"> Editorial - Março/2020

3 de Abril de 2020

Editorial - Março/2020

Editorial - Março/2020

 

  Março trouxe consigo projeções e notícias bastante difíceis ao cenário econômico mundial. Com o desenvolvimento da crise do coronavírus e todo isolamento decorrente do processo, registrou-se uma das maiores disrupturas globais já vistas, ao passo que boa parte da atividade produtiva também sofreu seriamente. Nesse contexto, os países acumulam projeções mais reduzidas de PIB (quando não projeções de crescimento negativo) ao passo que os governos de todo o planeta adotaram política econômicas de vieses estimulantes em meio a ineficácia das ações individuais dos bancos centrais, o que se traduz em um forte endividamento global. Somado a isso, a questão do petróleo manteve investidores em estado de atenção conforme a Arábia Saudita ameaçava alavancar a produção em retaliação à Rússia. Já no cenário interno, os fracos resultados do começo do ano, somados a explosão do dólar e derretimento da bolsa, alimentam o clima de insegurança política  nacional, ao passo que o governo se mostrou incapaz de oferecer soluções aos desafios postos.

 

  A Europa tem ocupado os noticiários em decorrência da extensão da crise, vide como a Itália, Espanha e até mesmo França têm despontado no número de vítimas. Em meio ao surto, a União Europeia se desdobrou para conter a pandemia, realizando um profundo esforço para produzir estímulos econômicos que possam sustentar sua economia (bastante sensível à situação, dada a alta densidade da parcela idosa em sua população), Nesse sentido, o Banco Central Europeu (BCE) acrescentou 120 bilhões de euros ao seu atual programa de compra de ativos (de 20 bilhões mensais), expandindo também sua flexibilização monetária (que chega à base de 1,1 trilhões de euros), além ainda de cortar as taxas de empréstimos, permitindo uma linha de crédito que se expande a centenas e centenas de bilhões de euros destinados ao auxílio direto às pessoas e às empresas, o que se seguiu por outros diversos países do continente, tal como a Alemanha, França, Espanha, Reino Unido etc, que têm lançado mão de frações significativas de seu Produto Interno Bruto (PIB) como parte de pacotes econômicos.

 

  Como se pode esperar, apesar dos gastos, a economia europeia já mostra claros sinais de esfriamento. Para além de todos os desdobramentos usuais por trás da crise, ressalta-se ainda a forte integração regional presente no Velho-Mundo, que se dava em meio ao acordo de schengen, já não mais operante. Como resultado, o próprio BCE já reduziu as expectativas de crescimento do PIB ao ano para 0,8%, ao passo que algumas agências financeiras já prevêem crescimento negativo. Dentro do índice PMI, que mede o ânimo geral da economia, registrou-se as maiores quedas das últimas décadas para o mês de fevereiro, ao passo que, respectivamente, o setor de serviço e indústria projetaram 28,4 e 39,5 pontos, fazendo o índice composto registrar 31,4 pontos (menor resultado desde de julho de 1998) - nota-se que resultados abaixo de 50,0 pontos indicam retração. A inflação, por sua vez, sentiu poucos impactos ainda em fevereiro, arrefecendo-se a 1,2% (ante 1,4% em janeiro). Os resultados tendem a permanecer pouco animadores dado que o pânico geral deve permanecer crescente durante as próximas semanas e as empresas permanecem a encontrar barreiras à exportação.

 

  A China, e parte considerável do leste-asiático, parecem concentrar o que se mostra como o começo de uma melhora. Após expandir ainda mais seu pacote de estímulo econômico e iniciar um brutal processo que lockdown, o Dragão Asiático inicia uma retomada das atividades produtivas, o que, contudo, se dá sob um forte alerta de uma possível segunda onda dos surtos, fazendo com que o governo chinês redobre o monitoramento social. Nesse contexto, espera-se agora uma ampliação do setor público, algo que se traduz na injeção de trilhões de yuans chineses, destinados a crédito, gastos em infraestrutura e auxílio direto a famílias.

 

  Já nesse contexto, o PMI chinês apresentou uma forte alta durante o mês, passando de 35,7 em fevereiro, para 52,0 em março, sifra bem acima dos 45,0 pontos esperados por analistas. Contudo, vale notar que a forte expansão se dá também ao passo que contrasta a forte queda de fevereiro, representando mais propriamente uma estabilização do que um quadro de melhora. Para além disso, apesar de conseguir se recuperar antecipadamente, o Gigante Asiático se vê ainda em um cenário de maior isolamento internacional, no qual a demanda externa é altamente afetada, já considerando o fato, projeções ao produto chinês apontam agora a um avanço de 3% ao ano, ante projeções de 5% a 6% ao ano, o que se dava inclusive após a uma melhora de expectativas, fruto do início de acordo comercial com os americanos.

