"> Economia Norte-Americana: Nova crise chegando?

27 de Junho de 2019

Economia Norte-Americana: Nova crise chegando?

 

 

Escrito por: Luis Felipe de Miranda

 

O objetivo desse artigo é fazer uma análise da atual estrutura econômica norte-americana, a partir de um recorte político e macroeconômico, mostrando sua reação à crise financeira global de 2008 e contextualizar seus novos rumos. Para isso, é necessário fazer uma leitura dos fatos que remetem a mais de uma década, para, assim, tornar mais clara a interpretação da realidade atual.

No primeiro trimestre de 2009, os EUA já entravam oficialmente em recessão, após dois trimestres consecutivos de queda no PIB. A famosa crise financeira de 2008, marcada principalmente pela queda de preços dos ativos financeiros, gerou uma grande retração na economia e uma situação grave de confiança dos agentes econômicos. Seus efeitos no PIB, porém, não perduraram por muito tempo. Em 2010 os EUA já apresentavam bons indicadores de recuperação, o PIB já estava em um patamar superior ao de 2008 e as expectativas em relação à recuperação eram positivas. Para contornar a difícil situação, o Fed e o Governo Federal trabalharam juntos para aplicar uma série de medidas de estímulo de demanda. A taxa de juros beirava 0%, e o país continuava sob risco de deflação, o que estimulou o Fed a “afrouxar” a política monetária.

Obama começou seu mandato assinando o American Recovery and Reinvestment Act of 2009, um pacote de medidas que somavam o valor de 787 bilhões de dólares. O pacote incluía um aumento dos gastos federais para a saúde, infraestrutura, educação e vários benefícios fiscais e incentivos. Houve intervenções também na indústria automotiva, quando a Chrysler e General Motors estavam na iminência de declarar falência, o governo americano proveu um financial bailout (ajuda financeira) de mais de 85 bilhões de dólares para as 2 gigantes e além disso, permitiu a venda de 20% da Chrysler para a montadora italiana Fiat, que prometia retomar investimentos e tornar a empresa mais eficiente. Toda essa política de estímulos não foi usada sem contrapartes. Após um tempo, o governo passou a demonstrar preocupação com a política fiscal, e logo em 2011, o presidente assinou o Budget Control Act, que, ao mesmo tempo que aumentava o teto da dívida pública, ia paulatinamente reduzindo o déficit público, sem aumento de arrecadação, ou seja, cortando alguns gastos federais.

Pode-se afirmar que, ao final de 2015, os ruídos da crise já não se mostravam tão altos. A taxa de desemprego, que chegara a 10% em 2010, estava em 6% e caindo. O FED já estudava subir a taxa de juros (após 2016 apresentou sucessivos aumentos), a confiança retornava aos poucos e os investimentos voltavam a subir. Apesar da grande expansão da base monetária, a inflação se manteve controlada, atingindo uma máxima de 4% em 2011. A situação política, contudo, era delicada. Obama, já no final de seu mandato, foi tido por alguns como o presidente que salvou a América da crise financeira. Embora sua aprovação fosse relativamente alta, os democratas perderam as eleições de 2016, em uma disputa muito acirrada, dando o lugar para Donald Trump.

Já em seu primeiro mandato, Trump adota um ambicioso plano que representaria a maior reforma fiscal do país em várias décadas, cortando os impostos das empresas e consumidores norte-americanos. Por outro lado, sua postura em relação ao mundo é impositiva e protecionista, na medida que faz o que está ao seu alcance para “proteger o mercado interno” e as grandes empresas da competição mundial, regulando suas taxas alfandegárias. Por mais controversas que sejam suas políticas, nesse ano, os EUA cresceram 2,3% e o desemprego beirava 4%. O ano seguinte não se mostrou muito diferente, o país cresceu 2,9% e a economia se aproximava do pleno emprego.

Chegamos em 2019, 11 anos depois dos grandes Defaults, os EUA, porém, sob a próspera égide republicana, não deixa de preocupar o mercado. Apesar do surpreendente resultado de crescimento de 3,2% no primeiro trimestre, o cenário de desgaste do comércio mundial às incertezas postas pela guerra comercial, o crescente aumento de estoques, e a inversão da curva de juros dos Treasuries indicam a possível chegada de uma recessão. O atrito entre as duas maiores economias do mundo não parecem ter um fim efetivo a curto prazo, o que, de certo modo, reprime as expectativas positivas em relação aos resultados das transações na balança comercial. O aumento das tarifas aos chineses também pode apresentar um risco à inflação, visto que os preços dos produtos tarifados são amplamente usados no país. Porém, o IPC ainda não reagiu desde o início das práticas protecionistas. “Muitas empresas estão deixando a China e indo para os outros países, incluindo os EUA, para evitar pagar as tarifas”, disse Trump no Twitter quando questionado sobre os aumentos tarifários. A curto prazo, tais medidas impulsionam a produção nacional, que consegue oferecer seus produtos a um preço mais baixo que as empresas estrangeiras. A médio-longo prazo, porém, essas decisões podem tornar a indústria mais ineficiente e criar dificuldades de competitividade internacional após as empresas se acostumarem com o paternalismo estatal.

Os dados sobre estoques das empresas também demonstram alta, principalmente no setor petrolífero, o que está causando uma tensão para diminuição nos preços. Essa tensão se mostra clara na precificação dos contratos futuros do petróleo WTI, que apresentaram sucessivas quedas desde o mês de abril.

A inversão da curva de juros aconteceu em março deste ano, quando os Treasuries de curto prazo (3 meses) superaram a remuneração dos de longo prazo (10 anos), como pode ser visto abaixo: (Os valores mais recentes dos Treasuries podem ser vistos aqui).

A história da curva de juros americana é bem clara. Os períodos de recessão sempre são sucedidos por inversões na curva de juros. Se analisarmos os dados disponibilizados pelo FED (desde 1962), a correlação entre inversão na curva de juros e período de recessão (após 2-5 anos) chega a ser 1, se compararmos os títulos de 3 meses com os de 30 anos. Se compararmos os títulos de 3 meses com os de 10 anos, haverá apenas um “falso positivo”, em 1966. Torna-se claro que o mercado sabe precificar bem as chegadas ou os fins dos ciclos econômicos, tornando essa uma precisa métrica de previsão. O gráfico abaixo apresenta exatamente essa situação. A linha vermelha representa os yields (remuneração) dos Treasuries de curto prazo (3 meses), a azul representa a de longo prazo (10 anos), e as áreas em cinza indicam períodos de recessão. (Os gráficos podem ser acessados aqui).

 

 

Não há muitos contrapontos sobre a chegada de uma recessão na maior economia mundial no curto prazo. A questão é quando irá chegar. Alguns analistas não acreditam em uma queda na atividade em menos de 2 anos. “Longe de ser pessimista, o atual spread entre os prazos de 10 anos e 2 anos, de 18 pontos-base, é consistente com uma apreciação de 12 por cento do S&P 500 nos próximos 12 meses”, afirmou a nota do JP Morgan. “Tipicamente ocorre uma longa defasagem entre o sinal da inversão e o pico do mercado/recessão de fato.” Apesar disso, o mercado já precifica títulos de 6 meses valendo menos que títulos de 1 mês.

Em geral, não é possível prever exatamente quando os ciclos econômicos acontecem, assim como não é possível prever o tamanho e extensão dos booms e recessões. A partir da observação de padrões, o mercado projeta cenários que tendem a segui-los através do tempo. No caso, a história não se demonstra a favor dos norte-americanos, e considerando seu peso no comércio mundial, não há muito espaço para cenários otimistas.

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