"> Editorial - Setembro/2019

7 de Outubro de 2019

Editorial - Setembro/2019

 

Os destaques mundiais para o mês de setembro ficaram com as divulgações de indicadores de crescimento desapontando o mercado e com o ajuste das expectativas concernentes à política monetária mundial, para compensar a desaceleração em curso.

A começar pelo cenário europeu, os indicadores que mais geraram preocupação no mercado financeiro foram os PMIs, divulgados na última semana do mês, com alguns resultados batendo suas mínimas dos últimos 7 anos. No caso da Alemanha, foi observada uma retração substancial do setor manufatureiro, com o indicador batendo a marca de 41,7 pontos (qualquer número abaixo de 50 pontos representa retração), enquanto o setor de serviços se manteve em uma trajetória levemente ascendente, batendo os 51,4 pontos. A Itália também mostrou uma retração no seu setor industrial (47,8 pontos) enquanto a França teve um desempenho estável, com 50,1 pontos. Em consequência aos números decepcionantes das maiores economias do bloco, e também refletindo o peso da Alemanha, o PMI de manufatura da União Europeia encerrou o mês marcando 45,7 pontos, a mínima do indicador desde 2012 e uma queda de 1,3 pontos na comparação com agosto. O PMI do índice de serviços também sofreu uma forte queda, caindo de 53,5 para 51,6 pontos.

Em consequência aos indicadores decepcionantes de crescimento econômico, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou a retomada de estímulos monetários, sendo anunciado o novo processo de Quantitative Easing, com o banco comprando 20 bilhões de euros em títulos “por quanto tempo for necessário”. Adicionalmente, as taxas de depósitos na União Europeia foram rebaixadas de -0,4% para 0,5%. Esta, porém, foi a última decisão de Mario Draghi a frente do BCE, tendo em vista que seu mandato está no fim e este deverá ceder seu lugar para Christine Lagarde, ex-diretora-gerente do FMI, o que coloca uma dose de incerteza sobre a duração das atuais medidas.

Quanto ao quadro político, o principal foco de ruídos continua a ser o Brexit, que segue em um estado dormente, após as manobras do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, para tentar fechar o parlamento e isolar os seus adversários do processo de decisão. Porém, nas últimas semanas, o capital político de Johnson se esvaiu rapidamente, ao ponto de ele se encontrar em uma situação mais complexa do que a de sua antecessora, Theresa May, que renunciou em maio deste ano após se mostrar incapaz de aprovar algum acordo para o Reino Unido. O primeiro-ministro, que sempre foi extremamente contra qualquer prorrogação de prazo, se encontra sem tempo e sem apoio para aprovar qualquer medida no momento, o que, somado ao conflito comercial internacional, amplia as incertezas quanto aos rumos que deverão tomar as economias europeias.

 

Quanto à economia chinesa, o mês de setembro viu a continuidade da tentativa do país em estimular a sua economia, com uma nova redução na taxa de depósitos compulsórios, que deverão injetar cerca de 126,35 bilhões de dólares na economia da China. A prioridade para o governo de Xi Jinping durante os últimos meses de conflito comercial com os Estados Unidos tem sido a de uma estabilização da economia nacional e, principalmente, de uma desalavancagem do setor empresarial chinês. Adicionalmente, o Banco Central Chinês lançou uma nova taxa de juros de referência, a LPR, que é uma taxa a ser atualizada mensalmente e que será baseada no custo médio de empréstimo de 18 bancos para seus clientes. O objetivo de tal reforma é reduzir o custo de financiamento na economia chinesa e de tornar a taxa de juros chinesa mais próxima à orientação do mercado, ampliando a confiança no país.

 

Quanto ao cenário na economia brasileira, a situação parece um tanto quanto diferente com o que se observa mundo afora. Os indicadores de vendas no varejo surpreenderam positivamente no início de setembro, com uma alta de 1% ante uma expectativa de 0,2% pelo mercado. No conceito ampliado – que incorpora o resultado com veículos e materiais de construção – a alta foi de 0,7%, levemente abaixo da projeção de 0,8%. Apesar de ter sido o melhor resultado para o varejo no mês desde 2013, uma análise mais aprofundada do indicador mostra que o crescimento foi puxado pelo segmento de supermercados e produtos alimentícios, que cresceu 1,3%. O segmento, porém, reflete de maneira limitada os efeitos de aumentos na renda brasileira, com as vendas de produtos de linha branca e outros móveis representando melhor uma eventual melhora. Mesmo assim, não é a primeira vez que há um movimento como esse nos dados do varejo nesse ano, com um padrão semelhante tenho ocorrido no indicador de fevereiro. Porém, devido ao processo de estocagem gerado pelo resultado acima da média, houve um dado decepcionante para o mês subsequente, de março. Por isso, não esperamos que esse dado do varejo realmente reflita uma melhora econômica a vista, sendo que o movimento não foi guiado por produtos de maior valor agregado, o que seria reflexo de uma melhora da renda e da confiança do consumidor.

