"> Editorial - Abril/2019

3 de Maio de 2019

Editorial - Abril/2019

O início do ano de 2019 foi relativamente difícil ao olhar para as projeções econômicas que vinham sendo traçadas para o mundo, que mostravam um certo grau de pessimismo vinculado ao crescimento do globo como um todo, especialmente ao caso chinês. Enquanto isso, o Brasil parecia seguir a contramão das expectativas, com boas perspectivas de recuperação sendo traçadas pelos principais agentes do mercado financeiro, empolgados com o início do Governo Bolsonaro, mais liberal e reformista. Porém, chegando no final do primeiro terço do ano, vemos o que pode ser o início de uma reversão nesse quadro de expectativas, com a China conseguindo ao menos manter o seu ritmo e com o Brasil amargando decepções no campo econômico e muitas incertezas no campo político.

 

O cenário que aparece entre os principais focos de incerteza é o europeu, e ganha destaque quando olhamos para a situação do Brexit. A situação continua sem mostrar muito progresso, sem muita diferença do que foi observado nos últimos meses, com um parlamento britânico cada vez mais dividido. A vitória de Theresa May, que não era esperada por nós, foi de conseguir adiar a decisão final do processo para o dia 30 de junho. Assim como nós, as empresas inglesas também não pareceram esperar um novo adiamento acerca do Brexit, que parecia rumar inevitavelmente para a separação sem qualquer acordo. Com isso, elas aumentaram suas produções substancialmente, de acordo com o PMI britânico de março. O índice, calculado pela IHS Markit, mostrou o maior crescimento nos últimos 13 meses. As empresas aproveitaram os supostos últimos dias antes da saída compulsória do bloco para aumentar suas produções, devido aos temores de que uma saída sem acordo dificultaria o escoamento da produção para seus clientes continentais. Em resposta a esse aumento de produção, o índice de estocagem da IHS Markit registrou uma alta substancial, o que indica que a demanda interna continua muito mais fraca do que a produção apresentada, nos levando a esperar uma queda substancial nos números industriais para abril e maio.

 

(Comparação dos índices de estocagem compilados pela IHS Markit. Fonte: Financial Times)

 

Quanto à situação de crescimento econômico, o Velho Continente continua sofrendo com a desaceleração econômica. As dificuldades de crescimento econômico da Europa vêm ocorrendo há alguns meses e o fator que reflete a difícil situação atual é a política monetária adotada pelo Banco Central Europeu (BCE). A entidade monetária, em meados de 2018, previa uma adequação da política econômica europeia para padrões mais “normais”, ameaçando terminar o programa de quantitative easing devido aos resultados inflacionários, que naquela época já tangenciavam o alvo de 2% ao ano, buscado pelo BCE. Porém, a situação vem se invertendo com o decorrer do ano, com a Alemanha, que tem uma matriz econômica exportadora, liderando a desaceleração do bloco europeu. Donald Trump também colabora para os números mais conservadores de crescimento, com a imposição de mais tarifas comerciais. De acordo com o presidente americano, a União Europeia “se aproveitou comercialmente dos Estados Unidos durante muitos anos”, justificando uma nova rodada de sanções econômicas os países europeus. Trump, porém deve considerar a reação dos países atingidos por suas sanções, com a China e União Europeia e tornando cada vez mais próximos com o estabelecimento da Nova Rota da Seda. As economias chinesa e europeia mostram sinais de fragilidade, deixados pelo vácuo do capital americano, que é guiado para novos portos pelas políticas de Trump, porém, caso a relação sino-europeia comece a prosperar, os Estados Unidos podem acabar dando um tiro no próprio pé nesse sentido.

 

Em um outro front, tivemos também a eleição espanhola, que havia sido abordada em um de nossos artigos, há alguns meses. Pedro Sanchez surpreendeu nossas expectativas e foi eleito como o primeiro-ministro da Espanha. Esperávamos um resultado favorecendo o partido conservador (PP), porém o PSOE, partido do atual primeiro ministro, conseguiu reverter a situação que parecia se desenhar no início do ano. Porém, o partido de esquerda será obrigado a negociar com outros partidos para garantir a maioria dentro do parlamento, enquanto o grande vencedor do processo eleitoral foi o partido eurocético de direita, o Vox.  

 

No caso da economia norte americana, houveram algumas divulgações de destaque no último mês, dentre elas a tríade que guia a política macroeconômica: a decisão do FOMC, o relatório de emprego e o CPI, que deu sustentação para a decisão acerca da taxa básica de juros americana.

