"> Editorial - Julho/2019

5 de Agosto de 2019

Editorial - Julho/2019

A tônica da economia global durante o mês de julho foi de continuidade da desaceleração e pelo movimento de quedas nas taxas de juros, tanto efetivas, no caso do Fed e do Banco Central do Brasil, quanto nos contratos futuros de juros das principais economias europeias.

Nos Estados Unidos, o principal ruído referente à desaceleração econômica em curso veio do setor industrial, que, após registrar queda na produção nos primeiros dois trimestres deste ano, entrou oficialmente em recessão. No primeiro trimestre, a produção industrial americana caiu 1,2%, enquanto no segundo trimestre a queda foi um pouco mais forte, de 1,9%, em termos anualizados. Os motivos apontados para a situação do setor industrial americano giram em torno do conflito comercial com a China, que vem impactando o fluxo de importações e a demanda por exportações.

O conflito ganhou um novo capítulo nos últimos dias, com o presidente Donald Trump impondo novas tarifas aos produtos chineses, dessa vez de 10%, devido à indisposição das autoridades chinesas em “seguir o que vinha sendo negociado”. No entanto, o novo ataque de Trump aos chineses não é algo muito inesperado por nós, tendo em vista que a atual situação da economia americana ainda é muito positiva, diminuindo a pressão sobre o presidente para que se alcance um armistício na guerra comercial. O crescimento dos Estados Unidos ganhou ritmo após o resultado das eleições, com a redução nos impostos e as políticas protecionistas fomentando o crescimento pela alta na demanda interna americana, porém, à medida que os efeitos dessas medidas vão passando, fica claro que os Estados Unidos necessitam de um afrouxamento das tensões externas, afim de manter o apetite do empresariado pelo investimento.

Com a decisão acerca das taxas de juros americanas estando no centro dos holofotes do globo, Donald Trump voltou a pressionar o Federal Reserve por mais quedas nos juros, além dos 0,25% cortados na reunião do último dia 31. A justificativa do presidente é que os juros mais baixos iriam fomentar a atividade interna e dar mais fôlego para a economia americana. Porém, ao olhar os indicadores econômicos, fica claro que o que vem puxando a expansão dos Estados Unidos nos últimos anos foi o setor terciário, com gastos familiares e varejo guiando as altas. Enquanto isso, o setor de exportações e industrial teve um desempenho mais conservador, justamente pelos efeitos das políticas internacionais de Trump. É justamente aqui que julgamos estar o ponto de inflexão. Os resultados industriais deverão continuar pressionando o crescimento dos Estados Unidos, enquanto os serviços deverão desacelerar no médio prazo. Para evitar um maior comprometimento na trajetória de crescimento, vemos que Donald Trump deverá ceder nas pressões comerciais, na tentativa de impulsionar a indústria. Jerome Powell, presidente do Fed, afirmou que a recente queda nas taxas de juros não são o começo de um ciclo de quedas e deu a entender que este é um fenômeno pontual. Não esperávamos um tom hawkish vindo das autoridades monetárias americanas, porém a situação do mercado de trabalho americano ainda dá margem para o posicionamento de Powell.

Apesar de os dados do payroll americano ainda exibirem resultados saudáveis, uma maior desaceleração no setor industrial deverá pressionar o quadro de emprego americano no médio prazo. Tendo em vista o nível controlado da inflação americana, uma desaceleração no mercado de trabalho poderia ser o empurrão necessário para maiores quedas nas taxas básicas dos Estados Unidos.

 

No cenário brasileiro, o grande destaque foi a aprovação, em primeiro turno na Câmara, do texto da reforma da previdência, que vinha como a principal promessa do Governo para o mandato atual. O tramite vinha sendo observado de perto pelos profissionais de mercado devido à atual situação fiscal do país, com a reforma do sistema previdenciário sendo um dos principais alicerces para uma reconstrução do sistema fiscal.

Dois fenômenos chamaram a atenção ao fim da reforma: o tom de fala dos parlamentares favoráveis e o placar. Nos momentos antecedentes à votação, muitos parlamentares discursaram na tribuna da Câmara e uma coisa que transpareceu durante os discursos foi o sentimento de orgulho pelo esforço dispensado a tema, e algumas vezes menosprezando os esforços do Governo durante as negociações acerca do texto. Apesar de as falas dosadas com um certo sensacionalismo serem comuns em dias de votações importantes na Câmara, o caso da reforma da previdência nos gera a percepção de que há um alinhamento da classe política com o texto atual da reforma da previdência, e esse alinhamento deverá limitar as possíveis mudanças e emendas que serão inseridas no decorrer do trâmite do projeto. Em segundo lugar, o placar da votação (379 a 131) se mostrou muito importante por dar uma dimensão da popularidade do texto dentro da Câmara. A oposição saiu como a grande derrotada da noite e o tempo para tentar mudar o jogo começa a se encerrar nessa semana, com o início do 2º turno. Somando esses dois fatores, podemos ver que além de a oposição estar em uma posição significativamente inferior nas negociações, existe um alinhamento com o texto atual, o que deverá gerar uma boa solidez da reforma da previdência para resistir às mudanças esperadas para os próximos dias.

