"> Editorial - Maio/2020

9 de Junho de 2020

Editorial - Maio/2020

Editorial - Maio/2019

 

 

O “interminável” mês de maio conseguiu destacar-se sobre o contexto já bastante atípico que as economias do mundo, e sobretudo o Brasil, tem vivido. Substituindo o tópico sanitário, as questões políticas tomaram mais uma vez as rédeas dos noticiários. Conforme as especulações e a divulgação da famigerada reunião ministerial de abriu se desdobraram, iniciou-se um verdadeiro xadrez político a envolver o Governo Federal, o “Centrão”, o Supremo Tribunal Federal (STF) e os governadores estaduais (em meio ao acirramento da crise fiscal e econômica do país). 

 

O cenário externo também foi desafiador, ao passo que as primeiras medidas de flexibilização da quarentena passam a dar as caras, crescem as preocupações a respeito de uma possível segunda onda de contaminações. De modo paralelo, o mês ainda foi marcado por conflitos tanto internos, quanto entre as duas principais potências do globo, conflitos estes que, para além dos Estados Unidos (EUA) e da China, proporcionaram protestos ao redor do globo. Ao que se vê, o mundo já experimenta um “novo normal”, ainda que bastante relacionado com o Covid-19, mas com particularidades surpreendentes.

 

Durante o mês, os países da União Europeia (UE) passaram a apresentar planos de flexibilização da quarentena de modo mais sistemático, de modo a ensaiar o que deve ocorrer no ocidente dentro dos próximos meses. Visando uma retomada da atividade econômica e revitalizando seus setores de produção, serviços e turismo, o bloco europeu já anunciou um possível “abrir de fronteiras” ainda em junho. Soma-se à situação, previsões para novos pacotes de € 750 bi (aproximadamente US$ 847,05 bi) em empréstimos como um fundo para o estímulo econômico à região, proposta protagonizada, sobretudo, por uma colaboração em conjunto de França e Alemanha, visando uma concessão de crédito à todos os países do bloco. 

 

Por outro lado, algumas das compras recentes de ativos pelo Banco Central Europeu (BCE) foram julgadas pelo tribunal constitucional alemão como uma violação parcial da constituição, enquanto a resposta do banco central europeu foi de que age de forma independente, o que tende a gerar certa insegurança jurídica à região como um todo.

 

Contudo, já observando o cenário econômico do continente, vê-se um contexto de bastante alerta. Conforme Christine Lagarde, presidente do BCE anunciou, a economia do bloco deve encolher entre 8% e 12% durante o ano, o que demonstra o forte impacto sentido nos setores produtivos da região. Nesse quesito, o Índice de Gerentes de Compras (PMI) industrial do bloco avançou para 39,4 durante maio, contra os 33,4 registrados em abril, à medida que o setor de serviços apresentou uma cifra de 30,5 pontos em maio, contra 28,7 pontos no mês anterior. Nesse sentido, ainda é válido notar que o PMI composto, passou de 13,6 para 31,9 durante março – nota-se que cifras inferiores a 50 pontos demonstram retração econômica, ao passo que as cifras superiores  indicam expansão. 

 

Apesar desses avanços, a inflação na região teve seu nível mais baixo dos últimos quatro anos, representando uma alta anual de 0,1% em maio (contra 0,3% em abril), durante o tempo em que a taxa de desemprego avançou de 7,1% para 7,3%, resultado abaixo dos 8% esperados por alguns analistas.

 

A China, por sua vez, tomou os holofotes internacionais ao reviver suas disputas comerciais com os EUA, enquanto também foi alvo de protestos internos ainda em meio ao contexto de distanciamento social. Iniciando uma retomada da indigesta  disputa comercial, o governo estadunidense, para além de responsabilizar a China pelo desenvolvimento do coronavírus, acirrou as disputas comerciais envolvendo a Huawei e, consequentemente, a tecnologia 5G, formando novos temores acerca de um possível rompimento do acordo comercial entre os países, ainda em desenvolvimento. 

 

A disputa atingiu seu ápice ao fim do mês, quando o Senado aprovou um projeto para retirar as empresas chinesas controladas pelo governo da bolsa estadunidense, o que ainda deve passar pela Câmara dos Deputados - controlada pelos democratas - para então passar à sanção presidencial, sendo  um alerta ao Gigante Asiático. Para além disso, novas tensões internas surgiram dentro da China conforme o governo estipulou a chamada lei da segurança nacional, que prevê ações mais rígidas contra “atitudes subversivas”.Política que, na prática, reduz a autonomia política de Hong Kong, levando milhares de manifestantes às ruas, em meio ao isolamento social.

