"> Editorial - Julho/2020

6 de Agosto de 2020

Editorial - Julho/2020

Editorial - Junho/2020

 

O mundo iniciou julho com expectativas mais favoráveis quanto aos processos de recuperação econômica, que apresentava indícios de melhoras mais significativos ao segundo trimestre referentes às previsões iniciais. Mostrando os efeitos da pandemia de modo mais evidente, pôde-se observar durante balanços, resultados de atividade e indicadores econômicos que apontam como enfim saímos da “bacia das almas” e passamos a caminhar, ainda que lentamente, para um cenário mais promissor, nacional e internacionalmente. De tal modo, observou-se uma costumeira insegurança ao sabor do news flow, o que se acentuou  no contexto estadunidense, que ganha destaque como uma proxy de recuperação mundial, além de contar ainda com a iminência de suas eleições presidenciais. Para além disso, o contexto político, tanto no Brasil, quanto no restante do mundo, também ganhou certo protagonismo pelo mês.

 

Com semanas bastante turbulentas, o Velho Continente foi foco de atenção em meio ao debate acerca de seu novo pacote financeiro. Conforme o acordo liderado por Alemanha (agora presidente rotativa do bloco) e França foi aprovado, iniciou-se um novo programa de € 750 bilhões que auxiliará diretamente os membros mais vulneráveis do bloco. De tal modo, esse fundo de recuperação soma-se ao orçamento de 7 anos do bloco, que se acumula a um valor de € 1,1 trilhão, formulando um plano fiscal com características inéditas, a redigir inclusive alguns repasses (no valor de € 360 bi) sem contrapartidas aos países mais sensíveis do grupo (como a Itália, Grécia e Espanha), o que acabou sendo alvo de críticas e debates dentre alguns outros membros financeiramente mais estáveis, os chamados frugais (Holanda, Áustria, Suécia, Finlândia e Dinamarca). 

 

Já no cenário econômico, pode-se destacar o avanço do índice Gerente de Compras (PMI) da União, que apresentou bons resultados, acima do esperado pelas projeções. O índice de serviços foi de 55,1 contra os 48.3 anteriores, já o homólogo industrial saltou de 47,4 aos atuais 51,1 - sendo esses índices abaixo de 50 pontos contração e acima expansão, observamos que essas atividades estão se expandindo no bloco europeu. O mesmo cenário ocorre no Reino Unido, onde o PMI de serviços e manufatura aumentaram respectivamente de 47,1 e 50,1 para 56,6 e 53,6 (essas elevações devem-se às flexibilizações comerciais).

 

Por outro lado, as divulgações dos PIBs trimestrais apresentaram uma ótica mais negativa do impacto da crise vigente, ao passo que o Produto do bloco pelo trimestre mostrou uma retração de 11,9%. O movimento se repetiu em suas principais economias, de modo que a  Alemanha, França e Itália viram seus PIBs caírem 10,1%, 13,8% e 12,4%, respectivamente, apresentando ainda uma inflação mensal de 0,7%, com uma taxa de desemprego próxima aos 7,1%. O Reino Unido, por sua vez, teve seu PIB reduzido em 2,2%, tendo ainda uma inflação de 0,6% e se estabelecendo com uma taxa de desemprego de 3,9%. Para além disso, o continente foi ainda palco de uma série de ensaios, muitas vezes frustrados, de flexibilização de quarentena, o que, a despeito dos bons resultados, ainda preocupa o mercado.

 

Já no continente asiático, a China voltou a apresentar taxas de crescimento significativas, consolidando um processo de recuperação. À contramão do mundo, o país apresentou um avanço de 3,2% em seu PIB trimestral, com uma melhora que, apesar de bastante significativa, não foi o suficiente para recuperar a queda sofrida no primeiro trimestre, de 6,8%. Nesse quesito, registrou-se que a alta da economia foi puxada pela indústria, acumulando uma melhora de 4,4% na comparação com o segundo trimestre de 2019, e pelo investimento de empresas públicas, que cresceu 2% no primeiro semestre em relação aos primeiros seis meses de 2019. Os resultados deixam o mercado ainda bastante incerto conforme apontam uma forte intervenção do Estado (através de uma profunda e custosa política anticíclica) como grande responsável pelos números, o que se comprova conforme se analisa o investimento de empresas privadas, que caiu 7% na mesma comparação.

