"> Editorial - Junho/2020

2 de Julho de 2020

Editorial - Junho/2020

Editorial - Junho/2020


Sendo um mês relativamente mais calmo, em comparação aos seus pares anteriores, junho trouxe consigo o ar de “o pior já passou”, em meio a alguns pontos de tensão mais localizados. Nesse quesito, para além da velha receita de alta liquidez (representando certa volatilidade no mercado), o mundo passa agora a se atentar a 2021, já pensando em um pós-crise, o que se traduz na busca por indícios de economias (tal como nos casos europeus e chinês), ou até mesmo empresas, que já apresentem condições próximas ao início do ano. Para além disso, o mercado parece insistir na recuperação estadunidense, ainda que seus dados econômicos e, sobretudo, suas projeções acerca do contingenciamento da pandemia não sejam os melhores, tudo isso em meio à ascensão de Biden na disputa eleitoral. No cenário interno, uma nova redução da Selic, somada à expansão do programa de auxílio emergencial protagonizam na perspectiva fiscal do país, o que se soma aos dados econômicos do mês e ao próprio avanço da pandemia, que tende a se acentuar em meio ao cenário de flexibilização de quarentena. 

 

Iniciando um processo sistemático de abertura, alguns países europeus já ensaiam a abertura de restaurantes e bares, o que se dá em meio a um forte monitoramento seguidos, caso necessário, de lockdowns, como ilustra a situação de Lisboa, capital de Portugal. A reabertura promete assim surtir efeitos decisivos à economia em meio a um momento em que a atividade produtiva do bloco já se mostra em processo de reaquecimento, conforme apontado pelo Índice Gerente de Compras (PMI) de serviços, que passou de 30,5, para 47,3 e Industrial, que evoluiu de 39,4 para 47,4 (ambos de abril para maio) - sempre válido lembrar que cifras acima de 50 representam expansão de atividades e abaixo representam retração. Os resultados ilustram bem o avanço do índice inflacionário na região, que, na variação anual, apresentou um avanço de 0,3% em junho. Tais cifras, naturalmente, traduzem bons resultados individuais entre as principais economias da região, o que melhora as expectativas do mercado como um todo.

 

Todo o avanço econômico na região é também amplamente acompanhado por um forte suporte financeiro. Nesse sentido, o Banco Central Europeu (BCE) expandiu novamente seu pacote de compra de ativos, agora com um acréscimo de 600 bilhões de euros, elevando o teto atual a 1,350 bilhões de euros. Para além disso, algumas medidas internas aos países também têm sido tomadas, o que se ilustra bem com o caso alemão e inglês (ambos anunciando novos pacotes de crédito nacionais). De tal forma, torna-se bastante importante se atentar aos movimentos entre França e Alemanha (dois principais polos econômicos da região), conforme Angela Merkel, chanceler alemã, e Emmanuel Macron, presidente francês, esboçam um possível encabeçamento do processo de concessão de crédito. 

 

Também nesse sentido, a economia chinesa mostra uma retomada bastante significativa em maio. Conforme divulgado por escritórios de estatísticas chineses, houve um crescimento de 4,4% na produção industrial em maio na comparação anual, ante um avanço de 3,9% em abril, resultado um pouco mais baixo do que as expectativas do mercado. Apesar dos bons números, a economia interna chinesa permanece bastante abalada, o que se vê por um a retração no varejo (em 2,8%), além do avanço de desemprego, que figurou em 5,9%, próximo do teto histórico, de 6,2%, alcançado em fevereiro do ano. Já na questão inflacionária, registrou-se uma cifra de 2,4% na comparação anual em maio, quinta queda consecutiva, que se materializa sobretudo nos setores não-alimentícios.

 

Por fim, em relação a balança comercial, podemos destacar o superávit comercial de US$ 62,93 bilhões no mês de maio, um aumento de quase 40% se comparado a abril, segundo a Administração Geral das Alfândegas. Entrando nas minúcias, houve queda de 3,3% das exportações e 16,7% nas importações. Vale ressaltar que, com a exceção das importações, e apesar das quedas, os números superaram as expectativas dos economistas do The Wall Street Journal. 

