"> Um “adeus” à Oi?

16 de Outubro de 2019

Um “adeus” à Oi?

Escrito por: Corpo Editorial

A Oi (OIBR3 (SA:OIBR3); OIBR4 (SA:OIBR4)), antiga Telemar, tem com certeza um histórico e importância bastante particular dentro do cenário brasileiro. Em 2016, ainda em função de seu questionável casamento com a Brasil Telecom e em meio a uma crise que abalava seu orçamento (que acumulava uma dívida de R$ 64 bilhões na maior recuperação judicial do país, que se arrastava há um ano e meio) tinha ações próximas a R$ 0,80, contudo, após um intenso processo de negociações, ainda em 2017 teve suas cotações atingindo patamares de R$ 5,40, com 566% de ganho acionário em apenas 10 meses. Trazendo aos dias atuais, vemos que a OIBR3 luta para manter-se acima dos R$ 0,90, então bem... tal crescimento pode se repetir? Ao visto, isso ainda é um tanto complicado: com críticas em sua gestão e aos serviços prestados, amarras com o setor público, mercado altamente competitivo e a própria questão fiscal bastante prejudicada, a empresa sofre para manter-se. Veremos, mais adiante, que várias dessas questões já têm soluções projetadas pela companhia, contudo o momento atual, no mínimo, ainda parece ser um ponto de inflexão (um tanto perigoso) bastante significativo à gigante brasileira. Em meio a tudo isso, a empresa se tornou um dos principais focos de especulação na ibovespa, passamos então a nos perguntar: esse é um “adeus” à Oi?

A operadora de telecomunicações tem registrado em seus últimos levantamentos trimestrais resultados bastante preocupantes. Considerando somente o ano de 2019, viu-se que o lucro líquido atribuível aos acionistas controladores ao primeiro trimestre foi de apenas R$ 568 milhões, resultado que significou uma queda de 98,1% em relação ao mesmo período do primeiro trimestre de 2018, justiça seja feita, isso ocorreu quando a base de comparação estava mais elevada, sendo um reflexo da própria reestruturação da dívida de 2016. Contudo, já considerando o segundo trimestre, registrou-se, na mesma medida, um prejuízo, agora na escala de R$ 1,55 bilhão (correspondendo a uma perda 24% maior que a do mesmo período do ano anterior). Como se espera, não acaba por aí: demonstração de resultados consolidados; dívida líquida; variação do caixa; ebitda; resultado operacional etc, todos apontam grandes sinais vermelhos à Oi, não por acaso formou-se toda a expectativa de intervenção por parte da Anatel e possíveis “apagões” em algumas regiões do país.

Certo, mas de onde vem isso?

Para além dos histórico mais distante da empresa, que trouxe parte de sua dívida (assunto para outro artigo), há ainda o sistema de concessões governamentais e suas amarras, que voltou à pauta através da ascensão da discussão sobre PLC 79/2016, a chamada “nova lei das teles”. As concessões direcionadas ao setor de telefonia fixa, parte de um sistema adotado há duas décadas, acabam por condicionar a empresa a uma série de gastos que lhe pouco fazem sentido comercial atualmente, como o setor de telefonia fixa, o que se ilustra bem através da gratuidade em ligações por orelhões como determinação da Anatel em 11 estados pelo país, além da obrigatoriedade de manutenção dos mesmos, que até ano passado (antes de uma flexibilização aprovada pelo governo) implicava no gasto de R$ 300 milhões anualmente - além de indiretamente também ocasionar multas por falta de investimento. A grande ideia é que o Projeto de Lei Complementar (sancionado sem vetos pelo presidente recentemente) possibilite uma redução de custos e maior flexibilização, que na prática significará facilitar a venda de ativos pela empresa (algo que já causa problemas às mesma), conforme exploraremos mais adiante.

