.

 

No final do mês, o presidente do FED, Jerome Powell, apresentou um discurso aberto ao mercado para comentar sobre o andamento da economia, os resultados e expectativas para a política monetária norte-americana para os próximos anos. Em seu discurso, Powell reforçou a intenção da instituição em continuar os movimentos de injeção de liquidez até que se atinja a meta de inflação (em torno de 2%). O discurso agradou os agentes do mercado, o que também corrobora com as altas nas bolsas americanas ao final do mês.

 

A economia brasileira segue em recuperação, mas agora o questionamento cai sobre como retirar os estímulos monetários e fiscais sem desestimular essa retomada. Este cenário deve se manter nos próximos meses, mas em ritmo gradual, decorrente da cautela dos consumidores em um cenário de mercado de trabalho muito fragilizado. Com uma queda do PIB de 11,4% em relação ao mesmo trimestre de 2019 e de 9,7% em comparação com o primeiro trimestre de 2020, segundo os resultados divulgados pelo IBGE, o país enfrentou sua maior retração do nível de atividade econômica da série histórica iniciada em 1996. Esses dados refletem uma recuperação parcial que começou a partir de maio e que agora se vê fortemente vinculada aos auxílios emergenciais, apresentando encargos bastante elevados aos cofres públicos. 

 

Pelo lado da oferta, apenas o setor agropecuário registrou alta, com crescimento interanual de 1,2% e na margem de 0,4%. Já o PIB da indústria caiu 12,7% em relação ao mesmo trimestre de 2019 e 12,3% em relação ao primeiro trimestre de 2020, ao passo que o PIB dos serviços contraiu 11,2% e 9,7% nas mesmas bases de comparação. Pela demanda, por outro lado, o consumo das famílias caiu 13,5% em relação ao mesmo trimestre de 2019 e 12,5% na margem, na série com ajuste sazonal, mesmo com os expressivos auxílios prestados pelo governo, por conta da redução do consumo de serviços - este que foi o pilar do crescimento após a última recessão, será o mais impacto na crise atual. Na formação bruta de capital fixo (FBCF), essas quedas foram de 15,2% e 15,4%. O único componente da demanda agregada que cresceu foram as exportações líquidas. 

 

Quanto ao índice de preços, pode-se destacar IPCA-15, variando 0,23% em agosto, após ter registrado 0,30% em julho. No ano, o IPCA-15 acumula alta de 0,90% e, em 12 meses, de 2,28%, acima dos 2,13% registrados nos 12 meses imediatamente anteriores. Dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados, sete tiveram alta em agosto. Os Transportes (0,75%) registraram o maior impacto positivo no índice do mês, com 0,15 p.p.. Já a maior variação positiva veio dos Artigos de residência (0,88%), que subiram pelo quarto mês seguido. Os preços dos produtos e serviços de Habitação (0,57%) e Alimentação e bebidas (0,34%) também subiram, com impactos de 0,09 p.p. e 0,07 p.p., respectivamente. Os demais grupos ficaram entre a queda de 0,63% em Vestuário e a alta de 0,86% em Comunicação. 

 

A taxa de participação na força de trabalho foi de 55,3%, mantendo-se estável em relação à última semana de julho. Este nível persistentemente baixo nos últimos meses pode estar refletindo parcialmente o efeito renda positivo associado ao auxílio emergencial, mas também alerta que a melhora vista nos indicadores econômicos não tem sido suficiente para dinamizar as condições do mercado de trabalho. A taxa de desocupação também se manteve semelhante ao observado anteriormente, ficando em 13,3% na semana de referência.

 

Por fim, pode-se citar ainda como em sua última reunião de agosto do Copom, o BC optou por reduzir adicionalmente a taxa Selic para 2,0% a.a., e decidiu incluir o que chamou de “prescrição futura” (forward guidance) como “um instrumento de política monetária adicional”, com cautela, reconhecendo as dificuldades de fazer o uso desse instrumento em países emergentes. Ao que tange o mercado, há agora poucas expectativas para alterações na taxa atual, que deve ter poucos efeitos em caso de baixa e poucos estímulos inflacionários para se elevar.

 

Já no campo político, as discussões em torno do planejamento orçamentário para 2021 entram em voga. Em meio a um cenário fiscal cada vez mais tenso, no qual a dívida pública bruta alcança aproximadamente 86,5% do PIB, estipula-se como o governo planeja projetar seus gastos em meio à expansão da demanda nas áreas assistenciais, sobretudo em razão dos planos de auxílio governamental, como o famigerado Renda Brasil, e os avanços nos gastos com o SUS, que devem aumentar conforme se eleve a demanda por um serviço médico público em meio à vacinação maciça, uma vez que a própria esteja disponível. As discussões para a chamada Proposta de Lei Orçamentária Anual (PLOA) devem ser realizadas agora ao início de setembro, contudo os projetos apresentados, somados às declarações do governo, já demonstram desafios quanto ao ajuste de receitas e gastos, o que, até o momento, exerce mais pressão sobre as ideias de novos regimes tarifários, como a então chamada “nova CPMF” e uma nova Reforma Administrativa, pautas que deverão ganhar fôlego dentro das próximas semanas.  

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