"> DE ÁTOMO EM ÁTOMO: ANÁLISE DA INDÚSTRIA QUÍMICA BRASILEIRA

20 de Maio de 2020

DE ÁTOMO EM ÁTOMO: ANÁLISE DA INDÚSTRIA QUÍMICA BRASILEIRA

DE ÁTOMO EM ÁTOMO: ANÁLISE DA INDÚSTRIA QUÍMICA BRASILEIRA
Por Rafael Franceschetti

 

A indústria química é o setor da economia responsável pela produção de compostos essenciais para o funcionamento de virtualmente todas as outras indústrias. Dos circuitos eletrônicos de um computador à exploração do petróleo, os produtos oriundos do segmento químico estão presentes no dia a dia de todo indivíduo e representam, também, uma das maiores oportunidades de inovação para o desenvolvimento sustentável. 

 

Os tipos de produtos produzidos na indústria química são regulamentados nacional e internacionalmente. No Brasil, a indústria química é subdividida em químicos inorgânicos e orgânicos. De maneira geral, fazem parte desta indústria os ácidos, cloro e álcalis, sulfatos, fertilizantes, cosméticos, polímeros, lubrificantes, compostos orgânicos diversos, catalisadores, agroquímicos, tintas, fármacos, entre outros.  A produção de combustíveis (gás natural e derivados de petróleo ou biomassa), assim como a própria exploração do óleo bruto, não fazem parte desta indústria. 

 

O relatório da International Council of Chemical Associations (ICCA), publicado em 2019, mostrou que a indústria química contribuiu com 7% do PIB mundial em 2017, equivalendo a um montante de US$ 5,7 trilhões. Considerando os impactos diretos e indiretos, essa indústria é responsável por 120 milhões de empregos no mundo no mesmo ano. Desses valores, a região Ásia-Pacífico (APAC) tem a maior participação, com 45% do valor econômico e 69% dos empregos; segue-se a Europa e, em terceiro, a América do Norte.  

 

CENÁRIO ECONÔMICO GLOBAL

A Ásia concentra seus esforços industriais na produção têxtil, com destaque para as fibras sintéticas, como o poliéster e o nylon (poliamida). Contudo, 2018 viu a chegada de políticas direcionadas à eficiência energética e diminuição da poluição. A implementação de estratégias sustentáveis fez com que algumas indústrias, em especial a de pesticida, tivessem seu crescimento desacelerado. Em compensação, o crescimento da classe média na região fortaleceu as indústrias de sabão, detergente e cosméticos, os quais são voltados diretamente para o consumidor pessoa física. Os setores de construção civil e automotivo fortaleceram as fabricantes de tintas. A chinesa Sinopec foi a maior fabricante de produtos químicos em 2018, colocando a China como a maior potência química do mundo no mesmo ano.

 

Na Europa, os químicos de especialidade, petroquímicos e fertilizantes são os mais relevantes no mercado. A queda dos preços do petróleo em 2018 impulsionou as vendas desses produtos, mas a desaceleração do comércio internacional afetou o continente em 2018, com uma queda de € 3,2 bilhões em relação ao ano anterior. O banimento de plásticos de uso único, realizado pela União Europeia, oferece um desafio à Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) de petroquímicas europeias. Destaque para a alemã BASF (BAS), maior fabricante europeia e segunda maior do mundo. 

 

A indústria na América do Norte produz dominantemente fertilizantes e químicos básicos, estes últimos bastante afetados pelo furacão Harvey em 2017. O boom na produção de gás de xisto levou a um aumento importante nos investimentos em plantas de processos químicos de 2010 a 2015, as quais entraram em operação em 2018 e 2019. A guerra tarifária entre Estados Unidos e China afetou negativamente o setor nesses dois anos: em particular, a retaliação tarifária imposta pela China causou uma queda de 24% nas exportações estadunidenses em 2018, comparado ao valor de 2017. 

 

MERCADO BRASILEIRO

A indústria química brasileira é a maior da América Latina e a sexta do mundo. O foco da produção está nos produtos químicos industriais, responsáveis por US$ 59 bilhões em 2017, seguido pelos farmacêuticos, contabilizando US$ 17,8 bilhões e fertilizantes, com participação de US$ 8,8 bi.  

