"> Editorial - Abril/2020

5 de Maio de 2020

Editorial - Abril/2020

Editorial - Abril/2020

 

Os efeitos diretos da crise do Coronavírus sobre a economia global passaram a se detectar de forma mais clara durante abril. Conforme um estudo divulgado pelo FMI durante o mês, as ações de estímulo dos Bancos Centrais mundo afora já superam os US$ 6 tri, além do próprio corte histórico nos níveis de juros em escala global, apontando a um cenário extremamente atípico. Renovando-se através da expansão de crédito, as bolsas como um todo experimentaram uma nova variação positiva, o que, porém, se deu sobretudo em retrospecto à queda acentuada do fim de março. Ademais, o petróleo também apresentou outro cenário de crise ao passo que a cotação futura para o WTI americano atingia preços negativos em meio ao excesso de oferta. Por outro lado, o cenário nacional conseguiu apresentar ainda destaques próprios, já dentro do campo político, em meio às demissões de dois importantes ministros. Desta forma, o mês encerrou com uma cotação cambial próxima à faixa dos R$ 5,50, contudo abril estreou os patamares de R$ 5,60, indicando, para além de um cenário global deturpado, baixas expectativas quanto ao cenário particularmente nacional como um todo.

 

Os resultados vindos da Europa mostraram assim o claro impacto do lockdown pela economia. Conforme divulgado pelo  Índice de Gerentes de Compras (PMI), que mede a atividade econômica dos países, registrou-se uma cifra de 13,5 pontos em relação à cotação composta, reforçando a forte queda já vista durante março (quando o índice apontou 29,7 pontos). Nota-se então a forte retração no setor de serviços, que apontou aos históricos 11,7 pontos durante o mês (ante 26,4 em março) e no setor industrial, com 18,4 pontos (ante 38,4 pontos no mês anterior), representando os piores resultados desde o fim do decênio de 1990 - vale dizer que o resultados menores do que 50,0 indicam retração na atividade comercial da região, ao passo que resultados superiores à cifra indicam expansão na atividade econômica. 

 

Nesse sentido, com uma taxa de desemprego ainda próxima de seu piso histórico, a Zona do Euro apresenta taxas que permanecem constantes nos últimos meses, aos 7,4% de desocupação. A inflação, por sua vez, passou de 0,7% para 0,4% durante abril, o que veio, porém, acima da expectativa de analistas, que apontavam a uma desaceleração para 0,2% na base anual, o que se dá, sobretudo, por um aumento dentro de produtos de consumo direto, como alimentos, álcool e tabaco. Por fim, O Produto Interno Bruto (PIB) da região registrou a maior contração já projetada em sua série histórica, retrocedendo em 3,8% durante o primeiro trimestre.

 

A atual situação do bloco, inclusive, representa bem uma tendência mundial, tanto no sentido dos indicadores produtivos quanto financeiros. Nesse quesito, registrou-se uma forte demanda por crédito em curto prazo, ao passo que, perdendo suas receitas, diversas empresas ainda têm de lidar com custos fixos produtivos. Já atuando nesse sentido, o Banco Central Europeu (BCE) tem reforçado sua flexibilização, o que tem se dado por uma política de subsídio ao setor bancário, política essa que consiste em baixíssimos níveis de juros, flexibilização na política de concessão de crédito (tal como visto no caso grego), venda de dívidas (chegando em março na cifra de 34 bilhões de euros, ante 12 bilhões em fevereiro) e, inclusive, incentivo à suspensão de pagamento dos dividendos e recompra de ações, buscando evitar uma nova crise de liquidez (poupando aproximadamente 30 bilhões de euros, segundo autoridades da instituição). De tal  modo, a ação do Banco Central tomou protagonismo durante o mês, enquanto no front político as ações de combate à pandemia foram bem difusas, entre algumas permanências do lockdown e tentativas de relaxamento, que em geral não têm surtido um efeito tão positivo quanto esperado. 