 

Já dentro dos indicadores econômicos, o Dragão Asiático permanece em seu “arrumar de casa”, registrando o saldo do período e retomando sua atividade produtiva. Nessa perspectiva,  divulgou-se a retração trimestral de 6,8% do país, ilustrando como as estimativas de desemprego permanecem em números historicamente altos, aos 6% durante abril, cifra que levanta questionamentos em relação à transparência do governo, para além do fato de refletir somente a situação urbana – as áreas rurais sofreram ainda mais. Por outro lado, o PMI do setor de serviços chinês teve um forte avanço em maio, chegando aos 55,0 pontos, ante 44,4 em abril, conforme o PMI industrial passou de 49,4 para 50,7, com um índice composto passando de 47,6 para 54,5. 

 

Seja como for, o avanço econômico chinês permanece bastante movido pelas forças internas, o que fica claro em um momento as exportações do país voltaram a apresentar uma retração, caindo em 3,3% em maio (ante uma alta de 3,5% em abril), resultado em linha com uma queda de 16,7% nas importações (em linha com a retração de 14,2% em abril). De tal modo, o cenário interno corrobora com o anúncio de Li Keqiang, primeiro ministro, deixando de estabelecer uma meta de crescimento ao ano, de modo a privilegiar o desenvolvimento de empregos.

 

Apesar de ainda apresentar um considerável número de casos diários de contaminações por Covid-19, os EUA também ensaiam uma abertura comercial. Sem algum planejamento muito específico ao processo, os governos estaduais têm adotado medidas autônomas para a reabertura, o que põe o processo de isolamento social em risco. Em todo caso, o país tem apresentado resultados econômicos bastante surpreendentes, o que se materializou com o avanço das atividades econômicas, chegando em 43,1 ante 41,5 pontos no PMI industrial e 37,5 ante 26,7 no PMI de serviços. Os resultados ilustraram bem o forte avanço de empregabilidade do país, que passou de 14,7% em abril para 13,3% em maio, resultado que surpreendeu o mundo, conforme as estimativas indicavam um avanço para 19% na quantidade de desempregados.  Para além disso, esse clima de otimismo também se viu no avanço do petróleo, conforme houve uma redução bastante sensível no estoque de barris em quase 5 milhões de unidades (ante estimativas que indicavam um acréscimo de novos 1,4 milhões de barris), elevando o preço dos contratos futuros, tanto do WTI quanto do petróleo Brent.

 

Destaca-se ainda a importante atividade do Federal Reserve (FED) durante o mês. Mesmo com um cenário um pouco mais positivo para a retomada da economia, as empresas continuam apresentando dificuldades para enfrentar a crise. Nesse último mês, o balanço do FED ultrapassou a marca de 7 trilhões de dólares em ativos – 32% do PIB – num momento em que cada vez se mais anuncia a incorporação de novas medidas em seu escopo de atuação nos mercados. Os estímulos se justificam em meio à temporada de declarações de falência, que tem atingido sobretudo as empresas aéreas (como a Avianca e a Latam), ao passo que outros setores também tem sentido o impacto econômico na pele, o que se ilustra conforme pedidos de falência também alcançaram o setor de aluguel de veículos, mais propriamente através da Hertz, empresa centenária.

 

Para além disso, o assassinato de George Floyd também marcou o país, e o mundo, ao fim do mês. Logo em sequência ao episódio, surgiram uma série de protestos por toda região, contando com milhões de participantes nos mais diversos estados, protestos esses que, inclusive, contagiaram dezenas de países, em pautas semelhantes. As manifestações, porém, contrariam as normas de distanciamento social recomendadas pelos órgãos de saúde, pois geram uma certa aglomeração, mesmo com a maioria dos manifestantes usando máscaras. Utilizando-se dessa prerrogativa, Donald Trump decidiu reprimir os protestos, dispondo até de utilizar as forças armadas do país, o que, em certa medida, também vem como uma capitalização política à questão, se posicionando ao seu eleitorado mais conservador como um presidente capaz de assegurar a ordem, em direto antagonismo com a posição dos democratas – começa aí a disputa de narrativas às eleições.

 

Semelhantemente ao caso dos EUA, o Brasil também passou a ensaiar alguns processos de flexibilização da quarentena, ainda que em um período de ascensão da curva de contaminação. Após uma longa disputa com os governadores estaduais, as pressões do gabinete presidencial, somadas à deterioração das condições econômicas e fiscais, têm surtido efeito, ao passo que a necessidade pragmática de se restaurar as atividades comerciais parece falar mais alto. Contudo, o clima político do país tem se tornado cada vez mais tenso, de modo que as manifestações contra, e não somente ao favor, do Presidente têm tomado as ruas. 

 

Em meio a isso, a divulgação da gravação da famigerada reunião ministerial do fim de abril, apesar de inicialmente demonstrar fortalecer Bolsonaro, passa a mostrar seus impactos conforme o STF passou a pressionar mais o governo, atingindo alguns ministros, para além de apoiadores dentro e fora de Brasília. Por sua vez, o presidente demonstra um claro aceno ao “Centrão”, enquanto algumas investigações da Polícia Federal atingem alguns dos governadores, tal como foi o caso de Wilson Witzel, no Rio de Janeiro, enfraquecendo parte do que constituía uma oposição.

