"> Editorial - Fevereiro/2020

6 de Março de 2020

Editorial - Fevereiro/2020

Editorial - Fevereiro/2020

 

 O mês de fevereiro tem seguido a receita de 2020, ou seja, um cenário de bastante instabilidade global, que, em grande medida, tem influenciado o contexto nacional. Após janeiro testar os nervos do mercado quanto a um possível confronto militar entre os Estados Unidos e o Irã, alterando bruscamente o preço do petróleo, passamos a ouvir os primeiros rumores acerca do coronavírus na China, ao passo que, de forma bastante rápida, todo o mercado global foi contaminado pelo medo do vírus, tornando-se refém dos noticiários. Entre alívios e sustos, o mês ainda foi composto pelo início de uma nova etapa dentro do Brexit; posicionamento do governo chinês quanto medidas de contenção (da crise econômica e sanitária); acirramento da disputa eleitoral nos EUA e teor adotado pelo governo federal quanto à alta do dólar. Apesar do carnaval, o segundo mês do ano foi bastante cheio e volátil, apresentando um cenário financeiro menos otimista do que o projetado ao fim de 2019. 

 

 Vale ressaltar como, em uma dinâmica global, houve certo sentimento de alívio quanto a evolução do vírus chinês no início do mês, conforme a quantidade de novos casos pareceu diminuir. O sentimento, porém, foi prontamente revertido em sua segunda metade, quando o governo comunista alterou a metodologia de exame, revelando um quadro de contaminação bem mais preocupante do que o constatado até então, gerando um forte mal-estar no mercado. 

 

 Se o Velho Mundo passou o mês com suas (já velhas) questões políticas postas em cheque, apresentou resultados econômicos bastante importantes que puderam, ao menos no início do mês, representar sinais bastante promissores. Nesse sentido, viu-se como o Índice de Gerentes de Compras (PMI), indicador de atividade econômica, da Zona do Euro mostrou um resultado composto de 51,6 (ante 51,3), configurando um avanço considerável. Quanto às principais economias do bloco, ressalta-se certo avanço no índice composto francês, de 51,1 em janeiro para 51,9 em fevereiro (apesar de uma retração no setor manufatureiro, com 49,0 no mês) e o caso alemão, que apresentou uma pequena queda, passando de 51,2 para 51,1, mas manteve uma ascendência importante no setor industrial (47,8) - nota-se que cifras abaixo de 50,0 indicam retração. Os dados indicados pelo PMI, porém acabariam por ser contaminados após a divulgação da produção industrial e exportação alemã durante dezembro, representando, respectivamente, uma baixa mensal de 3,5% e uma alta de 0,1%, resultados bem abaixo do esperado.

 

 Para além disso, despontaram-se melhoras nos resultados na Zona do Euro quanto a confiança dos setores corporativos e dos consumidores, ambos em ascensão, surpreendendo alguns analistas, que previam baixas. A inflação, por sua vez, manteve-se na média do esperado, subindo, na comparação anual de janeiro, em 1,4%, ganhando força com o aumento de 1,3% de dezembro, mas ainda longe da meta do Banco Central Europeu, que busca uma taxa próxima aos 2%. Já a atualização da taxa de desemprego, calculada ao mês de novembro de 2019, registrou a cifra de 6,3%, representando uma cotação estável quanto a outubro e uma melhora de 0,3% na comparação anual. 

 

 O cenário político, por sua vez, tem se pautado ainda em relação ao Brexit. Dessa vez, passa-se a discutir, na Europa e no outro lado da mancha formas de ocupar o vácuo comercial aberto, se inicia assim uma corrida para estabilizar as relações comerciais até o fim do ano, quando os 11 meses de período de transição estabelecidos no acordo se encerram. Destaca-se assim a aproximação do Reino Unido com o Brasil (e com o Mercosul como um todo), ilustrando já parte das pretensões de Boris Johnson, premiê britânico, de, conforme anunciou, ter 80% das trocas comerciais cobertas por acordos de livre-comércio nos próximos três anos. Ressalta-se, porém possíveis novos atritos entre o país e o bloco quanto a “questão das Irlandas”, que, insatisfeitas em meio aos transtornos que um novo tipo de barreira pode causar, já começam a discutir o início de um processo de união, o que se soma às próprias trocações de farpas entre o premiê e o bloco europeu, ao que demonstra, Johnson não pretende trazer negociações fáceis, ao passo que o bloco também não se mostra disposto a ceder, dando razão a novos movimentos separatistas. 

 

 Ressalta-se, por fim, mais uma vez a questão vírus, sobretudo, pois a Europa já figura como continente mais afetado após a Ásia, com mais de 800 casos registrados somente na Itália, somado ainda a registros na Alemanha, França, Holanda, etc.

