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15 de Agosto de 2020

De Olho no Mercado

Durante o mês de julho, o setor de telecomunicações, em decorrência do processo de venda de ativos da Oi (OIBR3), e o ramo de turismo, representado bem pela atuação da CVC (CVCB3), foram alguns dos principais destaques pelo mercado financeiro. Nessa edição do De Olho no Mercado, voltaremos nosso foco para entender um pouco mais da dinâmica de funcionamento dos setores mencionados acima, tal como seu desenvolvimento pelo ano e, sobretudo, pelas últimas semanas.

Com um market-share consolidado entre quatro principais operadoras - grupo que, para além da Oi, inclui a Vivo (VIVT4), Claro e a Tim (TIMP3) -, o ramo de telecomunicação tem um alcance bastante amplo por todo o país, se desenvolvendo, principalmente, em prestação de 4 serviços, sendo estes: TV por assinatura, telefonia fixa, telefonia móvel e banda larga fixa. Com destaque para os dois últimos negócios que têm protagonizado os noticiários. 

Conforme mencionado anteriormente, alguns dos principais vetores do setor encontram sérias dificuldades em sua capilarização. No caso da telefonia fixa e da TV por assinatura, percebemos uma mudança de hábitos geracional no consumo bastante drásticas, que vem se traduzindo numa redução na utilização dos serviços (somente na comparação anual entre março de 2019 e 2020, registrou-se uma queda de mais de 10% no acesso das prestações). A telefonia móvel por sua vez, mantém-se bastante presente no país, o que representa a relevância do serviço uma vez que 96,2% da população tem acesso à dados móveis, segundo dados da Anatel.

A principal estratégia das empresas, quanto a esses serviços, têm sido investir em um maior ganho nas margens dos produtos, mas em suma, o ramo de banda larga vem ganhando destaque. Na contramão de seus pares, cresceu 3,7% na comparação anual de março, além de que conta ainda com boas perspectivas de expansão, dado que apenas 47,4% dos domicílios brasileiros conta com o serviço. 

Observando a conjuntura atual, é necessário compreender os impactos do quadro pandêmico sobre o setor. Com a necessidade do distanciamento social e da instauração do home office, somos induzidos a pensar que o ramo seria beneficiado, mas não é isso que se observa, principalmente no segundo trimestre do ano. Além do fechamento de diversas lojas físicas (o que impactou negativamente nas vendas), os impacto socioeconômico sofrido pelo país, implicaram numa redução do acesso de alguns serviços. Paralelamente, o nível de inadimplência também aumentou, atenuando os resultados. Especificamente nesse caso, Podemos citar a Tim, que registrou um lucro líquido de R$ 260 milhões no 2T20, configurando uma queda de 23,9% na comparação anual.

Fonte: PEIC- Junho 2020

 

De tal modo, a disputa em torno da liquidação de ativos da Oi ganha a tônica. Há algum tempo, a Oi vem enfrentando dificuldades financeiras e passa, até hoje, por uma extensa recuperação judicial. Por outro lado, podemos destacar que recentemente, a empresa obteve alta valorização na bolsa de valores após anunciar um leilão para seus ativos de telefonia móvel, data centers, torres e InfraCo (fibra ótica).








 

Com um pedido de recuperação judicial aberto em 2016, quando já tinha uma dívida de R$64bi, a companhia pôde enfim encaminhar seu planejamento estratégico de quitação das dívidas em fevereiro deste ano, após abrir mão de parte de seus ativos através de um leilão. Os artigos que serão leiloados e seus respectivos valores mínimos estipulados são:

 

  • Ativos móveis - R$15 bilhões; 

  • Data centers - R$325 milhões;

  • Torres de transmissão - R$1 bilhão; e

  • InfraCo (fibra ótica) -R$6,5 bilhões (por 51% dos ativos).

 

O planejamento da empresa é pautado no alto custo da tecnologia por trás da implantação da InfraCo, que chega a R$50 mil por quilômetro, o que até o momento inviabilizou suas concorrentes de entrarem no business. Dessa forma, ao ficar com 49% dos 325 mil quilômetros de fibra já instalados pelo país e 100% de seu segmento de Client Co (responsável pela prestação de serviços aos clientes residenciais e empresariais), planeja-se o início de um processo de turnaround. Esse movimento, conta com uma redução de pelo menos 35% de suas receitas líquidas provenientes de seus ativos atuais, segundo os resultados 2019. Devem ser significativamente reduzidas, também, seus gastos com Capex, aliviando as contas da empresa.

Na tentativa de adquirir esses ativos, as três empresas rivais (Vivo, Claro e Tim) se uniram e fizeram uma oferta pela telefonia móvel, que logo foi descartada por conta da Highline, controlada da americana Digital Colony, que realizou uma oferta por 3 ativos num valor total de R$22,5 bilhões (sendo R$15 bilhões pela telefonia móvel e R$1 bilhão pelas torres) e, com isso, ganhou exclusividade pela negociação. Há alguns dias, no entanto, o consórcio Tim, Vivo e Claro mobilizou-se, para buscar crédito (no J.P. Morgan e no Itaú BBA) para ofertar R$ 16,5 bilhões pela telefonia móvel, ganhando nova exclusividade pelo negócio. Além da oferta, o consórcio compromete-se a utilizar os serviços de infraestrutura de fibra da Oi por longo prazo. Durante essa reviravolta, as ações da Oi valorizaram-se em mais de 36% (chegando a atingir 70%) só no mês de julho.

