"> Editorial - Maio/2019

2 de Junho de 2019

Editorial - Maio/2019

A economia brasileira encerrou o primeiro trimestre com números significativamente negativos, se considerarmos a trajetória de crescimento gradual que vinha sendo observado nos últimos 6 trimestres. O IBC-Br, indicador do Banco Central que mede a atividade econômica, já vinha antecipando uma queda no PIB brasileiro durante os três primeiros meses e o número final ficou em uma redução de 0,2% no produto brasileiro. O destaque negativo no desempenho da economia ficou mais uma vez para o setor industrial, que continua a sofrer os efeitos da crise, se definhando ano após ano. Previsivelmente, o desastre de Brumadinho teve um impacto relevante no desempenho da indústria extrativa mineral, com uma queda de 6,3%. Um fator de preocupação foi o desempenho do setor de construção civil, setor essencial para a geração de empregos, que continuou a sua trajetória de retração, assim como vem sendo observado desde 2013. O trimestre, apesar da atividade fraca, mostrou uma formação relevante de estoques, o que traz um viés negativo para o futuro.

Por um lado mais positivo, a taxa de desemprego do Brasil caiu levemente e veio um pouco abaixo do esperado pelo mercado, a 12,5%, ante uma expectativa de 12,7%. Porém, a situação ainda é muito delicada no mercado de trabalho, com empregos de pior qualidade sendo gerados, à medida que os rendimentos do trabalho seguiram em queda e os empregos com carteira assinada se aproximam da sua mínima histórica. Adicionalmente a isso, apesar de a taxa de desemprego oficial ser de 12,5%, existe uma massa muito maior de subocupados, com a taxa atingindo 24,6%, subindo 0,1 ponto percentual na comparação com o mês de março.

O cenário do crescimento econômico brasileiro mostra que a economia brasileira perdeu muito ritmo desde o meio do ano passado. Inicialmente, atribuíamos esse enfraquecimento às incertezas que surgiam diante do cenário eleitoral, porém já estamos entrando no sexto mês do Governo Bolsonaro e o Brasil não dá muitos sinais de que a alta do crescimento econômico esteja num horizonte próximo. Claramente, um dos fatores essenciais para que um crescimento econômico sustentável seja atingido se condiciona à aprovação das reformas, tanto da previdência quanto a tributária. A reforma da previdência, apesar das incertezas e tensões que surgem dentro do Congresso, deve ser aprovada, à medida que a população começa a impor uma oposição menor e o desempenho econômico fraco coloca a pressão para os deputados oposicionistas. A postura da oposição no Congresso vem sendo a de barrar os projetos do governo, já tendo em vista o pleito de 2022, porém a incapacidade da economia brasileira em voltar a crescer traz o apetite da população por alguma ação, mesmo que seja sobre um tema polêmico, como é o caso da Previdência. Porém, o tramite da reforma da previdência ainda exige muito tempo até uma aprovação, dando espaço para uma intervenção do Comitê de Política Monetária (COPOM). Já acreditávamos que a taxa Selic pode ser ajustada para 6,25% no decorrer do ano, porém o desempenho da economia brasileira, aliado ao fim do ciclo de alta na taxa de juros nos Estados Unidos, da margem para um ajuste monetário mais incisivo. Por hora, reduzimos nossa projeção para uma queda de mais 0,25 pontos percentuais nesse ano, com a Selic fechando em 6% ao ano. No mercado de capitais, os DIs futuros já começaram a precificar uma queda nos juros brasileiros, com os contratos com vencimento em janeiro de 2020 sendo negociados abaixo da marca de 6,35 pontos.

O mês foi especialmente duro para os preços do petróleo no mercado internacional, com o barril WTI tendo uma desvalorização de 16,49% frente aos temores no mercado internacional acerca de um desbalanceamento na oferta e demanda da commodity. O primeiro fator que vem gerando receio já há alguns meses diz respeito à trajetória de crescimento global, que tem um impacto direto na demanda por petróleo. Durante o mês de maio, houve uma leve piora nas expectativas de crescimento para o futuro e, como reflexo disso, os yields de títulos governamentais ao redor do mundo caíram para novas mínimas, o que esboça os temores dos investidores acerca do início de um novo ciclo recessivo. Ademais, o PMI industrial americano atingiu a mínima dos últimos três anos, o que deu espaço para instituições de análise econômica, como o Morgan Stanley, definirem a economia americana em risco de entrar em uma recessão.