Com a reforma assegurada, as atenções se voltarão para a reforma tributária durante o decorrer do segundo semestre de 2019, porém ainda é um pouco cedo para comentários aprofundados sobre o tema, que envolve uma negociação mais complexa, à medida que mexe com a arrecadação de estados, cidades e da União.

Para o campo econômico brasileiro, a aprovação da reforma da previdência já representou uma melhora em um dos três principais fatores de risco para o movimento das taxas de juros brasileiras. O COPOM sempre manteve clara a atenção para o desenrolar da agenda de reformas, para a evolução da economia brasileira e para o ambiente internacional de negócios para decidir o caminho da taxa Selic. Com o ambiente internacional exibindo uma tendência de queda nos juros das economias do planeta, enquanto a agenda de reformas parece estar acontecendo de maneira satisfatória, só resta a situação da economia brasileira para trazer uma perspectiva de unanimidade para a queda na taxa Selic. Este último fator é algo que já frisamos em editoriais passados como pontos que corroboravam para uma queda adicional da Selic. Com o crescimento do PIB sendo insistentemente revisado para baixo, podemos enxergar na fragilidade do setor industrial, a estagnação de determinadas áreas do setor terciário e com resultados aaquém dos tempos de super-safra para o setor primário. Os índices de inflação, após os dados de junho de 2018 (que estavam viesados pela greve dos caminhoneiros) terem saído da amostra dos últimos 12 meses, sofreram uma queda substancial nos termos anualizados, com o IPCA se mantendo 3,32%, quase 100 pontos-base abaixo do centro da meta do Banco Central. Por um lado, podemos observar pressões baixistas fortes para o IPCA de junho, que registrou uma estabilidade nos preços do país, vindas dos setores de combustíveis e de alimentos, estes últimos influenciados pela chegada do inverno. Há de se argumentar que no futuro próximo haverão reajustes que poderiam equilibrar a inflação brasileira: Os preços internacionais do petróleo vivem um bom momento, os reajustes tarifários na rede elétrica começaram a se aprofundar e com a adoção de bandeira vermelha para as contas de energia elétrica. O fato é que, mesmo que esses dois fatores realmente ajudem a elevar a inflação brasileira, há um espaço substancial para os formadores de política monetária explorarem patamares mais baixos na taxa Selic, como foi decidido em última reunião, com o COPOM cortando 50 pontos-base da taxa. Mesmo que a inflação se eleve para patamares mais próximos ao centro da meta, não há indicadores que sugiram que uma alta nos preços seja devida a um aumento na atividade interna brasileira, que ainda vive agonizando os efeitos da crise econômica. Tendo em vista um tramite mais tranquilo para a reforma da previdência, uma onda de afrouxamentos monetários pelo mundo e uma atividade comprimida, acreditamos que as quedas na taxa Selic não devam parar nos 6%, como esperávamos anteriormente. A nossa projeção para o encerramento da Selic no ano é de 5,25%, com viés estável, até que comecem a ser divulgados indicadores econômicos que reflitam o impacto da queda registrada no último dia 31.

 

Já para o campo europeu, o principal foco de atenção deixou de ser o progresso nas tratativas do Brexit e passou a ser a dificuldade econômica pelo qual vêm passando as economias da Zona do Euro. Os PMIs referentes a junho mostraram uma grande dificuldade para que os setores industriais recuperem algum ritmo de crescimento, estando a maioria das economias escoradas sobre fortes setores de serviços, o que também empurrou a taxa de desemprego para um nível historicamente baixo dentro da Zona do Euro (7,5%). A decisão de Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, de manter a taxa de juros europeia no patamar atual de 0% já vinha sendo amplamente esperada pelo mercado internacional, porém nesta semana começaram a haver diversos caso de curvas de juros inteiramente negativas, como as da Alemanha e da Suíça, isto é, espera-se que os yields dos bonds dessas economias sejam negativos para, no mínimo, os próximos 10 anos.

A fragilidade que contaminou o sentimento para o futuro da economia europeia se aprofundou devido aos resultados fracos da economia alemã, principal economia da UE e que tem um modelo voltado para a exportação para países parceiros da própria EU. A queda nas exportações é um reflexo direto do acirramento das tensões comerciais internacionais e pela tendência de queda na confiança econômica que vem contaminando o clima de negócios do Velho Continente. Assim como dito por Draghi, ainda é necessário manter uma atenção sobre o desenrolar dos indicadores econômicos europeus para projetar qualquer mudança no quadro de estagnação da União Europeia.

Escrito por: Matheus J. Bulasocschi

 

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