A produção industrial brasileira também mostrou um resultado positivo para o mês de agosto, registrando uma expansão de 0,8% no período de julho para agosto, sendo essa alta guiada pelo setor de bens intermediários, que representa 55% da indústria brasileira, avançando 1,4%. A produção de bens duráveis, por outro lado, recuou 1,8% no mesmo período juntamente com a produção de bens de capital, que recuou 0,4%. O resultado amplo, assim como no indicador do varejo, mostra um suposto aquecimento da economia brasileira, porém, uma análise um pouco mais aprofundada nos indicadores revela que há ainda um longo caminho para ser percorrido, muito devido ao quadro de renda ainda muito limitado do brasileiro médio.

Essa renda ainda limitada é fruto da situação atual no mercado de trabalho, que, apesar de exibir uma taxa de desemprego em queda, ainda mostra 11,8% da população desempregada e com uma tendência de queda sendo guiada pela criação de vagas no trabalho informal, que atingiu o recorde de 41,4% do total da população ocupada no país. Os efeitos da queda no desemprego sendo guiado pelo trabalho informal é justamente o que pode ser observado no indicador de vendas no varejo, com a demanda por bens básicos se elevando enquanto o baixo rendimento médio do trabalho limita a demanda por bens de maior valor agregado. Nos últimos três meses, foram criados 684 mil novos postos de trabalho, sendo 87,1% desses postos sendo ou sem carteira assinada, ou trabalhadores por conta própria (sem CNPJ) ou em remuneração (ajuda em negócios familiares, por exemplo). Falando sobre o desempenho do trabalho formal, houve a criação líquida de 121,4 mil vagas em agosto. Com esse resultado, o saldo líquido de criação de empregos com carteira assinada nos últimos 12 meses passou de 448 mil para 459 mil, porém, os dados dessazonalizados exibiram uma leve queda no acumulado de 12 meses, passando dos 40,6 mil registrados em julho para 38 mil empregos. O rendimento médio do trabalho se manteve estável em R$ 2.298,00, mesmo nível de maio desse ano e agosto do ano passado, reflexo da alta criação de empregos informais.

Quanto aos rumos da taxa Selic, o COPOM mais uma vez a reduziu em 50 pontos-base e sinalizou um ciclo de expansão monetária para os próximos meses. As quedas na taxa de juros brasileira são o reflexo de 3 fatores principais: inflação sob controle; crise fiscal amenizada e crescimento econômico insatisfatório. Em outros Editoriais já tratamos quanto aos rumos que esperamos que a inflação tome para os próximos meses, que é uma trajetória deflacionária, apesar do consumo crescendo levemente. O efeito deflacionário vem principalmente do reajuste de preços de bens como energia elétrica e combustíveis, prioritários na análise de dados inflacionários. O efeito do consumo sobre os preços, porém, ainda deve ser limitado devido à renda brasileira, tendo em vista que em tempos de renda limitada da população, a elasticidade da demanda dos produtos tende a se elevar freando os reajustes das empresas.

Quanto a situação fiscal, o principal foco de atenções segue sendo a reforma da previdência, que voltou às manchetes nas últimas semanas. Isso por que o Senado impôs graves derrotas para o Governo, com a aprovação da continuidade do abono salarial, que diminuiu a economia prevista da reforma em cerca de 76 bilhões de reais. Os imbróglios pelos quais vem passando o projeto da reforma se dá exclusivamente pela falta de capacidade de negociação do governo brasileiro, fato que já vinha sendo revelado durante a tramitação do projeto na Câmara e que começa a custar cada vez mais na tramitação no Senado. O revés do governo veio da situação quanto à inclusão de governos estaduais e municípios dentro da reforma da previdência, que custaria capital político para Bolsonaro, que se opõe a incluir as esferas. Mesmo com a onda de aversão ao risco gerada no mercado financeiro brasileiro, a economia prevista na reforma da previdência ainda é de 800 bilhões de reais para os próximos 10 anos, estando dentro do esperado pelo mercado antes da votação da Câmara dos deputados, realizada em julho. Por isso, não vemos ainda grandes riscos adicionais de desidratação da reforma, esperando sua aprovação até o final do mês.

Quanta à taxa Selic, esperamos que encerre o ano em 4,75%, com um corte de 0,5% no final de outubro e outro de 0,25% na reunião de dezembro, continuando a tendência brasileira de se ajustar aos padrões internacionais de juros reais de 0%. Esperamos, porém, que esse ciclo só se encerre no ano que vem, visto que vemos o IPCA de 2019 ficando em 3,7%.