Por outro lado, podemos ainda nos atentar aos investimentos da Oi dentro do campo de fibra ótica (FTTH), antecipando, de forma bastante custosa, uma demanda iminente em meio a atualizações em tecnologias de conexão à internet. Durante os últimos anos, a tecnologia de fibra tem sido uma das principais apostas da companhia, aposta essa que se justifica em um momento de ascensão do próprio 5G, além de outras atualizações como o wi-fi-6 e a sd-wan, todas a demandar melhores níveis de conexão. Contudo, tal investimento acaba por gerar frutos mais a longo prazo dado o período de adaptação ao cenário brasileiro (como o próprio adiamento do “Leilão de 5G” demonstrou), ao passo que outras operadoras também têm se direcionado ao mercado, aumentando a concorrência do mesmo. Contudo a aposta permanece, com uma previsão de investimento próximo aos R$ 7 bilhões de reais a este ano, a empresa pretende estar atendendo 34 milhões de pessoas com sua rede de internet de banda larga até dezembro.

Para além da venda de seus ativos, a empresa ainda aposta na substituição do atual diretor presidente, Eurico Teles. Após meses de pressão, o mercado praticamente passou a decretar um nome mais experiente para conduzir a companhia, o que atualmente significa Rodrigo Abreu, ex-presidente da TIM Brasil, que, caso efetivamente tome o novo cargo, passará a acumular funções essenciais na área operacional e de gestão, segundo fontes internas, mostrando uma aposta do mercado em sua experiência em presidir empresas com viés tecnológico, como a Cisco System, Nortel Networks e a própria Tim. Tal substituição ainda é pouco divulgada pela Oi em vias oficiais, contudo espera-se a mudança ainda em dezembro deste ano, prospecta-se então, para além da alteração do plano de direção da empresa e de sua disciplina fiscal, um avanço nas cotações da mesma.

E agora?

A grande expectativa do mercado passa a orbitar sobre a venda dos ativos da empresa, mais especificamente sobre os possíveis compradores. Nesse sentido, três principais grupos parecem estar dispostos a abrir os bolsos: as concorrentes internas, como a Vivo (VIVT4), Claro, TIM Participações (TIMP3); algumas empresas chinesas de telecomunicação (lê-se aí Huawei e a China Mobile) e a americana AT&T.

Antes de tudo, contudo, vale notar como a venda dos ativos está sendo realizada. Destacamos então os chamados “ativos não prioritários”, ou seja, torres, data centers, diversos ativos imobiliários, além de participações em empresas com ativos de fibra em regiões não estratégicos e a própria participação de 25% na operadora angolana Unitel, como exemplos dessa venda. Vale o destaque à Unitel, podendo dar um reforço de quase R$ 4 bilhões ao caixa da companhia, correspondendo a uma parcela considerável dos R$ 8,5 bilhões de esperados em arrecadação ao caixa até 2020 estabelecidos pela empresa.

Por outro lado, fatiamentos, ou seja, vendas de sua operação móvel, foram descartados pelos representantes da empresa, segundo os mesmos há exercícios de investimento saudáveis sendo operados, apresentando bons resultados a mais médio e longo prazo. Resta então a questão: até onde podemos acreditar? Os representantes da empresa podem estar sérios quanto a permanência dos ativos móveis da empresa, como já ocorreu em 2016, contudo pode-se também ler isso como uma estratégia para não alarmar o mercado e manter o controle sobre suas cotações, tal como evitar que a venda de seus ativos ocorra por preços muito pequenos.

Nesse contexto, uma matéria recente do jornal espanhol Expansión afirmou que a telefonia espanhola Telefônica (controladora da Vivo) avaliava realizar um acordo à América Móvil (dona da Claro) e a Telecom Italia (TIM) para realizar uma compra conjunto dos ativos da Oi. A notícia, contudo, não vem com teor tão surpreendente, já sendo considerada entre alguns analistas, o que, contudo, pode significar um cenário mais oligopolizado entre as teles brasileiras.

Paralelamente, as gigantes chinesas Huawei e China Mobile também parecem estar dispostas a unir esforços para garantir espaço dentro do mercado brasileiro. Vale notar o destaque ao termo “mercado brasileiro”, isto é, o caso chinês envolve diretamente uma questão geopolítica, visto os imbróglios existentes entre o Gigante Asiático e alguns outros país, como os próprios EUA, Austrália e Nova Zelândia. Para além disso, a compra também lhe permitiria o acesso a uma rede de fibra ótica de cerca de 360 mil quilômetros (maior do país), extremamente útil ao seu projeto de tecnologia 5G.