Apesar das valorizações de suas ações, a companhia depende, também, das negociações de suas dívidas com os credores, além do consórcio poder ser impedido pelo CADE, sob a justificativa de uma formação de monopólio, o que estenderia a questão até o fim de 2021. No entanto, uma coisa é certa: estamos prestes a dizer adeus à Oi que conhecemos.

Por outro lado, o setor de turismo ganha a atenção do mercado conforme os resultados referentes ao segundo trimestre do ano, no qual a crise alcançou seu pico, são divulgados. Em um cenário no qual diversas empresas aéreas mundo afora têm apresentado pedidos de recuperação judicial, como foi o caso da Latam (a apresentar um pedido nos EUA, mas com forte atuação em solo brasileiro), constatou-se como de fato o ramo se encontra sobre problemas, ao passo que: que apresenta um custo operacional bastante alto; tem margens líquidas  negativas recorrentes e bastante instáveis e apresenta forte exposição ao dólar (via cotação do petróleo) sofreu deteriorações severas em meio à impossibilidade das viagens, com efeitos que vão para além das medidas assistenciais que os governos poderiam oferecer. 

Ao observar-se o setor como um todo, o mercado passa a contar com uma flexibilização da quarentena dentro de alguns meses, ao início do verão, como principal driver de melhora. Deste modo, as expectativas sobre as empresas de locação de veículos, como a Localiza (RENT3), Movida (MOVI3) e Unidas (UNID3) têm ficado maior, ao passo que espera-se um aumento das viagens internas destinadas, sobretudo, ao nordeste do país. É interessante notar como esse movimento se reflete, inclusive, entre os hotéis. Segundo o Fórum dos Operadores Hoteleiros do Brasil, houve redução de hotéis fechados no Brasil, número que passou de 51% em junho para 25% em agosto. 

Já em relação às companhias aéreas, como a Azul (AZUL4) e a Gol (GOLL4), que chegaram a perder respectivamente 74,9% e 67,0% do valor de suas ações pelo ano, as expectativas de melhora são mais nebulosas, apontando para avanços nas vendas somente a partir de 2021. Porém, isso pode acontecer ainda com restrições na oferta de vagas, como medida de segurança para evitar aglomerações nos vôos. 

Ao aprofundarmos as análises  das áreas, espera-se uma resolução final dos acordos de financiamento entre as empresas, bancos privados e o próprio BNDES. Vale notar que o atual cenário brasileiro conta basicamente com o oligopólio formado por Azul, Latam e Gol - contando, respectivamente, com 23,3%, 37,7% e 38,6% do market share do setor - o que, sob um regime de queda brusca de receitas, representou, no primeiro trimestre, um prejuízo de R$6,13 bi, R$11,5 bi e R$2,26 bi. Em contrapartida, os acordos de financiamento, que se dividem entre o banco público (60%) e instituições privadas, aproximam-se de um aporte de R$6 bi, repartidos igualmente entre as três gigantes, o que tem se acelerado, sobretudo, entre a Azul e a Gol, com sede em território brasileiro. Para além disso, ao que tange o Governo, prorrogações de tarifas e reembolsos estão sendo desenvolvidas, mas a situação permanece bastante sensível.

Em meio a todo esse contexto, a CVC acumula motivos para preocupar seus acionistas. Sofrendo pesados reveses desde 2019 com a falência da Avianca, incorrendo numa série de despesas diretas e indiretas (referentes aos contratos que tinha com a empresa e seus clientes) e gerando custos próximos aos R$92 milhões, a empresa também sofreu com a variação cambial, que encareceu diversas de suas operações internacionais, tal como se viu no caso argentino, movimento que foi catalisado pela instabilidade política vivida durante o ano. Para além disso, o vazamento de óleo em diversas praias do nordeste durante o fim de 2019, momento de maior movimentação turística, foi mais um fator a contribuir para uma drástica redução de receitas.

Não bastando o atual cenário, a empresa também foi multada pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), reforçando as acusações referentes às irregularidades em seu balanço. Seguindo os apontamentos presentes no processo que sugerem a necessidade da contabilização de alguns impostos como o PIS/Cofins referentes à sua atuação nas venda, a insegurança sobre a empresa cresceu ainda mais, o que também afetou sua situação econômica, mais fragilizada em decorrência de uma multa de R$127,6 mi. Contudo, a situação ainda pode piorar conforme o processo sobre a mesma compreende uma punição que pode chegar à R$440 mi. O caso, por sua vez, corre de modo paralelo à divulgação das distorções contábeis ocorrentes entre 2015 e 2019, a representar resultados de até R$362 mi diferentes do apresentado pela companhia. De modo ilustrativo, o imbróglio atinge complexidade tamanha que os balanços do quarto trimestre de 2019, que deveriam ser lançados entre janeiro e fevereiro, ainda não foram divulgados.

Em meio a tudo isso, o início da pandemia coroou a tempestade perfeita à companhia, prejudicada diretamente pelas medidas restritivas. De tal modo, após quedas significativas ao final de 2019, a CVC viu seus papéis acumularem retrações próximas de 47,5% em 2020. A queda além de refletir uma perda no valor de mercado, aponta também para uma diminuição de credibilidade aplicada à mesma. As ações da empresa, que iniciaram agosto na casa dos R$20,00 seguem em ritmo de instabilidade, apesar das previsões de uma melhora futura, de modo muito sincrônico ao setor, o que reflete diretamente a situação sanitária e econômica do país. 


 

Relatório desenvolvido por: Isabela Consorte, Leonardo Kodama, Beatriz Viola e Mariana Venancio

 

Edição final: Welker Abner

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