"> Editorial - Novembro/2019

10 de Dezembro de 2019

Editorial - Novembro/2019

O cenário para a economia brasileira começa a ganhar momentum em alguns fronts específicos, com a aparente recuperação que começa a se moldar na economia em geral. Apesar de que ainda há um longo caminho a ser percorrido, os últimos meses mostraram que o pior da recessão econômica já passou e as reformas, principais focos de tensão e risco aos quais se atentavam os agentes do mercado financeiro, também tiveram êxito. Claramente ainda é cedo para se comemorar, mas a melhora nas projeções fiscais para o futuro, juntamente com a inflação comportada, mesmo com uma taxa de juros no piso histórico, e um setor de serviços que continua a exibir números positivos são os destaques para o agregado do ano.

Quanto à questão fiscal, apesar de a reforma previdenciária ter lidado com o maior risco para o orçamento nos próximos anos, ainda há um longo caminho para que o país volte ao azul no que diz respeito à geração de superávits. De acordo com o relatório divulgado pela Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, ainda há um quadro fiscal insustentável para o desenvolvimento de longo prazo da economia brasileira, com uma dívida pública fazendo pico em 2024, ao alcançar 80,7%, de acordo com o cenário base projetado. No cenário pessimista, a dívida poderia alcançar os 96,4% do PIB em 2030. Ainda na comparação de cenários, a IFI aponta na sua visão básica que o superávit primário só poderia voltar a ser alcançado em 2023, enquanto que na visão mais pessimista o superávit primário só voltaria a ocorrer em 2026. Mesmo assim, a instituição reconhece os avanços feitos durante o ano pelo Governo Federal para limitar o crescimento do setor público, com as projeções de déficit primário do setor público para 2019 sendo rebaixadas de R$ 132 bilhões para R$ 86,3 bilhões. Quanto ao próximo ano, a projeção de déficit primário caiu de R$ 139 bilhões para R$ 95,8 bilhões. Josué Pellegrini, diretor da IFI atribui essa melhora nas perspectivas aos leilões de excedentes do pré-sal da cessão onerosa, porém a estabilização no crescimento das despesas públicas também vêm corroborando para essa tendência. De fato, o caminho escolhido pelo Governo Federal é muito mais ligado ao investimento privado, tirando o Estado brasileiro do papel de motor do crescimento econômico, o que, apesar de reduzir o ritmo de recuperação do PIB, deverá trazer um crescimento mais “orgânico” no longo prazo assim como um quadro fiscal mais comportado.

Já a inflação brasileira, foco de atenção dos consumidores nas últimas semanas devido à disparada dos preços das carnes, ainda se mantém em patamares muito abaixo da meta estipulada pelo Banco Central, apesar do choque nos preços alimentícios. O IPCA mostrou uma alta de 0,51% em novembro, devido, principalmente aos avanços nos preços de alimentos e energia elétrica. O fenômeno da alta dos preços da carne é explicado pelo rombo que a gripe suína africana deixou na demanda chinesa por carne. Desde o início da epidemia, o país já abateu mais de 40% do seu rebanho de suínos e diante disso as importações de carne vêm subindo bruscamente, para compensar a falta de porcos no país. Nos indicadores inflacionários chineses, o preço da carne de porco já subiu 110%. O evento foi maximizado pela alta no dólar que, apesar de ter exibido um pass-trough limitado durante o decorrer do ano, mostrou um impacto muito grande ao dar um incentivo maior para os produtores exportarem a carne produzida a invés de disponibilizar no mercado interno, agravando mais ainda a alta dos preços. Apesar de o mês de novembro ter registrado o pior desempenho do IPCA desde 2015, o acumulado dos últimos 12 meses ainda se mantém em um patamar baixo, de 3,27%. A meta do Banco Central é de uma inflação de 4,25% ao ano.