 

 A China, como se pode imaginar, tem passado por um mês complicado quanto a (até então) epidemia que afeta o país. Apesar do governo, ao visto, ter atuado rapidamente, buscando isolar Hubei, epicentro da crise, e as províncias próximas, o país já registra quase 80 mil infectados (com 2.870 óbitos). Estimam-se assim consequências mais a médio-longo prazo na economia chinesa - vide como a projeção do FMI refez sua taxa de crescimento para 5,6% em 2020, 0,4 ponto a menos do que as estimativas de janeiro -, ao passo que o Ano-Novo Lunar, uma de suas maiores datas comemorativas, foi criticamente afetado, derrubando o consumo interno. Para além disso, o feriado foi também estendido, o que vem em um momento no qual o governo chinês tem decretado o fechamento de diversas indústrias pelo país, diminuindo suas atividades econômicas, algo que, dentro de uma lógica de cadeias globais de valor, afeta diversos outros países. Vê-se assim grandes empresas como a Apple anunciando também um fechamento de portas temporário, afetando ainda mais o cenário global, seja pela produção dentro da China, seja na redução do consumo que a crise representa. 

 

 De tal modo, os dados econômicos registrados no país foram também bastante marcados pela questão que se alonga há mais de um mês. Nesse sentido, a China registrou sua maior contração na atividade industrial desde o início do período de registro, com seu PMI atingindo um recorde baixista de 35,7 pontos em fevereiro (ante 50,0 em janeiro), ao passo que seu setor de serviços recuou para 29,6 (ante 54,1 em janeiro). 

 

 O governo chinês tem assim se prontificado a seguir sua já costumeira receita, prestando estímulos em sua economia como forma de reverter, ou ao menos diminuir, os efeitos da crise. Nesse sentido, o Dragão Asiático anunciou novos suportes às empresas afetadas por uma queda nas atividades, ampliando a fórmula de janeiro, quando  os bancos do país concederam 3,34 trilhões de yuans (US$ 477,3 bilhões) em empréstimos, ao passo que o financiamento social somou 5,07 trilhões de yuans (US$ 724,8 bilhões) durante o mês, resultados ambos inéditos no país. Para além disso, o BC chinês anunciou também uma redução na taxa de empréstimos de um ano de 4,15% em janeiro para 4,05% em fevereiro. Tais mudanças vêm de modo estrutural ao passo que o Gigante Asiático anunciava, já no começo de janeiro, uma redução no compulsório dos bancos, liberando US$ 115 bilhões na economia. Para além disso, representantes do governo ainda falaram da redução de impostos corporativos e reduções de gastos desnecessários ao governo.

 

 Já do outro lado do Pacífico, nos EUA, sem muito tempo para celebrar a assinatura da primeira fase do acordo comercial entre seu país e a China, após uma batalha comercial de 18 meses, o governo Trump passa a se desdobrar em função de novos desafios e ao que se mostra, mais do que o Irã, o cenário interno (junto do coronavírus) já tem ocupado bastante tempo dentre as cabeças do governo. Em uma posição confortável no Senado, com maioria de 53 a 47, Trump foi, conforme esperado, absolvido de suas acusações no processo de Impeachment, decorrente de sua suposta troca de favores com Volodymyr Zelenski, presidente da Ucrânia. Ao fim, o processo foi pouco danoso a Trump, que finaliza seus preparos à corrida eleitoral. A grande questão agora é saber quem será seu adversário, resposta que repousa sobre dois principais nomes: Bernie Sanders (atualmente liderando a corrida dentro do partido Democrata), o dito “candidato socialista” com propostas de forte cunho assistencialista, e Joe Biden, ex-vice de Obama, candidato mais ao centro e mais plausível às bases conservadores do país. Vale notar que as eleições ocorrerão no início de novembro. 

 

 Para além disso, já nas questões econômicas, o mês representou conquistas importantes à bolsa estadunidense, ainda que em meio a um cenário conturbado. Em aos alívios (temporários) de uma contenção da crise chinesa, os índices S&P 500 e Nasdaq fecharam em novas máximas no meio do mês, chegando, respectivamente, a cifras próximas de 3.360 e 9.640 pontos. Ademais, Jerome Powell, chairman do Federal Reserve, deu seu primeiro depoimento ao Congresso estadunidense ao início do mês, demonstrando certo otimismo à economia, mas apontando certos riscos quanto a produtividade, o que, contudo, não fomentaria motivos suficientes para uma alteração na taxa de juros, que atualmente se mantém entre 1,5% e 1,75% - visão que se corrobora à taxa inflacionária de 2019, com 1,6%, resultado abaixo da meta dos 2%, contudo ainda confortável ao banco central americano. 

