"> De Olho no Mercado

23 de Julho de 2020

De Olho no Mercado

Na primeira edição do quadro “De Olho no Mercado”, destacamos algumas empresas e setores que tiveram um maior enfoque durante as últimas semanas. Nesse quesito, seguindo uma tendência desenvolvida em meio à crise, as empresas ligadas à exportação ganharam destaque, dado que suas atividades operacionais lhe fornecem uma maior proteção atrelada ao dólar, que passou por períodos de grande instabilidade. 

 

Dentre esses setores, as empresas do ramo de proteína animal despontaram como destaques, tendo uma variação considerável em maio, apesar da maior instabilidade ter se revelado ao início do quadro pandêmico. Pode-se assim destacar a variação mensal da JBS, BRF, Marfrig e Minerva, encerrando o mês de junho, respectivamente, com cotações em quedas de 3,73%, 8,08%, 3,22% e 1,79%. 

 

Contudo, para compreender bem esses resultados, é preciso se aprofundar um pouco mais na logística do setor, o que se traduz, em certa medida, no entendimento acerca do destino da produção:

 

Fonte: RI JBS, BRF, Marfrig e Minerva - Elaboração própria

 

Como se vê, o setor acaba por se sustentar, em grande medida, nas exportações, o que implica em receitas também projetadas em dólar - principal motivo para suas altas nos últimos meses, dado que ele se tornava uma posição mais segura em meio à volatilidade da moeda estrangeira. 

 

Por outro lado, é interessante notar como parte das dívidas dessas empresas também acabam sendo atreladas ao dólar, o que, no caso de uma moeda mais forte, pode trazer riscos. Contudo, a estratégia financeira das mesmas atua de modo bastante benéfico a elas, ao passo que têm grande parte de suas dívidas negociadas a longo prazo (para além de um ano), quesito no qual a JBS e a BRF se destacam, apresentando, respectivamente, cifras próximas à 94% e 83% de sua dívida com vencimento a longo prazo. 

 

Ademais, faz-se também interessante se atentar às ameaças que a Covid-19 representa ao setor. Apesar de mostrar uma forte resiliência, dado que se tratam de empresas ligadas à alimentação e portanto tendem a ter suas atividades produtivas priorizadas, têm também de redobrar seus cuidados sanitários. Nesse quesito, algumas notícias referentes à interdição de algumas fábricas acabaram também lançando certo temor ao mercado, o que porém tende a ser remediado em meio ao aprimoramento das medidas cautelares em cada empresa.

 

Em uma dinâmica setorial, pode-se citar ainda a estrutura das empresas:

 

Fonte: RI JBS, BRF, Marfrig e Minerva - Elaboração: Levante Investimentos

 

Destaca-se assim, sobretudo, a boa diversificação produtiva de empresas como a JBS e a BRF, que lhe garantam uma maior flexibilização para ajustes em relação à realocação de consumo em momentos de crise. Por outro lado, o cenário atual ainda se mostra mais favorável à carne bovina, em meio ao contexto da peste suína africana, que assolou a China desenvolveu uma nova demanda que privilegia a substituta, para além dos próprios porcos.

 

Ademais, destaca-se ainda o setor de papel e celulose. Com uma dinâmica cíclica, o negócio em questão costuma ser mais afetado em meio a períodos de recessão econômica, contudo, dado a natureza da crise, que prioriza a venda de produtos por entrega, criou-se uma maior expectativa para destaques positivos ao negócio. Nesse sentido, apesar de também se beneficiarem com a valorização inicial do dólar em relação à moeda brasileira, a cotação das ações das principais empresas do ramo, Suzano e Klabin, ilustraram bem como a busca por segurança inicial foi atenuada e o mercado passou a aceitar rapidamente mais riscos.

 

Com uma forte presença nas recomendações de compra ao início de junho, as expectativas em relação às empresas se mostraram bastante altas. Contudo, o avanço do mês apresentou uma tendência de estabilização que se consolida, mostrando, porém, certa preferência do mercado pela Klabin, que apresentou uma alta de 3,46% em junho, ao passo que a Suzano retraiu 4,32% no mesmo período.

 

A maior explicação do resultado positivo da Klabin ainda é a forte valorização do dólar (por conta do aumento nas margens de exportação), que afeta também o retorno no projeto Puma 2, extensão produtiva - ao qual se projeta uma forte receita dolarizada (ao passo que as estimativas apontam que 80% dos custos e 75% dos investimentos presentes estão em real). Já em relação à Suzano, o ambiente cambial não foi suficiente para suprir a queda nos preços da celulose no curto prazo, que é afetado pela relação de excesso de oferta e falta de demanda.



Quanto ao quadro de exposição das empresas, pode-se destacar a seguinte situação:

 

Fonte: RI Suzano e Klabin - Elaboração própria

 

Nesta dinâmica setorial, percebemos ainda divergências consideráveis entre os modelos produtivos da empresa. De tal modo, pode-se citar, resumidamente, a forte diversificação produtiva apresentada pela Klabin, que lhe configura uma flexibilidade produtiva em meio a cenários adversos, tal como o atual, o que se dá através da produção de fibra longa dos pinheiros (papel marrom) e a fibra curta do eucalipto, além ainda, dos chamados cartões revestidos. 