 

Já no front político, após alguns desentendimentos entre alguns representantes na Casa Branca, anunciou-se que o acordo comercial sino-estadunidense permanece em vigor, se estruturando ainda em sua fase inicial, sustentando-se na nas compras chinesas em US$ 200 bilhões em produtos norte-americanos, como uma forma de corrigir as supostas distorções apontadas por Trump. O momento torna-se bastante delicado à China, que se vê em meio a uma pandemia nos porcos e, agora, dentre os humanos, de modo que o mercado estadunidense lhe fornece uma condição fundamental de desenvolvimento. 

 

Nos EUA, por sua vez, a situação em meio à pandemia mantém-se em foco dado que lá, assim como no Brasil, não houve propriamente um encerramento da primeira onda de contágios, o que implica em um constante alto número de casos diários. Em meio a um crescimento de mortes ao fim do mês, passou-se a estipular uma possível rigidez no processo de lockdown, que passou por certo arrefecimento em alguns estados, contudo a pressão pela aceleração das atividades econômicas parece ignorar isso. Desta forma, com uma explosiva venda  no varejo, chegando a um patamar de expansão próximo aos 17,7% durante o mês, espera-se um impacto positivo em toda cadeia produtiva do país. Tal expectativa se desenvolveu, inclusive, pela taxa de desemprego, que chegou aos 11,1%, cifra que deve ser analisada com certo cuidado, mas apresenta como um resultado bastante positivo em meio à situação na visão do mercado. De tal modo, passa-se a discutir uma possível “recuperação em V” da economia americana. 

 

Em meio a isso, podemos inclusive destacar a última etapa de um dos programas de expansão de crédito do Federal Reserve (FED). O Programa de Facilidade do Crédito Corporativo no Mercado Principal (PMCCF) consiste em conceder empréstimos de US$ 500 bilhões para apoiar a emissão de novas dívidas por grandes empresas, direcionando uma maior segurança de caixa às mesmas. Tais cifras ilustram bem o forte endividamento do Tesouro do país, que está chegando a níveis não vistos desde a Segunda Guerra Mundial. O FMI estima que a dívida pública global irá ultrapassar 100% do PIB pela primeira vez na história esse ano, em um movimento de endividamento muito maior do que o visto após a crise financeira de 2008.

 

Para além disso, a corrida eleitoral também se acentua, ao passo que Joe Biden lidera as intenções de voto para as eleições presidenciais de novembro. O representante democrata tem aparecido pelo segundo mês consecutivo com mais intenções de voto, chegando a abrir uma margem de 14 pontos percentuais à frente de Trump (no caso, Biden obteve 50% das intenções, contra 36% de Trump). Não figurando exatamente como um “outsider”, o ex-Vice Presidente consegue projetar uma imagem de mais estabilidade, ao passo que angaria mais simpatia entre as minorias sociais, movimento que se dá, inclusive, pela polarização em meio ao ambiente de confronto social instalado no país. Apesar de tudo, Trump ainda tem alguns meses para mudar o cenário, o que se dá, em grande medida, em sua aposta para uma possível vacina contra a Covid. Por outro lado, os resultados ganham forte teor de incerteza ao passo que o retrospecto da última eleição, que indicava em grande parte das estimativas, uma vitória de Hillary Clinton, acabou se mostrando bastante falho.

 

Por outro lado, abrindo o semestre com mais de 60 mil mortos, as condições pelo Brasil também permanecem bastante críticas. Apesar do aumento no número de casos e de vítimas, a gestão fica agora ao cargo de prefeitos e governadores, de modo que se estruture uma desorganizada abertura parcial, com casos emblemáticos como o shopping Iguatemi Esplanada, que, construído na fronteira entre Votorantim e Sorocaba, tem somente metade das lojas em funcionamento. 

 

Contudo, a despeito do quadro atual e da forte redução da atividade econômica observada no final de março e ao longo de abril, vários indicadores apontam no sentido de que a atividade econômica voltou a crescer a partir de maio. Um grande fator de influência para essa recuperação é a implementação efetiva do auxílio emergencial, que aparenta ter coberto parcela substancial da renda dos trabalhadores informais e em condições de vulnerabilidade. Auxílio esse que deve ainda se estender por mais dois meses, configurando um cenário de maior estabilidade social que apresenta seu custo através de um déficit primário mensal próximo a R$ 130 bi, resultado 10 vezes mais elevado do que o apresentado no ano anterior (somente em 2020, o país já acumula R$ 214 bi em déficit primário, algo próximo a 3,91% do PIB). 