 

Em consonância com o cenário político, o contexto econômico também se demonstra bastante conturbado. Conforme divulgado, mesmo com o isolamento social somente se aplicando a partir da segunda quinzena de março, a atividade econômica contraiu em 1,5% durante o primeiro trimestre. Nesse sentido, as últimas projeções do boletim Focus ao PIB brasileiro apontam ainda uma contração de aproximadamente 6,5% durante o ano ,de modo paralelo, as projeções ao IPCA, também durante o período, reduziram-se de 1,55% para 1,53%, configurando em ambos os casos um reajuste negativo de expectativas que se repete sistematicamente. 

 

Nesse contexto, a taxa de desemprego referente ao primeiro trimestre avançou para 12,2%, ante 11,0% no trimestre anterior, contudo, notou-se ainda uma pauperização econômica, ao passo que a projeção se encerrou em março, não absorvendo, portanto, o ápice da crise.  Vale ainda notar que o país registrou uma retração de 9,1% em sua produção industrial; o setor industrial, por sua vez, contraiu em 6,9% na comparação mensal dessazonalizada, ambos em referência ao mês de março

 

O Banco Central (BC) protagonizou assim um corte bastante surpreendente na taxa SELIC, reduzindo-a à cifra de 3,00% ao ano, para além de indicar que um novo corte, também de 75 p.p. deve ocorrer, muito provavelmente ainda em junho.

 

Com isso, a situação do câmbio brasileiro pelo mês foi bastante instável, fazendo com que o dólar chegasse até a marca de R$5,89 (fechando o mês aos R$ 5,34). Contudo, apesar dos fortes estímulos, a inflação permanece sem apresentar grandes respostas, seja ao curto, seja ao longo prazo. Estimativas assim apontam a uma deflação de até 0,45% em maio, ante 0,31% em abril, conforme apontam estimativas do Credit Suisse. Nesse quesito, nota-se como a insegurança econômica já significou ao setor de varejo, que não considera veículos e materiais de construção, uma queda de consumo de 4,4% no primeiro trimestre do ano em relação ao fim de 2019, ao passo que, dentre os principais gastos, somente “Alimentação no domicílio” tem apresentado um avanço de preços.

 

Em contrapartida, os diversos pacotes do governo para estímulo econômico têm também desenvolvido projeções para um desenvolvimento fiscal bastante deteriorado. Estima-se atualmente que o déficit primário para o ano chegue à casa dos R$ 540,53 bilhões, cifra que deve significar algo próximo de 7,8% do PIB brasileiro durante o período. O resultado, divulgado pelo boletim Focus, também estipula um avanço da Dívida Líquida do Setor Público, se aproximando de algo próximo a 65% do produto do país. 

 

Por outro lado, registrou-se ainda uma destruição de 4,4 milhões de empregos entre março e abril, elevando a taxa trimestral de desemprego para 12,6% ao quarto mês do ano, cifra, porém, que esconde a diminuição de participação na busca por empregos, ao passo que, se mantido a taxa de população economicamente ativa de fevereiro, o desemprego trimestral atingiria 15,9% durante abril. Abre-se assim margens para uma possível expansão da dívida pública, conforme novas rodadas de auxílios emergenciais se mostrem necessárias.

 

Em meio a situação atual, as bolsas pelo mundo, sobretudo no caso brasileiro, parece se deslocar da realidade econômica. Chegando à cifra de 30 mil mortos ainda em maio, o país tem flertado com o fim do isolamento social, abrindo seus comércios em um dos momentos mais dramáticos da crise. O que se soma ainda à própria situação econômica e fiscal do país como um todo, para além de seus próprios dilemas políticos. Contudo, o avanço estadunidense, em meio a um contexto de baixíssimas taxas de juros em um curto-médio prazo, com uma forte liquidez global parecem alimentar o apetite de risco do investidor interno, que agora retorna à bolsa, aproximando o Ibovespa da casa dos 90 mil pontos ainda ao fim de março, movimento que vem em consonância com o derretimento do dólar, citado anteriormente. 

 

Nota-se assim como esse avanço acabou contaminando todo o mundo, de modo que se levantam questionamentos acerca do quanto esse bom-humor do mercado deve durar, o que também se acentua no caso brasileiro, o que se soma ainda à nova reunião do Copom, com possível redução de juros, se aproxima em junho. Resta agora analisar como o mercado reagirá à mudança, tal como os possíveis impactos referentes a essa reabertura, o que tende ainda a definir a tônica dos próximos movimentos políticos dentro de Brasília. 

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