 

Nesse sentido, percebe-se uma dicotomia bastante notável entre os setores do país. Se por um lado a indústria chinesa se projeta mais pujante, com o crescimento da demanda por insumos, reabertura e aquecimento das atividades fabris (com avanço das exportações em 0,5% durante junho, ante declínio de 3,3% por maio), a atividade interna ainda parece prejudicada. De tal modo, registrou-se uma queda de 3,9% nas vendas de varejo pelo segundo trimestre (comparação anual), ao passo que, de acordo com os últimos dados a respeito do desemprego - divulgados no meio de julho - 5,7% da população chinesa está em busca de trabalho, resultado levemente mais baixo do que ao mês anterior, porém com números mais elevados entre os jovens. Por fim, pode-se ainda citar como a inflação do país se mantém constante, com uma alta mensal de 0,1%, se estabelecendo em 2,5%, ressaltando a estagnação interna.

 

De tal modo, apesar dos bons resultados, o mercado passa a questionar a ideia de uma recuperação em “V” mais orgânica, que se daria através de uma melhora no consumo e investimento privado. Por outro lado, o governo local permanece a pressionar a economia, o que, durante o mês, se ilustrou de modo muito curioso, conforme o próprio incentivou a população a entrar na bolsa como, inclusive, uma espécie de mérito patriótico.

 

Já os EUA, seguindo as expectativas do mercado, apresentou dados de seu produto trimestral bastante afetados pela crise, projetando uma retração de 32,9% comparada ao trimestre anterior, a maior desde a grande crise de 1929 (as expectativas apontavam a uma mediana de queda de 34,5%). Em relação ao desemprego, os novos dados sugerem cautela à posição eufórica dos mercados após os dados do mês passado, no qual houve uma queda no número de desempregados. Os dados divulgados pelo Departamento do Trabalho indicaram aumento no pedido de auxílio-desemprego na magnitude de 1,4 milhões, 12 mil a mais que na semana anterior, o que se mostra um resultado da inabilidade do país em conter os novos casos de coronavírus, demodoque alguns estados estão se vendo obrigados a tomar algumas medidas mais rígidas de distanciamento social, impactando diretamente o mercado de trabalho.

 

No campo fiscal, o congresso americano se vê em um impasse quanto ao pacote seu pacote de auxílio econômico. O Partido Republicano, preocupado com o cenário deficitário, apresentou no Senado a proposta de um novo pacote de US$ 1 trilhão para mitigar os impactos econômicos da pandemia, prorrogando o benefício de auxílio-desemprego, que expira ao fim do mês até setembro, reduzindo, por outro lado, o valor pago aos desempregados, de US$ 600 para US$ 200 por semana. A partir de outubro, a medida seria substituída por uma ajuda federal no total de 70% dos salários anteriores dos trabalhadores. Os democratas, no entanto, criticaram a proposta e querem que o benefício de US$ 600 por semana seja estendido até janeiro, o que levanta debates acerca da viabilidade e benefícios da medida. Ademais, a proposta apresentada pelos republicanos também prevê uma nova rodada de cheques de US$ 1.200 para cidadãos americanos com renda igual ou inferior a US$ 75 mil por ano. 

 

Além disso, o partido do presidente, Donald Trump, propôs US$ 105 bilhões para auxiliar escolas que planejam retomar as atividades presenciais (com mais US$ 16 bilhões para realização de testes de Covid-19). No entanto, no último dia de julho, o congresso nacional paralisou as novas negociações para um novo pacote e não há expectativas de um acordo entre os partidos, um movimento incomum dado que essas decisões sempre ocorrem no “último momento” possível, esquentando ainda mais o clima entre as principais legendas do país.

 

Nesse contexto, o comitê de política monetária dos EUA (FOMC) manteve a taxa de juros inalterada no intervalo de 0,00% a 0,25%, conforme esperado pelo mercado. No comunicado, o FED reconheceu a melhora na atividade econômica, apontando, porém, como ela segue em passos muito aquém do esperado, reforçando, assim como nos comunicados anteriores, que as incertezas continuam elevadas por conta da pandemia do Covid-19.