 

Em mesma sintonia, O PIB chinês também segue a apresentar um quadro alarmante. Com sua primeira queda desde o início da série histórica, em 1992, o primeiro trimestre deve representar um retrocesso de 6,8% do produto do país. Em resposta, o governo acentua sua política de estímulos, estendendo seu corte de compulsórios também para os pequenos e médios bancos de modo a liberar mais de 56,38 bilhões de dólares à economia, além ainda de reduzir taxas de empréstimo sobre algumas modalidades mais específicas, como a da reserva das instituições financeiras com o BC e a taxa de crédito de médio prazo direcionado, destinando valores que se aproximam à cifra de US$ 70 bilhões em crédito à economia. Desta forma, projeta-se que o segundo trimestre deverá trazer resultados um pouco mais otimistas ao país, sobretudo a partir de junho. Enquanto isso, o governo permanece a agir pesadamente sobre a economia, atingindo diretamente as áreas financeiras, como visto, mas também agindo através de auxílios diretos à população, além de investir em infraestrutura, saúde etc.  

 

Dentre os índices comerciais, a situação também parece ainda um tanto incerta. Com um recuo nas exportações de 6,6% durante março, segundo a própria Administração Geral de Alfândegas da China, o país permanece a sentir um maior isolamento em relação ao mundo, que para de consumir. O resultado se ilustra bem conforme o índice PMI industrial voltou a apresentar queda, passando de 50,1 para 49,9 - vale ressaltar que o índice havia apresentado uma forte melhora em março, mas indicava mais provavelmente uma possível estabilização na produção industrial do país do que uma melhora digna de comemorações. Paralelamente, registrou-se uma forte queda no consumo interno do país, conforme as vendas no varejo recuaram quase 16% em março.

 

Tendo sérias dificuldades para lidar com a pandemia, os Estados Unidos (EUA) têm apresentado mais de 1 milhão de casos confirmados de Covid-19, além de mais de 60 mil mortos, o que respalda diretamente sobre a economia do país. Nesse quesito, o PMI industrial do país passou de 48,5 em março para 36,1 em abril, encolhendo para até um patamar próximo ao visto na crise de 2008, ao passo que o setor de serviços recuou à margem de 27,0 pontos, ante 39,8 em março. As cifras ilustram bem a retração do PIB trimestral, que mostrou uma queda anualizada de 4,8% em relação aos três primeiros meses do ano, o também se manifestou pela taxa de desemprego, que fechou março próxima aos 4,4% (ante 3,5% em fevereiro), ao passo que projeções permanecem a indicar índices próximos a 9% para abril. 

 

De maneira semelhante ao resto do mundo, o país também tem se desdobrado sobre estímulos financeiros, o que se acentuou durante o mês. Nesse sentido, o Federal Reserve (Fed) anunciou novos pacotes de empréstimos, com cifras que podem atingir até US$ 2,3 tri em empréstimos para famílias e empregadores, atingindo sobretudo pequenas e médias empresas. Contudo, a compra indireta (através de alguns fundos) dos chamados high-yield, ou seja, títulos de alto risco projetada pelo Banco estadunidense acabou ganhando destaque durante o mês, representando umas postura excepcionalmente agressiva, mas que se justifica em meio à fuga para ativos mais seguros por parte dos investidores, fruto do próprio lockdown somado à crise do petróleo que se instalou durante o mês. 

 

Nesse sentido, o mês ainda registrou algumas das menores cotações de petróleo dos últimos 30 anos, refletindo ao que foi noticiado como a cotação de preço negativa do óleo bruto. Tal situação tornou-se mais evidente no próprio caso estadunidense, conforme houve uma forte queda na demanda por combustível (algo próximo a uma retração de 30% do consumo global), ao passo que, dado o problema de armazenamento do petróleo, que tem custos significativos para ser guardado, a dinâmica contratual de compra do combustível (que se dá por contratos futuros, ou seja, pagamento somente após o recebimento do produto), acabou por pressionar fortemente as cotações de contrato futuro para baixo, atingindo patamares negativos. Nesse sentido, o setor estadunidense acabou por sofrer sérios revezes, dado a maior volatilidade sofrida pelo WTI, contudo o próprio caso brasileiro também foi bastante afetado, ao passo que a Petrobras e a Petrorio também anunciaram cortes em sua extração.  Essa nova dinâmica estabelecida pode ser muito perigosa para as empresas de petróleo ao redor do mundo, principalmente para aquelas que não possuem um balanço robusto.