 

Passando para o centro as atenções do último mês, a economia americana mostrou um aprofundamento do processo de desaceleração econômica, enquanto o campo político apresentou uma virada de jogo com a abertura do processo de impeachment de Donald Trump. Quanto à atividade manufatureira, o PMI ISM de agosto dos Estados Unidos mostrou um maior enfraquecimento do setor, registrando uma pontuação de 49,1 pontos, ante um resultado de 51,2 pontos no mês anterior. Foi a primeira vez em que o indicador exibiu um cenário de contração desde 2016. O resultado, como ressalta o ISM, foi um reflexo de uma queda notável na confiança empresarial, com a guerra comercial sendo o fator mais importante para a forte contração nas novas encomendas de exportação. O investimento empresarial no setor também se retraiu, diminuindo em 1%, sua maior queda desde 2015. O resultado foi puxado pela queda de 11,1 nos gastos com construção, o que refletiu em diversos outros setores.

O PMI Industrial de setembro mostrou uma continuidade na retração do setor nos Estados Unidos, ficando em 47,8 pontos, ante uma projeção de 50,4 pontos, marcando a mínima do indicador em mais de uma década. Mesmo com a queda contínua e, de certa maneira, rápida, a análise histórica dos resultados do indicador mostra que o movimento atual está dentro do padrão de variação nos últimos 50 anos.

PMI ISM Industrial dos Estados Unidos.      Fonte: Investing.com

Assim, não vemos o pânico atual do mercado financeiro como sendo algo muito razoável, tendo em vista que uma desaceleração econômica já era prevista para o país neste ano. A situação atual reflete a crescente preocupação dos agentes com a vitalidade da economia global no curto e médio prazo, com a guerra comercial sendo o principal determinante para a retração nos dados industriais americanos.

Já no setor terciário, o cenário de desaceleração não é unânime como no caso da indústria. Pelo lado dos estoques, foi divulgado o dado de julho, que mostrou um aumento da estocagem na economia americana em 0,2% no mês, após uma queda de 0,1% no mês anterior. Mesmo assim, na comparação anual, o aumento nos estoques da economia americana está em 7,1% atualmente. Durante o final de 2018 e início desse ano, a economia americana passou por um processo de estocagem intenso, levando as empresas a fazerem menos encomendas nos últimos meses, o que, somado aos temores concernentes à guerra comercial e a uma recessão americana, coloca pressão sobre a produção industrial dos Estados Unidos.

Quanto às vendas no varejo, houve um avanço maior do que o esperado pelo mercado no mês de agosto, com uma alta de 0,4%, totalizando 4,1% na comparação anual. As maiores contribuições para o resultado vieram dos gastos com veículos, mateiras de construção e saúde. Já o núcleo mensal de vendas, componente de gastos do PIB, houve uma alta de 0,3%, sendo o quinto aumento mensal consecutivo, mostrando a robustez do consumo interno da economia americana, que ainda resiste à piora nas expectativas para o país.

Quanto à questão do mercado de trabalho, a criação de empregos foi menor do que o esperado, com o Payroll exibindo 136 mil novos empregos, ante uma projeção de criação de 150 mil postos de trabalho. Assim, a taxa de desemprego dos Estados Unidos caiu ainda mais, batendo os 3,5%, a mínima dos últimos 50 anos. O rendimento médio do trabalho também decresceu marginalmente, em 0,04%, ficando em US$ 28,09 por hora trabalhada. Ainda assim, devido ao resultado abaixo das expectativas, houve um reforço da expectativa de corte nas taxas de juros dos Estados Unidos por parte do Fed. Na reunião ocorrida no último dia 18, houve o segundo corte na taxa de juros americana deste ano, que agora está no intervalo de 1,75-2%. Em um quadro de desaceleração econômica combinado com uma inflação controlada, acreditamos que haja espaço para um novo corte nas taxas de juros, porém com o país crescendo a 2,1% ao ano a pleno emprego, não vemos a necessidade desse corte. Porém, tendo em vista a postura do FOMC nas últimas reuniões e os discursos dados por Jerome Powell nas últimas semanas, em que ele defende que em uma desaceleração econômica americana o ciclo de cortes de estenderia, revisamos nossa projeção para que a taxa de juros americana sofra um novo rebaixamento na próxima reunião, encerrando o ano em 1,5-1,75%.

Quanto ao campo político, a Câmara dos Deputados dos EUA anunciou a abertura de um inquérito de impeachment contra Donald Trump, devido a um pedido feito pelo presidente americano ao presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, para investigar seu rival político, Joe Biden. Para a deposição do presidente americano, são necessários botos de dois terços tanto da Câmara dos Deputados quanto do Senado. Enquanto a Câmara dos Deputados é majoritariamente democrata, o Senado americano tem uma maioria republicana e, somando à aprovação de 95% de Trump dentro do partido republicano, não vemos esse processo como algo factível. Em nossa visão, esse processo não é nada mais do que uma tentativa dos democratas para começar a minar a imagem de Trump para as eleições do ano que vem. Let the race begin!!

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