 

Nesse sentido, faz-se ainda necessário observar a relação da deterioração das condições fiscais do país e uma forte pressão futura a médio-longo prazo para a elevação da taxa de juros básica. Sendo um dos eventos macroeconômicos mais importantes do mês, a reunião do Copom fluiu de acordo com as expectativas do mercado, reduzindo a taxa Selic a um novo piso histórico, agora aos 2,00%. Contudo, o grande ponto de debate vem mais propriamente em relação à declaração do órgão, de modo a indicar possíveis novos cortes, tais como suas intensidades. Ao que tange as principais estimativas, espera-se majoritariamente que 2020 se encerre com um piso limite de 1,50%, o que, acontecendo ou não, piora a capacidade de financiamento do governo, em meio à perda de atratividade da renda fixa - formatando tal pressão para uma forte expansão dentro de alguns anos. 

 

Em todo caso, a eficácia das políticas monetárias permanece sendo posta à prova, ao passo que as projeções indicam que o país deve ter uma perda de 6,50% de seu produto em todo 2020, com uma recuperação de 3,5% para 2021. As estimativas consideram o endividamento do governo (que pode passar os 90% do PIB até o fim do ano) e a própria atividade econômica no país, que, conforme o IPCA-15 de junho, permanece bastante tímida, com um avanço de somente 0,02%. Na variação de preços, os setores de transporte permanecem acumulando a maior queda, ao passo que os setores alimentícios têm sustentado as altas no indicador.

 

Por outro lado, de modo similar à situação estadunidense, boa parte do dinamismo econômico tem se sustentado através do auxílio emergencial do governo, tornando o país refém de uma recuperação estrutural mais consolidada dentro dos próximos meses, sob o risco de mais um forte impacto no consumo.

 

Tal recuperação, por sua vez, é bastante questionável, contudo encontra certas esperanças. De certo, a situação é bastante crítica no país, contudo, indicadores como a taxa de desemprego divulgada ao fim do mês, indicando uma taxa de desocupação de 12,9% (em meio a estimativas de 13,5%), mostra certa resiliência das carteiras assinadas no país. É preciso, contudo, notar que os dados escondem alguns fatores como a população desocupada, que cresceu mais de 3,0% durante o mês e o próprio aumento do rendimento médio, que reflete mais propriamente uma exclusão dos postos de trabalho menos remunerados. 

 

Em todo caso, o chamado “fundo do poço” parece ter sido atingido conforme observamos indicadores como a confiança dos empresários, com avanços importantes, além de sinalizações de empresas de crédito ao varejo apontando variações negativas menos acentuadas. Paralelamente, alguns setores industriais como a automobilística, vestuário, máquinas, equipamentos e informática passam a reiniciar suas operações produtivas. 

 

Desta forma, junho se encerrou sem grandes variações, consolidando novas faixas de estabilidade ao dólar e à bolsa. O clima de densa fluidez parece finalmente começar a surtir seus efeitos mais claros na economia, forçando o capital a se realocar dentro da renda variável e condicionando o que parece ser um crescimento mais horizontal do índice Ibovespa, que se consolida entre 91 e 97 mil pontos. O dólar, por sua vez, apesar de variar mais acentuadamente em decorrência da mudança na taxa de juros, permaneceu em um patamar médio de R$ 5,25 durante o mês, iniciando o semestre aos R$ 5,32. 

 

Cabe agora, ao semestre que se inicia, uma maior observação quanto ao desenvolvimento macroeconômico do país, que deve determinar o avanço da taxa de juros, o que vem em direta consonância com o desenvolvimento fiscal do governo, que torna-se também dependente de uma melhora nas condições econômicas do país. Para além disso, julho também se inicia com as expectativa para a temporada de balanços, mostrando o real impacto da pandemia nas condições produtivas das empresas, o que, apesar da assistência governamental, tende a vir com resultados pouco animadores. 

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