 

Os índices de inflação da economia americana mostraram um maior crescimento no mês de abril, com o CPI anualizado fechando a 1,9%, um pouco abaixo do alvo de 2% ao ano, objetivo perseguido pelo Federal Reserve. A atenção nos números inflacionários americano se dá pelo fato de que o mercado de consumo do país tem um peso muito grande nos rumos da política monetária. Com o país em pleno emprego, o consumo deve ser o principal driver para impulsionar ou não os índices inflacionários a patamares que necessitem da intervenção do Fed. O consumo de varejo dos Estados Unidos atingiram a máxima desde agosto de 2009 no mês de março, quando registrou um aumento de 0,9%, ante uma estimativa de crescimento de 0,2% dos analistas de mercado.

 

Enquanto isso, a situação no mercado de trabalho continua a superar as expectativas, com uma criação de 263 mil novos postos de trabalho no mês de abril, o que levou a taxa de desemprego a uma nova mínima, de 3,6%. É a taxa mais baixa desde dezembro de 1969. Em fevereiro, foram criadas somente 20 mil novos postos, o que fez surgir dúvidas dentro do mercado acerca do ritmo de expansão do mercado de trabalho americano, com algumas opiniões considerando a possibilidade de uma alta no desemprego nos meses subsequentes. Porém, assim como defendemos na época, os indicadores macroeconômicos podem ter resultados insatisfatórios sem indicar, necessariamente, uma mudança na conjuntura. Para se confirmar tal mudança, é necessário analisar uma série maior.

 

No primeiro dia de maio, dois dias antes da divulgação do payroll, foi divulgado ao mercado que o Federal Open Market Comittee (FOMC) decidiu pela manutenção da taxa de juros no patamar atual de 2,25% a 2,5%. As expectativas do mercado financeiro eram de uma queda na taxa de juros, o que desencadeou um movimento corretivo nos ativos de risco, porém a decisão se mostrou correta diante da realidade vivida pelos Estados Unidos. A posição de Jerome Powell, de ser paciente diante do cenário atual, se mostrou correta. Os números inflacionários do país não apresentam nenhum sinal de alerta, a leitura do CPI mostra que a inflação dos itens, se desconsiderarmos commodities e o setor de energia, muito mais suscetíveis à flutuação do mercado internacional, foi de 2% na taxa anualizada, exatamente no alvo do Fed. O mercado de emprego, mesmo considerando que os formadores de política monetária não tinham essa informação na época da decisão, continua a se mostrar ávido. Além do mais, não consideramos razoável a alternativa de baixar juros para gerar mais empregos, visto que a economia americana já vem em um patamar muito satisfatório nesse quesito. Acreditamos que os Estados Unidos devem sofrer uma queda em sua taxa básica de juros, devido a uma leve desaceleração econômica unida a um aumento nos índices inflacionários, porém, somente no durante o quarto trimestre do ano, quando a taxa ficará no intervalo entre 2% e 2,25%, aonde encerrará 2019.  

 

Já no quadro político, Donald Trump já não é tão enérgico como era durante 2018 e negociações acerca das tensões comerciais continuam em andamento. A China tem muito interesse em retomar as livres negociações comerciais com a principal economia do planeta, tendo em vista a desaceleração econômica que vem atingindo o país asiático e os números de sua balança comercial, que sofreram uma queda substancial em fevereiro. Porém, observamos que as negociações, apesar de estarem ocorrendo, parecem estar somente esfriando as tensões, mas não está revertendo as sanções já impostas. O que Trump parece estar fazendo é simplesmente ganhando tempo. Seu país vem em um ritmo de crescimento impressionante nos últimos trimestres e uma retomada das livres negociações comerciais, no curto prazo, iria aquecer ainda mais o eufórico mercado americano. Há de se debater os efeitos no médio e longo prazo para os Estados Unidos, porém a preocupação do presidente pode estar exatamente no curto prazo, em tentar manter a economia americana em estado de boom até as próximas eleições. O caso de uma desaceleração no crescimento econômico americano deverá incentivar o republicano a acelerar as negociações.

 

Quanto ao crescimento chinês, o governo de Xi Jinping continua lutando para manter o país crescendo em um ritmo maior do que 6% ao ano. Anteriormente, haviam preocupações acerca do nível de endividamento do país, que chegou aos 250% do PIB, o que fez o governo endurecer as condições de crédito no início de 2018. Porém, a eclosão da guerra comercial obrigou o estado chinês a voltar a adotar uma política expansionista para manter o crescimento econômico e fazer frente às investidas americanas. O resultado atual das disputas parece favorecer os Estados Unidos, que aceleraram o seu ritmo de crescimento nos últimos trimestres, porém a China segue forte, com uma recuperação significativa sendo observada nos resultados de sua balança comercial, que viu seu superávit saltar mais de 14% no mês de março, atingindo 20,5 bilhões de dólares. As exportações chinesas para os Estados Unidos cresceram 3,7% enquanto as importações de produtos americanos despencaram 25,8%, com os produtores chineses passando a buscar novos fornecedores. Uma queda tão substancial das importações dificulta o trabalho de se mensurar até que ponto esse fato está relacionado à mudança nas preferências dos produtores ou à desaceleração da demanda interna, reflexo de uma economia mais debilitada, evento que já se sabe que está acontecendo na China.