Porém, há também a possibilidade de uma restrição na oferta de petróleo, diante do comprometimento das exportações iranianas para o mundo. Nos primeiros 21 dias de maio, foram exportados 137 mil barris, um número muito abaixo da marca de 1 milhão observada no mês de abril e, apesar de que um aumento das exportações seja esperado para os últimos 7 dias de maio, o dado fechado do mês deve continuar muito abaixo do anteriormente registrado. A Venezuela viu uma produção relativamente estável, a 780 mil barris e a Angola atingiu a mínima dos últimos 12 anos, produzindo 1,41 milhão de barris. O escoamento da produção russa enfrentou problemas nesse mês, devido a uma contaminação em um dos grandes oleodutos do país e, até o momento, a estatal russa, Transfnet, ainda vem enfrentando dificuldades para regularizar o fornecimento.

Passando para o fornecimento de gasolina no mercado americano, existem receios acerca de um possível desabastecimento nas refinarias do sul do país, diante das sanções impostas à Venezuela e ao Irã por parte de Trump. Apesar de o petróleo iraniano não ser tão importante para o abastecimento do mercado interno americano, as refinarias do golfo do México são altamente dependentes da linha exportadora sul-americana. As refinarias do centro-oeste americano vêm suprindo a diminuição do fluxo de petróleo venezuelano com um aumento nas compras dos canadenses, porém o Sul pode, no futuro, ver seu complexo de refino trabalhando aquém de sua capacidade. Por outro lado, o declínio dos estoques dos Estados Unidos foi muito menor do que o esperado pelo mercado no final do mês, o que fez os preços afundarem no mercado internacional com a percepção de que a demanda americana pode estar diminuindo. O atual bom momento da economia americana, juntamente com o crescimento na renda das famílias, traz uma percepção de alta na demanda por combustível, o que nos leva a crer que esse movimento dos estoques é algo meramente pontual. Ainda assim, os preços da gasolina no mercado americano vêm se mantendo abaixo da média dos últimos 5 anos, porém uma eventual queda no fornecimento das refinarias pode ter um impacto relevante nos índices inflacionários dos Estados Unidos.

Seguindo mais adiante no âmbito da inflação americana, o índice Personal Consumer Expenditure (PCE) apresentou uma alta de 1,5% em abril, ante uma alta de 1,4% no mês de março. O comportamento da inflação americana em patamares mais baixos, apesar do desempenho fugaz da economia americana, desperta a atenção de estudiosos de política monetária, podendo ser relacionado com o novo padrão de consumo que começa a atingir os países desenvolvidos. Os mercados de startups e de soluções logísticas, como as que vêm sendo apresentadas pela Amazon e Uber Freights, vêm mudando substancialmente as cadeias de consumo, com um impacto ainda não inteiramente mensurados pelos formadores de política econômica. O que se sabe é que a situação do mercado de trabalho americano, que atualmente tem uma taxa de desemprego em 3,6% e vem apresentando um crescimento consistente de salários, indica um gradual aumento da trajetória inflacionária. Os preços da gasolina nos Estados Unidos se mantiveram em patamares baixos nos últimos 6 meses da amostra, porém, esperamos um aumento gradual nas próximas divulgações, o que deve favorecer o avanço do índice de preços.

Quanto aos temores acerca da guerra comercial, ressaltamos em nosso Editorial anterior que Trump estava usando a boa vontade chinesa nas negociações para postergar qualquer avanço, enquanto a situação para a economia americana continua favorável. No decorrer do mês novas mensagens contraditórias foram emitidas por Trump, que não se mostrou muito inclinado a chegar em um acordo, apesar de falar que tem muito interesse em resolver a situação. Ademais, o presidente americano passou a usar as sanções comerciais como uma arma para subjugar economias menores a seus interesses, como foi o caso do México. A Huawei também passou pelos noticiários, em um imbróglio que já poderia ser antevisto considerando que no ano passado já houveram problemas do Departamento de Justiça dos Estados Unidos com a cúpula de gestão da empresa, mas mesmo assim as sanções impostas à empresa, por supostamente violar a segurança nacional do país, foram aliviados alguns dias depois.