 

O faturamento da indústria química brasileira foi de US$ 42 bilhões (ou R$ 43 bilhões) em 1996 para US$ 121 bi (ou R$ 384,4 bi) em 2017. Líquido, a indústria faturou US$ 104 bi, sendo que 65% desse montante se deve ao segmento petroquímico, bastante forte no país. Sua participação no PIB é de 2,4%; na série histórica, a partir de 1996, a participação mais alta foi em 2004, com 3,6%. Um problema recorrente é o fato desta indústria ser deficitária. O déficit transitou de US$ 1,5 bi, em 1991, para US$ 23,5 bi, em 2017. O déficit sempre foi presente na indústria química brasileira, o que se deve a deficiências em infraestrutura do país (sobretudo em transportes), custo da energia e falta de matéria-prima barata. Outros dois fatores que impactaram o agravamento do déficit, a partir de 2007, foram a desproporcionalidade do consumo interno em relação à capacidade de produção local, devido ao estímulo ao consumo interno em função do aumento de renda; e a importação de produtos químicos de maior valor agregado, que superou a exportação, devido à produção das empresas brasileiras ser fortemente concentrada em torno de commodities de baixo valor agregado. Segue a evolução do faturamento líquido da indústria brasileira até 2017: 

 

Fonte: Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).

 

Os dados da Abiquim para 2018 são estimados e, consequentemente, não há dados consolidados para o ano de 2019. 

 

No que diz respeito aos modais de transporte, o Brasil, sobretudo a partir do governo Kubitschek, investiu fortemente no transporte rodoviário. Esse modal encarece o frete de produtos químicos pelo país, o que poderia ser parcialmente solucionado por maior investimento na infraestrutura ferroviária, principalmente nas rotas que ligam as indústrias aos portos. O custo da energia no país também é alto. E falta capacidade portuária, fazendo com que uma parcela dos produtos demore para ser movimentada. Nesse sentido, o governo Dilma lançou, em 2015, o Plano de Investimento em Logística (PIL), cujo intuito era aumentar o investimento em capacidade portuária e nos transportes rodoviário, ferroviário e aeronáutico, além da concessão de portos à iniciativa privada. Todavia, a crise que se seguiu inviabilizou o projeto. 

 

Apesar dos petroquímicos serem o carro-chefe da indústria química brasileira, a consultoria Bain & Company, em relatório encomendado pelo Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), mostrou que o Brasil pode fortalecer a competitividade de sua cadeia produtiva com investimentos em defensivos agrícolas, químicos de exploração e produção de petróleo, e cosméticos. O país já conta com matéria-prima disponível e competitiva para a produção de derivados de celulose, aditivos alimentícios e aromas e fragrâncias. Dentro do framework da química verde, o país deve investir na base química para a conversão de biomassa em produtos de maior valor agregado. 

 

 

 

O SEGMENTO PETROQUÍMICO

Como mencionado, os produtos petroquímicos são os mais relevantes na indústria brasileira. São os produtos derivados da nafta e do gás natural, ambos oriundos da exploração do petróleo. A Petrobras é praticamente a única produtora de nafta e gás natural no Brasil, atendendo parte da demanda nacional, mas as empresas também podem importar gás natural para atender demanda própria, depois que o monopólio estatal foi quebrado em 2002. Os produtos mais importantes são os petroquímicos de primeira geração (eteno e propeno), as resinas - polietileno (PE), polipropileno (PP), cloreto de polivinila (PVC), PET, entre outros - e elastômeros, filmes, embalagens, fios e cabos, conexões, autopeças, pneus, fibras sintéticas, etc. 

 

A Braskem (B3:BRKM5) é a empresa brasileira mais relevante do setor, sendo a maior produtora de poliolefinas das Américas e a maior produtora de biopolímeros do mundo. Controlada pelo grupo Odebrecht, é a única brasileira a produzir petroquímicos de primeira geração. A empresa teve um ano de 2019 conturbado: prejuízo de R$ 2,922 bilhões no último trimestre, comparado à perda de R$ 78 milhões no mesmo período de 2018. O prejuízo líquido foi de R$ 2,798 bilhões. A receita líquida de vendas foi de R$ 52,324 bilhões em 2019, um recuo de 10% com relação a 2018. O EBITDA recuou 31% (em dólar) em relação a 2018. Em junho de 2019, a holandesa LyondellBasell anunciou que desistiu da compra da Braskem - depois de mais de 1 ano de negociações -. fazendo os papeis da brasileira caírem 20% na abertura do pregão, fechando o dia em queda de 16%. De fevereiro a agosto de 2019, a empresa perdeu 50% do seu valor de mercado.

 

Fonte: Braskem.