 

 Ainda nesse sentido, registrou-se certa piora (marginal) dentre alguns dos dados macroeconômicos do país. Dentre os levantamentos mais esperados, o índice de desemprego apontou a uma criação de 225 mil postos de trabalho no país durante janeiro, resultado que elevou a taxa de desemprego para 3,6%, um pouco acima dos 3,5% de dezembro, contudo o resultado tem sido lido como um efeito propriamente casual e não como uma tendência de alta (ressalta-se como o país tem lidado com níveis historicamente baixos de desemprego nos últimos meses). O mesmo ocorreu na inflação americana, com um avanço benigno o Índice de Gastos com Consumo Pessoal (PCE, na sigla em inglês), avançou 0,1% em janeiro  (ante um avanço de 0,3% em dezembro). Por fim, pode-se destacar o forte avanço na atividade industrial do país, que, conforme o Índice de Atividade Industrial do Instituto para Gestão de Oferta (ISM, na sigla em inglês) passou de 47,8 pontos, para 50,9, refletindo uma melhora nas perspectivas comerciais após o acordo com a China. 

 

 Descendo mais ao sul na América, no Brasil, vimos também um mês bastante atípico, marcado por resultados econômicos que frustraram a economia. Ressalta-se então o novo corte de 25 pontos base dentro da taxa selic, que agora figura em 4,25%, o que, porém, veio com uma forte ressalva do BC, indicando o início de uma suspensão do atual ciclo de flexibilização monetária. Conforme o banco argumentou, entendeu-se que um viés de recuperação econômica, ainda que modesto, foi atingido, ao passo que teme-se uma possível escalada inflacionária, nota-se, porém, que o comentário considerava ainda uma taxa cambial constante a  R$ 4,25/US$, cifra que tem apresentado ligeiras alterações nas últimas semanas. Já dentro do cenário inflacionário, tivemos os resultados de janeiro com um IPCA em baixa quanto às expectativas do mercado, abrindo um avanço de 0,21%, configurando um cenário no qual as exportações de produtos no setor de Carnes e Higiene pessoal foram menos expressivos do que o esperado. Os resultados acerca da atividade industrial em dezembro também foram aquém da expectativa do mercado, com um retração de 0,7% em dezembro - resultado que se dá, em destaque, para os fracos resultados da indústria de bens de capital (-8.8%), bens de consumo durável (-2,7%) e construção civil (-2,2%)         

 

 Por outro lado, em resposta ao cenário de alta instabilidade externa e declarações do governo, o mês ainda foi marcado por um um dólar explosivo, a quebrar recordes (chegando a bater R$ 4,51 em sua máxima), em contraposição a quedas significativas da bolsa. Com forte tendências externas que se acentuam na expectativa de um novo corte na taxa de juros estadunidense, conforme Powell manifestou ao fim do mês a possibilidade de redução dado os riscos que o vírus pode levar à economia, o dólar atingiu um novo pico durante o mês. Em maio a esse cenário, o BC tem buscado reduzir a taxa através de contratos de swap cambial e operações em linha, somando montantes, respectivamente, de US$ 1 bilhão e US$ 3 bilhões, o que, contudo, tem se dificultado após falas de representantes do governo. Conforme manifestou polemicamente Paulo Guedes ao início do mês: "É melhor termos juros a 4% e câmbio a R$ 4,00, do que câmbio a R$ 1,80 e juros de 14%, nas alturas", repetiu. "O câmbio não está nervoso, mudou para R$ 4,00. O modelo não é juros na lua e câmbio baixo, desindustrializando o Brasil". O Ibovespa, por sua vez, chegou a flertar com os 100 mil pontos ao fim do mês, configurando perdas às empresas que compõe o índice de mais de R$ 350 bilhões em valor de mercado, demonstrando uma forte fuga a ativos mais seguros.

 

 O cenário brasileiro, salvo das fortes alterações dentro do mercado financeiro, parece continuar estável. O desemprego permaneceu assim a demonstrar uma redução durante janeiro, apresentando um índice trimestral na casa dos 11,2%, com um recuo de, respectivamente 0,8% e 0,4% comparação anual e trimestral. O resultado, porém, se dá em parte pelo aumento dos chamados desalentados, pessoas que desistiram de procurar empregos, que avançou 1,3%, resultado preocupante, sobretudo, pois esse grupo tende a representar uma resistência para voltar ao mercado de trabalho mesmo em períodos economicamente ativos. Para além disso, ressalta-se um recuo da informalidade, que agora atinge 40,7% da população ocupada, o que, porém, não alterou o rendimento médio brasileiro, ainda em R$ 2.361 no trimestre encerrado em janeiro. 

 

 De tal modo, possíveis avanços do coronavírus podem voltar a tomar os noticiários, o que pode reaquecer a subida do dólar e queda no índice brasileiro. Para além disso, mantém-se a atenção nas primárias estadunidenses e no andamento do acordo comercial do país com a China, que deve permanecer a se desdobrar para reatar a confiança do mercado em sua capacidade de contornar a crise vivida. 




 

Um artigo por Welker Abner de Oliveira

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