Com a inflação brasileira em um patamar ainda baixo, apesar dos choques no âmbito alimentício, não enxergamos grandes riscos para o corte na taxa de juros na reunião do COPOM de dezembro. Com isso, esperamos que a Selic deva encerrar o ano a 4,5%. Apesar de o crescimento econômico brasileiro vir apresentando uma melhora perceptível, com o IBC-Br acumulando alta de 0,99% e com dados na indústria (+0,8%) e dos serviços (+1,2%) sugerindo que a economia esteja crescendo a um ritmo maior do que 1% ao ano, a inflação ainda se encontra comportada e o desemprego se mantém alto. O desemprego, por característica, tem uma dinâmica de recuperação mais lenta, sendo muito dependente da confiança do empresariado na economia e também do grau de qualificação da mão-de-obra. Já abordamos em relatórios passados que o momento pelo qual o Brasil passou durante os últimos anos, com muitas pessoas permanecendo por longos períodos afastado da força de trabalho, gera uma destruição na qualificação dos trabalhadores devido, principalmente, às mudanças no mercado e à consequente obsolescência das habilidades desses trabalhadores. Com isso, o ritmo de contratações sofre uma redução adicional à já esperada lenta retomada da confiança empresarial. O padrão de renda ainda limitado da população é o principal fator de que limita o crescimento da inflação do país, dando margem para cortes adicionais na taxa Selic, na fronteira da atuação do BC para a geração de emprego. A solução para o problema de qualificação passaria para um lado mais ligado a políticas públicas do que política monetária, porém, dado a postura mais ortodoxa da equipe econômica do Governo Bolsonaro, esperamos que esse problema será resolvido em um prazo mais longo e sem uma intervenção muito forte do Estado.

Para o cenário europeu, os principais eventos que chamaram a atenção nas últimas semanas foi a estreia de Christine Lagarde no comando do Banco Central Europeu (BCE) e o fraco desempenho das economias do Velho Continente.

Quanto a Lagarde, o principal desafio da nova presidente do BCE é a tentativa de tirar a União Europeia da estagnação econômica pelo qual vem passando desde a Crise de 2008. Ao final de seu mandato à frente da autoridade monetária europeia, Mario Draghi ressaltou que a sua sucessora deveria se manter atenta à fixação de taxas de juros e fiscalização dos grandes bancos do bloco, uma possível às dificuldades pelas quais vem passando o Deutsche Bank, maior banco da Alemanha. Porém, Lagarde tem uma tarefa muito mais importante, que circula sobre a recuperação econômica do bloco: salvar o Euro. Com uma década marcada por estagnação econômica e crises fiscais chegando ao fim, muitos economistas apontam o Euro como um “projeto inacabado” para o Velho Mundo e incapaz de solucionar os problemas das nações ali inseridas. De fato, isso pode ser observado justamente pela atuação do BCE nos últimos anos, utilizando a política monetária ao máximo para tentar estimular a demanda, tendo em vista as taxa de juros negativas, sem contar com o apoio da política fiscal dos governos do bloco. Isso ocorre, principalmente, devido às diferenças fundamentais entre as estruturas econômicas dos países.

Quanto aos dados econômicos, a indústria da Zona do Euro se mantém em um patamar de retração/estagnação. O PMI da manufatura europeia mostrou resultado de 45,9 pontos para o Reino Unido, figurando o nono mês consecutivo de retração. Ainda no campo da retração tivemos a Alemanha com 42,1 pontos. Quanto a economias estagnadas, a França é a principal, com seu setor industrial registrando 50,7 pontos. Quanto aos dados de setor de serviços, a Zona do Euro mostrou desaceleração, com o PMI ficando em 51,9 pontos. Pelo lado do crescimento, quase todos os índices PMI mostraram melhora nas comparações com os meses anteriores, o que sugere que o pior da recessão já passou, porém, dados como o CPI e o desemprego mostram que essa interpretação não é tão óbvia assim. O CPI registrou uma alta de 0,1% em outubro, o que gera um resultado acumulado de 0,7% nos últimos 12 meses, ainda muito distante das projeções do bloco para o indicador, que apontam para uma inflação anual de 1,2% a.a. Quanto ao desemprego, o viés segue de baixa mas ainda em padrões elevados, atingindo os 7,5%. O FMI recomendou aos países da Zona do Euro que preparem pacotes fiscais emergenciais para remediar a situação atual, tendo em vista que a política monetária já não é mais eficiente. Por um lado, já existe um esforço de autoridade monetárias nacionais em reduzir os déficit dos países do bloco, indicando uma política fiscal mais controlada. Porém, vemos qualquer grande mudança nos rumos da Europa como improváveis de ocorrerem por meio de mudanças fiscais, devido ao já mencionado, conflito de interesses dos diferentes países da Zona do Euro. Vemos que a economia da região é muito mais dependente de uma mudança na direção dos ventos protecionistas, que vêm ditando as regras na economia mundial, este evento que é muito mais provável do que uma resposta fiscal sincronizada dos governantes europeus.