 

A atenção também se volta para os índices inflacionários chineses, que podem trazer pistas sobre a demanda interna. O CPI chinês bateu os 2,3% depois da divulgação dos números de março, porém parte desse movimento se deve à alta dos preços na carne suína, fato que também deverá acompanhar o índice de abril, devido aos efeitos da peste que assola os animais em território chinês. O CPI está em 1,8% se desconsiderarmos os efeitos de produtos alimentícios, muito abaixo da meta chinesa, de inflação de 3% ao ano.

 

De acordo com o PMI da indústria chinesa, o setor perdeu ainda mais força na reta final de abril, com o índice caindo para a marca de 50,1 pontos, o que indica estagnação. Resultados acima de 50 pontos indicam crescimento, enquanto resultado abaixo da marca sinalizam contração do objeto de pesquisa. Em março, os dados da indústria da China haviam sido muito satisfatórios, o que animou o apetite por risco global, porém a divulgação do último PMI mostra que, aparentemente, março foi somente um mês atípico. A indústria da China vem amargando resultados fracos há muitos meses e o início do segundo trimestre não indica uma reversão na tendência, mesmo com os esforços do governo de Jinping.

 

Para a economia brasileira, a situação segue muito delicada, com uma retomada ainda muito lenta do crescimento, assim como vem ocorrendo nos últimos quase 2 anos. Os principais indicadores do mês de abril foram referentes ao emprego, com as pesquisas do CAGED e do IBGE, e ao crescimento econômico em si, com a divulgação do IBC-Br e dos dados da produção industrial.

 

No que tange os números da indústria do país, a passagem de fevereiro para março marcou o pior resultado desde setembro de 2018, com a produção industrial recuando 1,3%. Já o faturamento da indústria, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), caiu 6,3% no mês de março. Os números evidenciam a dificuldade que o setor vem tendo para conseguir uma sequência de bons resultados, uma inconstância que vem ocorrendo desde a greve dos caminhoneiros. A falta de demanda interna é determinante para o abatimento da produção industrial e é a consequência de uma economia que vive em um estado de estagnação e redução de renda há anos. O IBC-Br corrobora para a situação muito delicada da economia, com sua última divulgação mostrando uma redução de 0,73% na atividade econômica brasileira no mês de fevereiro.

 

A situação do emprego também segue mostrando um quadro negativo: a pesquisa do CAGED referente a março mostrou o fechamento de 43 mil vagas com carteira assinada, enquanto o dado do emprego do IBGE mostrou uma alta no desemprego, que atingiu 13,4 milhões de pessoas, o que equivale a 12,7% da população. No dado do CAGED, o que ganha relevância, além do fechamento de postos de trabalho, é a queda nos salários das novas admissões ocorridas no mês, que tiveram um pagamento médio 0,51% abaixo do observado no mês anterior. O salário pago no momento das demissões foram 1,69% menores do que o observado em fevereiro. Isso mostra que, além da destruição da renda, o perfil das demissões vem ocorrendo em níveis menos qualificados do que ocorreu no mês anterior. Quanto aos números do IBGE, a taxa se elevou para o patamar de 12,7% da população, o que é negativo para a economia. Porém, o fator determinante para esse resultado é a sazonalidade envolvida na análise dos dados, com o início do ano sendo marcado pelas dispensas que seguem a virada de ano, para se ajustar à demanda normal.

 

Já afirmamos no Editorial de março que, considerando os fatores econômicos, há espaço para uma redução da Selic para 6,25%. E os dados de produção e emprego seguem em acordo com essa linha de pensamento. Porém, um fator que sofreu uma mudança relevante no último mês foi a inflação, negativamente correlacionada com a taxa de juros. O IPCA anualizado está na marca de 4,5%, um patamar um tanto alto se olharmos para a meta do governo, de 4,25%, e se olharmos para o mercado recessivo do país. Acreditamos que, passado o mês de junho, que foi marcado pela greve dos caminhoneiros e “contaminou a amostra”, devemos notar uma queda relevante no dado anualizado do IPCA, o que deve seguir apontando para a possibilidade de queda nos juros, considerando a aprovação da reforma da previdência.

 

Escrito por: Matheus Bulascoschi

 

 

 

NEWSLETTER

Postagens Populares