 

Por outro lado, também sobre caráter mais sintético, a Suzano se concentra em grande medida na fibra curta do eucalipto, configurando mais propriamente exportações de commoditie (sendo a maior empresa de celulose do mundo, com aproximadamente 30% da produção global).

 

Contudo, os últimos meses também têm apresentado um forte destaque ao setor varejista brasileiro que apesar de sofrer impactos negativos em um primeiro momento, a partir do fechamento das lojas, o setor se viu obrigado a adiantar um importante processo de digitalização de suas plataformas, desenvolvendo interfaces virtuais que, para além de suportar uma maior demanda, fosse também mais próximos à realidade de um público de consumo mais conservador. 

 

Esse movimento se ilustrou bem no impacto das vendas digitais entre março e maio, momento mais agudo da crise, com um acréscimo de 48,3%. O resultado, por sua vez, permanece em linha às expectativas do mercado, que tem se alimentado conforme os números no varejo permanecem fortes (o que se ilustrou bem com o crescimento de 13,9% no volume de vendas em maio, na comparação anual).

 

Nesse quesito, dentre os maiores avanços nas cotações pelo ano, pode-se destacar as ações da B2W (SA:BTOW3), seguida por Magazine Luiza (SA:MGLU3) e a Via Varejo (SA:VVAR3), respectivamente avançando em 2020 (até o início de julho), em 72,2%, 53,8% e 47,7%. 

 

Vale notar ainda como o momento se torna duplamente propício às empresas, pois para além do já citado, permite a elas iniciar um processo de aquisição das concorrentes de pequeno e médio porte,  o que representa um aumento do market share e em um maior ganho logístico. 

 

Tais pontos têm entrado em voga conforme várias empresas do setor têm aberto um processo de expansão de caixa, o que se dá através da emissão de dívidas e follow-ons. É importante perceber como há também aspectos como a euforia e a forte liquidez no mercado, configurado pela a própria fuga de capitais de PF’s à bolsa decorrente dos níveis historicamente baixos da taxa Selic, que acabam por impulsionar o movimento.

 

Apesar de não apresentar o melhor dos históricos nos resultados financeiros, a B2W, empresa responsável, dentre outros nomes, pela Submarino, Shoptime e Lojas americanas, figurou como forte destaque pelo ano. Com uma posição consolidada no e-commerce, a companhia já apresenta um sistema logístico desenvolvido, ao passo que ainda tem expandido sua tecnologia em acordos com outras empresas, abrindo suas plataformas de Marketplace a parceiros, como é o caso do MCDonald's – mais de 50 mil produtos estão disponíveis, incluindo itens de supermercado, de escritório, roupas, além do próprio fast-food.

 

Já a Magazine Luiza, por sua vez, aproveitou bem o movimento para consolidar seu já desenvolvido programa de digitalização, o que, somado à credibilidade que a empresa goza do mercado, acabou por resultar nos resultados vistos. É válido notar ainda como houve um aumento de 34% de suas vendas totais no primeiro trimestre, façanha essa que se deu em grande parte por sua estrutura comercial de entregas, que cresceu 76,2% no trimestre.

 

Por fim, para além dos resultados nas cotações, a Via Varejo configurou um dos maiores destaques do segundo trimestre em decorrência do processo de turnaround apresentado. Sendo responsável, dentre outras marcas, pelas Casas Bahia, Ponto Frio, Extra e Bartira, a empresa instaurou um veloz regime de digitalização, se colocando dentro da disputa no e-commerce. 

 

Dentre as diversas novidades que apresentou, com importantes aquisições em campos logísticos e virtuais, o programa conhecido como “me chama no zap” se destacou, construindo uma ponte entre os clientes e os vendedores, que estão trabalhando de forma remota pelo WhatsApp para compensar a perda das vendas com o fechamento das lojas, o que se mostra bastante positivo inclusive pelo quadro dos funcionários, que vem se expandido. 

 

Ademais, a empresa também teve avanços importantes na facilitação de negócios com seus clientes, conforme concluiu a compra do banQi, banco digital, estabelecendo ainda parcerias com a Cielo, Mastercard e Zurich. 

 

Nesse quesito, cita-se também o processo de Follow-on da empresa. Levantando R$ 4,45 bilhões, a empresa conseguiu praticamente dobrar seu capital social, angariando um importante montante que será fundamental para justamente garantir uma expansão de sua plataforma logística, aquisição de novas empresas e um próprio aporte de crédito. Não obstante, a empresa ainda animou o mercado após conseguir concluir o processo de alongamento de suas dívidas, mobilizando um valor de cerca de R$ 4 bilhões, conforme divulgado via Fato Relevante ao início do mês.

 

 

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