Enquanto isso, os Estados Unidos continuam a exibir uma desaceleração no seu ritmo de crescimento econômico, porém se distanciando dos riscos recessivos ao mostrar um mercado de trabalho aquecido e inflação responsiva. Com isso, o presidente do Fed, Jerome Powell, afirmou que o ciclo de cortes nas taxas de juros do FOMC não deverá continuar. De maneira similar ao que ocorre na UE, o Powell afirmou que no caso que uma forte desaceleração ocorrer nos Estados Unidos, as autoridades deverão estar preparadas para combate-la utilizando política fiscal. O presidente do Fed de Chicago, Charles Evans, manifestou uma opinião um pouco divergente de Powell, ao afirmar que o patamar atual das taxas de juros não seria suficiente para amortecer possíveis choques futuros. Não temos dúvidas que, caso choques futuros atinjam a economia americana, o Fed agirá com um ajuste nas taxas de juros, porém a eficácia da política monetária para fomentar o crescimento vem caindo nos últimos anos tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. A principal questão é a possibilidade de uma saída através de renovações da política fiscal. Atualmente os Estados Unidos já possuem uma dívida pública altíssima, que não para de crescer, o que poderia se tornar um empecilho para remediações de crises futuras.

Quanto ao desenvolvimento da economia americana, o padrão de desaceleração continua, influenciado principalmente pelos temores acerca da guerra comercial, que já se arrasta há 17 meses. Com isso os pedidos de bens industriais aumentaram em 0,3% no mês de outubro, o que não reverteu a tendência de queda, com a comparação anual exibindo uma queda de 0,4%. Além disso, a atividade fabril voltou a recuar n país, com o PMI ISM de novembro resultando em 48,1 pontos, 0,2 pontos abaixo do registrado em outubro e mostrando uma intensificação no ritmo de contração do setor secundário.

No setor terciário, o desempenho da economia ainda está satisfatório, mantendo o padrão observado durante todo o ano. Pelo lado da demanda, as vendas no varejo exibiram uma alta de 0,4% em outubro, enquanto são esperados dados sólidos do setor para novembro, tendo em vista o feriado de Thanksgiving, Black Friday e a Cyber Monday. Já sabemos que as vendas online nesses 3 dias registraram um recorde de 11,6 bilhões de dólares. Quanto à inflação, o mês de outubro mostrou que os preços ao consumidor se recuperaram mais do que o esperado, mostrando uma aceleração no núcleo da inflação. O CPI mostrou um aumento de 0,4%, batendo a marca de 1,8% na comparação anual, sendo o aumento de 2,7% nos preços de energia um dos principais influenciadores para essa aceleração. Já considerando o CPI core, houve uma alta de 2,3% em termos anualizados, sendo os preços de automóveis usados (1,3%) e os custos de saúde (1%) os principais catalisadores. A inflação crescente dá sustentação à expectativa de manutenção da taxa de juros por parte do Fed na próxima reunião. 

Quanto ao setor primário, as condições frias e úmidas da temporada de grãos fizeram com que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) reduzisse as projeções para as safras de milho e soja para 13,66 bilhões de bushels e 3,55 bilhões de bushels, respectivamente. Assim, esperamos uma apreciação nos contratos desses grãos para as próximas semanas na CBOT, o que incentivaria uma maior exportação americana. Nesse âmbito de concorrência mor mercado internacionais, a exportação de milho dos EUA encontra-se ameaçada pela concorrência brasileira. Devido a uma virada nas condições climáticas, que reduziram a oferta de milho americano e permitiu um aumento na oferta brasileira, alguns países estão se voltando para os negócios ao sul do Equador, com o Japão, um dos principais compradores da commodity americana, já fazendo mais negócios com agricultores brasileiros.

No geral, a economia americana continua a enfrentar um padrão de desaceleração, porém, a baixa taxa de desemprego e repique da inflação mostram que uma recessão ainda está um pouco distante, em uma virada de jogo ao que era esperado no meio do ano. Isso vem ocorrendo devido aos esforços do Federal Reserve em baixar as taxas de juros e em injetar liquidez no mercado americano. Porém, é imprescindível que os conflitos comerciais comecem a ser resolvidos, para aliviar o setor manufatureiro e fortalecer ainda mais o crescimento do produto, tanto americano quanto global.

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