 

Por fim, o Brasil também segue a apresentar sua dose de risco. Fechando o mês de abril com aproximadamente 6000 vítimas fatais do coronavírus, o país apresenta índices alarmantes em relação à testagem e o número de infectados permanece a subir, o que indica que ainda não alcançamos um período de estabilização dos casos. Contudo os ruídos políticos tem se feito mais visíveis, ao passo que o governo não consegue apresentar uma coesão necessária à crise, o que implicou na substituição de dois ministros (da pasta da Saúde e Justiça), para além de críticas ao presidente Bolsonaro. Por outro lado, a cisão com os governadores permanece, impedindo uma articulação nacional mais ampla, ao passo que alguns estados, como São Paulo (epicentro da crise no país) já estipula prazos para reabertura comercial na primeira metade março, o que tende a trazer resultados preocupantes à economia do país em um futuro próximo.  

 

Já mais propriamente no front econômico, ressaltam-se as previsões baixistas para a atividade do país como um todo. Durante o mês o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou um relatório projetando uma retração de 5% do PIB brasileiro em 2020, o que, segundo o órgão, decorre de três principais fatores: a queda na demanda externa (setor exportador); a forte redução nos preços internacionais do petróleo; e as medidas de distanciamento social, que esfriam consideravelmente a economia do país. A principal consequência de tamanha queda no PIB se dará sobre a taxa de desemprego. Segundo o Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, essa taxa deve atingir cerca de 15,5% ao final do ano (durante março, o índice foi de aproximadamente 12,2%) e a massa de salários pode contrair perto de 12% em termos nominais (com a renda dos informais caindo 1,5% e a dos formais, próximo de 11%), já considerando o auxílio de R$ 600 do governo e o programa de auxílio desemprego.

 

Para além disso, os indicadores do país também demonstram uma situação preocupante. O IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor – Amplo 15), considerado uma prévia da inflação oficial (IPCA), ficou em -0,01% em abril, após fechar março em 0,02%, menor resultado para o mês desde o início do Plano Real, em julho de 1994. O resultado baixista foi  protagonizado sobretudo pelo setor de combustíveis, com uma retração total de 5,76% em abril, resultado de uma composição de 4,65% do óleo diesel; 5,41% da gasolina e 9,08% do etanol. Por outro lado, o setor de alimentos e bebidas manteve o destaque nas altas, com um avanço de 2,46% durante abril, repetindo a mesma dinâmica do mês anterior. No âmbito cambial, o real figurou entre as moedas mais desvalorizadas do globo, chegando à marca dos R$ 5,60 durante o mês, ao passo que as projeções ao fim do ano também se elevam, considerando patamares próximos aos R$ 4,80, ao passo que se reforçam expectativas para uma selic flertando com 2,25%. 

 

Por outro lado, o cenário de crédito no país parece mais sustentável, ao passo que, conforme o relatório do Banco Central projetando as condições de liquidez durante março, os banco brasileiros devem conseguir reagir positivamente contra os efeitos da crise, conseguindo realizar o financiamento para as grandes empresas até que o mercado interno se estabilize. Paralelamente a isso, a divulgação dos resultados fiscais referentes ao mês de março, embora tenha demonstrado desaceleração de receita, indicou que não houveram ainda impactos diretos causados pela crise, o que contudo é uma análise que deve mudar significativamente ao passo que os dados de abril sejam disponibilizados. Tal mudança, dentre outros fatores, se dá sobretudo em decorrência de um forte déficit do Setor Público, seja através dos repasses diretos às famílias e empresas ou da União para os estados, o que se soma a propostas tais como o chamado Plano Mansueto, além de outros possíveis programas de estímulo econômico do governo, como o Pró-Brasil.  

 

Em todo caso, as tensões políticas permanecem no radar durante maio. Com a projeção para o pico de contaminações apontando à metade do mês, o relaxamento do distanciamento social passa a ser visto com ainda mais insegurança pelos analistas, ao passo que as novas polêmicas envolvendo o governo e seus novos ex-aliados recolocam as incertezas políticas como importantes drivers negativos à economia, causando consequências diretas, como novas altas do dólar e mais a longo-prazo, como uma desaceleração econômica ainda mais acentuada.  

 

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