 

O prejuízo no ano ocorreu em função: da implementação, em Alagoas, do Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação, depois que a companhia foi responsabilizada por uma série de danos estruturais em Maceió; do fechamento de poços de sal da companhia e do Programa para Recuperação de Negócios e Promoção de Atividades Educacionais; e da depreciação do real em relação ao dólar sobre a exposição líquida da empresa. A empresa atribui a queda do EBITDA aos menores spreads (diferença entre o preço do produto processado – como uma resina – e o custo da matéria-prima para sua produção) no mercado internacional, somados com o menor crescimento global e com o aumento da capacidade produtiva de PE nos EUA e PP na Ásia, junto com a entrada de novas refinarias neste continente. O propano e a soda cáustica tiveram uma diminuição importante no spread, variando -39% (globalmente) e -47% (nos EUA), respectivamente. As quedas dos químicos básicos em geral ocorreram devido à diminuição sazonal da demanda, pela retração da indústria automobilística, pela introdução de crackers (responsáveis por craquear a matéria-prima) base etano, e do início da operação de novas refinarias na Ásia. 

 

Vale destacar o efeito de eventos macroeconômicos na venda dos petroquímicos de segunda geração da companhia. O Brexit e a guerra comercial entre EUA e China, já mencionada neste artigo, levaram a uma menor demanda de PE, somados à introdução de crackers base gás de xisto nos Estados Unidos. Quanto ao PP, a variação negativa do spread se deu pela retração da indústria automobilística, cuja demanda diminuiu pelo fim do incentivo fiscal chinês para compra de carros e pelos novos padrões de emissão de gases do efeito estufa no país e na Europa. Por fim, o PVC (cloreto de polivinila) variou negativamente devido à menor demanda na Ásia, à política antidumping da Índia e à menor demanda de soda cáustica nos setores de alumínio e papel e celulose. 

 

Em 2020, o Brasil tinha boas expectativas para a economia, com crescimento do PIB projetado para a faixa de 2 a 2,5%, uma das taxas de juros mais baixas da história e inflação controlada. O desafio era resolver o problema do desemprego através da atração de investimento externo.  A pandemia do Sars-CoV-2 (causador da COVID-19) reverteu completamente esse cenário. O boletim Focus, divulgado pelo Banco Central em 18/5, atualizou a retração do PIB para 5,2%. O dólar operou predominantemente em alta, cotado em R$ 5,72 no mesmo dia. A performance durante a pandemia vai se mostrar um benchmark importante para a indústria mundial.

 

Os solavancos já foram sentidos no 1T20. Em fevereiro, o México anunciou que tentará anular um contrato de venda de etano abaixo do valor de mercado entre petroleira estatal Pemex e a Braskem-Idesa, responsável pelas operações da Braskem em solo mexicano. Soma-se o recente choque do petróleo, com seus contratos futuros operando em valores negativos e a commodity zerando seu valor de mercado; e a Petrobras, praticamente a única fornecedora de nafta e gás natural (a partir dos quais, como dito, se produz os petroquímicos), anunciando prejuízo recorde de R$ 48,52 bilhões. A pandemia afetou todas as peças que compõem o segmento da Braskem: retraiu os mercados consumidores de petroquímicos (indústria automotiva, aeronáutica e consumidores de plásticos em geral) e afetou seriamente a maior fornecedora de matéria-prima da Braskem. Não à toa, os papeis da companhia desvalorizaram em torno de 75% entre janeiro e março de 2020 (de R$ 39 para R$ 10,07, no fechamento do pregão do dia 4/3), queda representada no gráfico abaixo.   

 

Fonte: Bloomberg.

 

Depois desse longo soluço, a companhia viu uma recuperação de aproximadamente 58% até maio, representada por quedas da exportação e importação chinesas abaixo do que era esperado pelo mercado, além da confiança passada pelo Morgan Stanley e UBS, que elevaram suas recomendações de investimento para “acima da média” e para “compra”, respectivamente. De acordo com os bancos, a empresa tem potencial para voltar às boas cotações anteriores, além da turbulência no mercado de petróleo ter levado à queda nos preços da nafta, o que favorece o segmento petroquímico. Além disso, a Braskem monopoliza a produção de petroquímicos de primeira geração no Brasil. Em 2012, a gigante alemã BASF, com atuação no Brasil, e a Braskem firmaram acordo para fornecimento de propeno e soda cáustica pela brasileira para a produção da alemã de ácido acrílico, acrilato de butila e polímeros superabsorventes (SAP) para o mercado brasileiro. 

 

Com relação à sustentabilidade e inovação, a Braskem se mostrou competente ao inaugurar, em 2010, sua planta de polietileno verde, produzido a partir da cana de açúcar, mitigando a emissão de CO2 se comparado ao processo convencional baseado em combustível fóssil. A companhia também implementou um protocolo de sustentabilidade para os fornecedores de etanol, que devem seguir princípios do desenvolvimento sustentável desde a plantação da cana até a produção do álcool. 