Quanto ao crescimento econômico da economia americana, este se manteve forte, com o PIB se expandindo em 3,1% no primeiro trimestre, um pouco abaixo das expectativas de mercado, que esperavam um dado de 3,2%. O desempenho industrial da economia dos Estados Unidos foi fraco nesse semestre e, se excluirmos o resultado do comércio, estoques e gastos governamentais, o ritmo de expansão foi de 1,3% no trimestre, o mais lento desde o fim de 2013. A demanda por bens manufaturados de longa duração declinou em abril e o próprio desempenho do varejo não foi tão forte quanto no passado, o que reflete uma diminuição natural, tendo em vista que o corte de impostos já teve o seu efeito na economia dos Estados Unidos.

Os indicadores econômicos europeus, após um começo de ano fraquíssimo, finalmente deram margem para um sentimento minimamente otimista, com um crescimento do PIB maior do que o observado no primeiro trimestre de 2018. Nesse primeiro trimestre, a economia da Zona do Euro cresceu 0,4%, ante um crescimento de 0,2% em igual período do ano anterior. Ganharam destaque as economias da Alemanha, França e Itália, que cresceram 0,4%, 0,3% e 0,2%, respectivamente. Adicionalmente a isso, o número de empregados cresceu 0,3% e o consumo, principalmente decorrente da páscoa, deu espaço para um crescimento de 0,3 pontos percentuais no CPI europeu, o que traz um alívio ao BCE, que tenta impulsionar a inflação do bloco para a marca de 2% ao ano.

Ainda dentro do cenário europeu, o mês de maio trouxe como grande destaque o cenário político do Reino Unido, que viu a incerteza acerca do processo de saída da união europeia atingir níveis recordes. Na reta final do mês, a primeira-ministra britânica, Theresa May, anunciou a sua renúncia ao cargo, depois de quase 3 anos tentando guiar o Brexit, sem sucesso algum, como foi observado no início desse ano. A saída de May é algo positivo tendo em vista a tramitação do processo, visto que ela vinha assistindo a gradual corrosão de seu capital político à medida que suas tentativas de passar pelo parlamento inglês falhavam de maneira notória. Porém, o risco de uma saída sem acordo algum (Hard-Brexit) ainda é muito factível. O nome cotado para assumir o posto de May é o de Boris Johnson, ex-prefeito de Londres e ex-secretário de Relações Exteriores.

Johnson se posicionou como o líder do movimento conservador durante o plebiscito, em 2016, e era o nome mais cotado para assumir o posto de David Cameron, que renunciou no dia seguinte à consulta popular. O líder, porém, retirou sua candidatura durante o processo de eleição de um novo primeiro-ministro, dando espaço à eleição de Theresa May. Agora, os apoiadores se voltam mais uma vez para o líder do partido conservador como uma possível solução para o impasse e, pelo menos até o momento, o parlamentar se mostrou disposto a sair da União Europeia até o dia 31 de outubro, atual data limite para a decisão, com ou sem acordo. Naturalmente, Donald Trump, que pode ser considerado o líder do conservadorismo global, saudou Johnson, enfatizando que ele seria o cara certo para guiar o Reino Unido no processo. Nossa visão, porém, é um pouco mais cautelosa. David Cameron ganhou a fama de fujão quando decidiu deixar o cargo de primeiro-ministro depois do anúncio do resultado do plebiscito convocado por ele mesmo, porém, a renúncia de Boris de sua candidatura a Downing Street pode ser considerada como um acovardamento equivalente. Em muitos momentos, o suposto sucessor de May criticou a primeira-ministra britânica em sua condução do Brexit, e agora vem mais uma vez se colocando como o homem capaz para assumir a liderança. O que May mostrou em sua passagem pelo cargo, foi a dificuldade de se costurar um acordo que agrade gregos e troianos, apesar de suas indecisões, e o que o Dâmocles britânico precisa estar sempre ciente é que a espada está mais afiada do que nunca. 

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