 

  Os EUA, por sua vez, também passaram a despontar como um foco de casos, ao ponto do número de mortes diárias no país superarem a China, evidenciando as falhas de seu sistema de saúde, ligando o sinais de alerta ao governo norte-americano. Nesse sentido, o Federal Reserve (Fed, espécie de Banco Central estadunidense), voltou a abrir mão das taxas de juros, reduzindo-as ao intervalo de 0-0,25%, o que se somou a uma compra de US$ 700 bilhões em compra de ativos. Para além disso, o Congresso aprovou ainda um pacote de estímulos de US$ 2 trilhões, atingindo empresas e famílias, sifra que materializa aproximadamente 10% de seu PIB em estímulos. As medidas mostram agora a clara preocupação do governo com o vírus, que se traduziu inclusive na mudança de postura de Donald Trump, que, em declaração nacional, admitiu que melhoras no quadro só devem ocorrer no segundo semestre, de modo a inclusive estender o período de quarentena ao final de abril. Apesar dos estímulos, as projeções ao PIB estadunidense também indicam recessão, o que se caracteriza por previsões de crescimento negativo de até 1,8% ao ano.

 

  Os resultados se explicam bem a partir dos indicadores do país. Apesar de ter apresentado um avanço na produção industrial durante fevereiro, que se expandiu em 0,6% após uma retração de 0,5% em janeiro, não se estipulou sobre qualquer melhora, uma vez que os resultados pouco, ou nada, mostraram da interferência do vírus na economia. Por outro lado, o número de pedidos de seguro desemprego retrata mais fielmente o atual cenário dado que, conforme se viu, somente as duas últimas semanas de março representaram uma soma próxima a 10 milhões de novos pedidos de auxílio (em especial na última semana, que registrou sozinha 6,65 milhões de solicitações), o que pode fazer a taxa de desemprego saltar de 3,5% em fevereiro, para aproximadamente 10% em março. A sifra torna-se ainda mais gritante quando considerado que, no ápice da crise de 1982, último recorde de pedidos semanais, registraram-se “apenas” 690 mil novos desempregados. 

 

  Ao se observar a bolsa estadunidense, viu-se resultados parecidos. Em uma comparação trimestral, tendo seu pior período da história, o índice Dow Jones (composição das 30 maiores empresas do país) retraiu-se em 23,2%, ao passo que a S&P 500 (composição dos 500 principais ativos da bolsa americana) obteve uma queda de 20% e a NASDAQ (caracterizada por reunir empresas do ramo tecnológico) se viu sob uma queda de 14,3%.Também com não poucos circuit breakers, o cenário financeiro foi de caos por todo o mês, o que se refletiu nos mais diversos setores da economia.

 

  Vale ainda explicitar a dinâmica do petróleo durante o mês. A nível de parâmetro, registrou-se que somente em março o West Texas Intermediate crude (WTI), referência do preço de petróleo norte-americano, sofreu uma queda de 54,2%, o que naturalmente se repetiu, em certas proporções, por outras principais bandeiras petrolíferas pelo mundo. Nota-se que, para além da queda de demanda proporcionada pelo Covid-19, destacamos a guerra de preços entre Rússia e Arábia Saudita após discordância sobre o volume produzido (o que, naturalmente, afetou também os preços nacionais). O problema se agravou conforme a oferta de combustível se expandia e as economias no mundo se fecharam, seja pela criação de barreiras ao combate ao vírus, seja pela queda brusca de demanda, dado o arrefecimento das atividades produtivas. De tal modo, os preços do combustível despencaram, sobretudo na segunda metade do mês.

 

  Já nesse sentido, podemos nos direcionar ao cenário nacional, o qual passa a sentir já em seu índice inflacionário o esfriamento da atividade econômica, o que se acentuou justamente no setor de combustíveis. Conforme o IBGE divulgou ao fim do mês, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), medindo a prévia da inflação oficial, registrou uma cifra de 0,02% em março, menor resultado desde o início do Plano Real (1994).