 

Fonte: Bloomberg.

 

 

QUÍMICOS DIVERSOS

A Unipar Carbocloro (B3:UNIP6) domina o mercado de cloro do país - a partir da compra da Solvay Indupa, empresa do grupo Solvay - e ocupa o segundo lugar na produção nacional de PVC. No mercado da soda cáustica (é a maior produtora), ela compartilha de um oligopólio junto com a Dow Química (não listada na B3) e a Braskem. Tal oligopólio é responsável pelo fornecimento de 90% do insumo para os processos industriais do país. A Unipar atua num mercado bastante regionalizado e que envolve produtos químicos controlados pelo Exército (o cloro é classificado como gás tóxico e oxidante), além de ser uma indústria de capital intensivo. Por esses fatores, a barreira de entrada é grande. A empresa explorou a oportunidade relacionada à distância ao comprar a Solvay Indupa, localizada em Santo André, concentrando a produção no sudeste do país. 

 

A empresa enfrentou bem a crise de 2015. Mesmo com a grave crise político-econômica brasileira – PIB retraído em 3,8%, recorde histórico; taxa de juros em 14% a.a, inflação acima dos 10% etc. – e o rebaixamento do país de “grau de investimento” para “grau especulativo”, a Unipar teve receita líquida 11% superior com relação a 2014; líquido lucro 34% superior a 2014; e EBITDA 29% superior a 2014. Em 2016, foi efetuada a compra da Solvay Indupa, dominando o mercado nacional de soda cáustica e se tornando uma das maiores fornecedoras da matéria-prima para a América do Sul. Em 2017, teve receita líquida consolidada superior a R$ 3 bilhões (com variação positiva de 11% da controladora em relação a 2016), variação do EBITDA de 193% em relação a 2016 (se descontada do cálculo do EBITDA de 2016 a compra vantajosa da Solvay Indupa) e dívida líquida/EBITDA (alavancagem financeira) de 0,70x. 

 

Com relação a 2019 (e comparando a 2018), o Brasil começou com sua lenta recuperação da economia, com o PIB crescendo a 1,1%, e a aprovação da reforma previdenciária em agosto aumentou as expectativas do mercado. No entanto, a guerra comercial entre China e EUA; a forte valorização do dólar, que atingiu alta histórica (à época) de R$ 4,26; e o desemprego que permaneceu acima dos 11%, desaceleraram a produção industrial. A produção de cloro recuou 22,4% e a de soda cáustica, 23,2%, ambas com relação a 2018. Os preços da soda e do PVC também recuaram no mercado internacional. Com isso, a receita líquida, em relação a 2018, recuou 12,1%; o EBITDA recuou 42,3%; e o lucro líquido, 68,5%. Em compensação, houve redução da dívida bruta em 34,1% e da dívida líquida em 2,1%. 

 

Em meio à pandemia da COVID-19, a empresa apresentou bons resultados se comparados a outras indústrias, em parte explicados pela operação normal de suas plantas industriais, uma vez que o cloro e seus derivados são usados para tratamento de água potável e desinfecção química de materiais e superfícies, fundamental para o combate ao vírus e algo rotineiro em hospitais, clínicas de saúde e residências. A empresa adotou uma série de ações para lidar com a crise de saúde pública. Como dito, as plantas continuam operando normalmente, mas com pessoal reduzido, regime de rodízio e home office, controle adequado de acesso às instalações fabris, captação de capital de giro para preservação do caixa e planejamento para contenção de custos. A empresa apresentou capacidade de produção superior em 7,1 pontos percentuais no 1T20 em relação a 4T19; EBITDA 36,9% inferior em relação ao 4T19 e 43,5% inferior em relação ao 1T19; receita líquida 0,7% superior em relação ao 4T19, e Prejuízo Líquido Consolidado de R$ 94,4 milhões, puxado, sobretudo, pela variação cambial, uma vez que a dívida da companhia é dolarizada.

 

 

CONCLUSÃO

A indústria química brasileira é fortemente concentrada em torno de poucas empresas líderes, com oligopólio no setor de químicos diversos e monopólio nos petroquímicos de primeira geração. Apesar do Brasil possuir a sexta maior indústria química do mundo, a falta de infraestrutura de transporte, o custo das matérias-primas e de energia, e o baixo investimento em pesquisa e desenvolvimento – posicionando o país como exportador de commodities de baixo valor agregado –, tornam a indústria deficitária. Não obstante, a barreira de entrada é grande e o país possui um líder mundial, a Braskem, que se mostrou resistente e ganhou certa confiança do mercado.

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