 

Ainda no cenário político, o candidato à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, de acordo com as últimas pesquisas abriu uma vantagem de cerca de 15 pontos do adversário a 100 dias das eleições e segue próximo de escolher uma vice-presidente negra como prometido em março, o que deve abrir ainda mais sua margem entre as populações minoritárias do país. Por fim, pode-se citar como Donald Trump aqueceu o debate acerca da plataforma de votação, conforme afirmou sua pretensão de contestar a eleição caso a mesma seja feita pelos correios, sugerindo um possível caso de fraudes. 

 

O cenário brasileiro também mostra um retrospecto bastante semelhante, mostrando avanços importantes nas perspectivas locais, o que tem se sustentado, em grande medida, pelos auxílios estatais fornecidos às empresas e à população. Encerrando o mês com uma projeção de retração do PIB de 5,66%, o Boletim Focus tem apresentado uma perspectiva de melhora substancial (ante a uma projeção de -6,5% no avanço do Produto no início de julho), o que se deu em meio a diversos dados que apontam uma movimentação mais intensa dentro do varejo, com uma variação mensal (positiva) de 13,9%, além de avanços importantes dentro do setor industrial e de serviços, passando, respectivamente, de 51,6 para 58,2 e de 40,5 para 47,3 entre junho e julho. 

 

Nesse quesito, faz-se importante notar como o Auxílio Emergencial foi suficiente para compensar 84% da perda da massa salarial entre os que permaneceram ocupados, um acréscimo de 17 pontos percentuais em relação ao mês de maio, segundo uma análise da Carta de Conjuntura da IPEA dos microdados da PNAD Covid-19 de junho. Por outro lado, a taxa de desocupação ficou em 13,1% na semana de 5 a 11 de julho, segundo a Pnad Covid-19 divulgada no dia 31 de julho, sobressaindo-se aos 12,3% registrados na semana anterior, indicando que 2,4 milhões de trabalhadores passaram ao desemprego desde a primeira semana de maio. 

 

O ajuste nas contas externas deve ser mais moderado daqui para frente. Colocando as surpresas positivas com nossas exportações no primeiro semestre, deveremos ter um déficit externo de apenas US$ 7,7 bi. Apesar disso, o fluxo cambial para o Brasil segue negativo, refletindo o baixo apetite dos estrangeiros por ativos locais. A projeção do BC sobre a taxa de câmbio do final do ano segue constante em R$/US$5,20. 

 

Ainda que a depreciação cambial tenha sido elevada, a ociosidade da economia com a queda do PIB tem limitado repasses muito elevados aos bens finais. A demanda decaída do consumidor contrasta com a pressão de custos no atacado provocada pela escalada do dólar. Isso provoca um descompasso entre os dois principais indicadores de inflação do país, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e o Índice Geral de Preços (IGP-M). Enquanto o IPCA avançou 2,13% nos 12 meses até junho, de forma bem comportada, devendo chegar em dezembro perto de 1,5%, o IGP-M voltou a acelerar no mês passado, devendo acumular aumento de quase 8% em 2020. O Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco prevê que o IPCA deve encerrar 2020 em 1,9%, chegando a 3,1% em 2021, e o IGP-M deve encerrar com alta de 8,2%. 

 

Apesar dos resultados positivos, as discussões políticas permanecem a rondar o constante endividamento do governo. Conforme averiguado, o primeiro semestre representou um déficit de R$ 417 bi sobre o cofre público, o que eleva as expectativas a um cenário deficitário de até R$ 1 tri, conforme novos gastos governamentais façam-se necessários. Somado a isso, percebe-se uma movimentação cada vez mais intensa dentro da Câmara, ao passo que as eleições para a presidência da casa se aproximam, elevando os atritos entre os diversos partidos da base, oposição, mas principalmente do Centrão, que tem se fragmentado. Em meio a esse cenário de incertezas político e fiscais, cresce a instabilidade acerca do futuro do país, que passa a depender cada vez mais de uma recuperação econômica até o fim do ano, quando se encerram os auxílios. Pode-se ainda citar a própria discussão acerca da Reforma Tributária, que voltou ao radar do mercado com mais intensidade durante o mês, conforme o governo tenta apresentar um projeto de simplificação tarifária, o que porém vem em um programa de quatro principais fases às quais acabou por não esclarecer completamente, trazendo certas dúvidas ao processo.

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