 

  Ressalta-se assim a contribuição do preço das passagens aéreas (-0,11%); gasolina (-1,18%); etanol (-1,06%) e diesel (-1,95%), ao passo que a demanda por combustível retraiu-se aproximadamente em 50% durante o mês, influenciando inclusive no grupo Transportes (-0,80%) - nota-se que este é o grupo com maior peso no consumo das famílias, apresentando deflação. O impacto no consumo afetou diretamente as empresas do setor, o que se viu muito claramente pela BR Distribuidora e Raízen, que declararam motivos de força maior para o cancelamento de contratos referentes às compras de etanol junto aos seus fornecedores. Por outro lado, o setor de alimentos e de saúde exerceram pressão positiva sobre a inflação, o que se pode destacar sobretudo no caso dos alimentos, dado que  compõem o segundo setor mais importante na composição do índice, registrando assim um avanço de 0,35%, enunciando possíveis mudanças nas cestas de consumo das famílias.

 

  Seguindo uma tendência mundial, o Banco Central (BC) também reduziu a taxa de juros, pondo a Selic em 3,75% a.a., nível historicamente baixo, compondo já parte de um pacote conjunto ao governo federal para estimular a economia. Nesse sentido, O BC ainda anunciou um programa de R$ 1,2 trilhões para injetar liquidez na economia através da compra de pacotes de empréstimos bancários, buscando injeção de crédito, fornecendo auxílio direto a diversas empresas. Paralelamente,  Bolsonaro por fim sancionou o chamado “coronavoucher”, programa de auxílio financeiro direto às famílias, tal como uma ampliação no Benefício de Prestação Continuada (BPC) em R$ 20 bilhões, totalizando, ao todo, um custo de R$ 98 bilhões dos cofres públicos, atingindo aproximadamente 54 milhões de pessoas, segundo o governo. As projeções à taxa, contudo, apontam ainda espaço para novos cortes, conforme o próprio Boletim Focus apontou a uma taxa de até 3,50% a.a.

 

  O desenvolvimento econômico futuro do país agora entra em questão. Abrindo o ano com o chamado “pibinho”, novas, e pouco animadoras, projeções de atividade passam a mostrar um cenário cada vez menos otimista. Nesse sentido, podemos indicar a atividade doméstica, que retraiu de 2,2% a 0%; a variação do setor industrial, que passou de 2,9% a -0,5%; a atividade da indústria de transformação, passando de 2,1% a -1,3%; a atividade do comércio, que foi de 2,6 a -0,77%; o consumo das famílias, reduzindo-se de 2,3% a 0,8% e assim por diante. Em meio a tudo isso, a própria projeção do PIB também entra em questão, ao ponto do próprio Boletim Focus anunciar um recuo a -0,48% ao ano (ante 1,48% prospectados ao início do ano), projeção que, porém, chega até a casa de -3,3% segunda algumas análises de bancos. 

 

  Nesse sentido, passa-se a estipular uma Selic de até 1,5% ao fim do ano, resultado  que põe em xeque a eficácia das políticas monetárias. Vale notar que o juros baixo (ou até mesmo negativo) não é uma exclusividade brasileira, contudo, a política, que teoricamente deveria estimular a economia, se mostra ineficiente no cenário nacional, ao passo que pressiona a taxa cambial, que, em meio a crise, tem atingido diversas máximas históricas, superando a marca dos R$ 5,30 durante o mês. O problema tende a se prolongar ao passo que, mesmo com um aumento de liquidez e diminuição dos compulsórios (passando de 25% a 17%), os bancos reduzem seu viés de empréstimo, dado o clima extremamente inseguro da economia. Para além disso, o país (assim como o mundo), passa a sentir também um choque na oferta de produtos, o que se estende inclusive para insumos fora do setor de saúde. 

 

  Seguindo a receita pregada pelo resto do mundo, uma injeção monetária direta na população se mostra a alternativa mais evidente, retardando os efeitos no consumo e no desemprego. A equipe econômica do governo busca agora conciliar sua política de austeridade com a necessidade de novos gastos, tarefa que tem se provado um tanto complexa, o que, somado a postura de Bolsonaro, de ataque ao congresso e negação da crise, tem alimentado o clima de insegurança política, que se materializa no isolamento do governo, a perder aliados. Apesar das previsões mais pessimistas, resta ainda saber como os estímulos prestado poderão afetar a economia, o que pode oferecer perspectivas futuras mais desejáveis conforme as empresas consigam manter os empregos e o consumo mantenha-se forte, contudo o agravamento dos casos de infecção podem estender o período de quarentena, afetando ainda mais a atividade produtiva e seus setores no país, exigindo novos pacotes de auxílio. 

 

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