Justamente nessa questão, a estadunidense AT&T parece ganhar vantagem em decorrência da aproximação do atual governo com o país. Nesse ponto, contudo, há certas ressalvas, isto é, a legislação brasileira impede a chamada “propriedade cruzada”, que impossibilita que um grupo de telecomunicações deter mais de 50% de um grupo de mídia e mais de 30% de uma operadora de forma simultânea, o que age contra a AT&T que, durante o ano passado, adquiriu a Time Warner, passando a ser dona dos canais da empresa, o que se agrava em decorrência de sua posse da operadora de TV Sky. Vale notar que o presidente da empresa, Randall Stephenson (que já manifestou interesse na compra), já se reuniu com o presidente brasileiro Jair Bolsonaro buscando apoio do governo na mudança da chamada “Lei da TV paga”.

Temos um “adeus”?

Voltamos então ao início, isso é, dado a sua aposta de melhora ainda um pouco incerta (e bastante custosa), a empresa vem queimando seu caixa e expandindo sua dívida (atingindo R$ 12,573 bilhões no segundo trimestre do ano, ou seja, um aumento de 25,5% na comparação anual), de modo a refletir um fluxo de caixa operacional (EBITDA - Capex) negativo em R$ 571 milhões no semestre, a empresa ainda pode ter uma reviravolta em suas cotações? Há várias incertezas no caminho, que devem ser seriamente pensadas, mas podemos vislumbrar sim ganhos consideráveis

Antes de tudo, algumas ponderações são bastante necessárias, isso é, os resultados da empresa demonstram claramente uma situação fiscal bastante ruim, contudo podemos também analisar o risco da perda e a possibilidade de ganho. Nesse sentido, podemos descartar desde já a possibilidade de uma falência, dada justamente a importância da empresa e sua abrangência, muito provavelmente haveria algum tipo de ajuda governamental no pior dos casos, dado inclusive as implicações sociais resultante das perdas de emprego etc. Por outro lado, ao se observar os antecedentes das ações vemos que a Oi já se encontra bastante próxima ao seu menor patamar histórico, de R$ 0,80, mais do que isso, mesmo em meio às recentes crises, tal patamar se manteve razoavelmente, o que demonstra certa resistência. Por outro lado, as condições de melhora, como substituição de presidente e PL 79 jogam positivamente a favor da companhia. Vamos então à pergunta final do texto, isto é, estaríamos próximos a nos despedir da empresa?

A resposta tem seus bons graus de especulação, mas também, ao menos no que tange sua independência, é sim! Calma lá, simplificando as coisas nos referimos aqui a uma possível venda em seus principais ativos móveis às outras companhias. Por mais que a substituição da presidência seja vantajosa, a situação da empresa parece estar ficando mais insustentável e mesmo a venda de alguns de seus ativos podem no máximo dar um ar à mesma durante pouco tempo, paralelamente a Nova Lei das Teles, apesar de bastante importante, ainda é sujeita a uma série de burocracias, com efeitos práticos mais distantes. Por outro lado, o que nos dá maiores indícios dessas possíveis vendas são justamente os movimentos e aspirações de ganho por suas concorrentes, dado a fragilidade fiscal que a Oi apresenta em contraste com seu patrimônio líquido bastante interessante. Neste ponto, tais possíveis compradores mantêm-se também com mais cautela, vide que uma abordagem mais direta poderia levantar as cotações da empresa e encarecer qualquer possível compra, contudo a reunião entre o presidente da AT&T, a reportagem do jornal espanhol Expansión e a própria perspectiva de ganho de espaço na tecnologia 5G por parte das empresas chinesas são exemplos claros de negociações estão ocorrendo por baixo dos panos.

Nossa análise vai justamente nesse sentido: a ausência de um novo marco regulatório às teles foi um dos últimos fatores a desestimular possíveis compras, que agora devem ocorrer (provavelmente entre as concorrentes ocidentais). Tal perspectiva tende a influenciar as cotações da empresa a médio prazo bastante positivamente, viabilizando patamares mais elevados às cotações. Ademais, forma-se assim uma solução aos sérios problemas fiscais da Oi (a partir de sua compra) ao passo que apresenta-se aos possíveis compradores uma empresa com um patrimônio líquido bastante interessante em meio a um mercado mais favorável. Dadas as circunstâncias, apesar do grau de profundidade das vendas ofertadas pela empresa ainda ser incerto, tem-se aqui consideráveis componentes do início desse processo, isto é, de um “adeus” à Oi como conhecemos.

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