"> Uber: Uma nova Amazon ou Snapchat?

19 de Abril de 2019

Uber: Uma nova Amazon ou Snapchat?

Fomentadas pelo bom desempenho dos mercados americanos, muitas empresas estão optando por abrir seu capital nas bolsas de valores. Há cerca de 3 semanas, a Lyft, empresa do setor de transporte por aplicativo, abriu o seu capital e chamou a atenção do mercado devido ao seu valuation ambicioso. O resultado não foi dos melhores para os acionistas que se posicionaram durante o IPO, com as ações da empresa abrindo suas negociações cotadas a US$ 87,24 no dia 29 de março e acumulando uma queda de 31,78% até o fim do pregão do dia 17/04, cotadas a US$ 59,51. Agora, o tópico mais comentado no mercado americano, e potencialmente mundial, é o IPO da empresa que sempre liderou esse setor: a Uber.

Apesar de a empresa ser claramente a dominante no seguimento, muitas dúvidas surgiram acerca de sua estrutura financeira e da sua capacidade de gerar valor no médio prazo. Assim como a Lyft e a maioria das empresas do setor de tecnologia, a Uber passou os primeiros anos de sua existência se concentrando em aumentar a sua participação de mercado, mesmo que isso significasse perder dinheiro, o que pode ser observado pelo fluxo de caixa passado da empresa. A estratégia é muito difundida no setor de tecnologia e um dos grandes exemplos de sucesso dessa tática é, sem dúvida alguma, a Amazon. Basicamente, a empresa se endivida no longo prazo para conseguir baixar os seus preços a ponto de superar qualquer concorrência. Quando a empresa já está consolidada, com uma participação satisfatória no seu mercado, ela começa a aumentar os preços para conseguir pagar os altos endividamentos. Agora, a Uber tem que partir para a segunda fase dessa estratégia: usar a grande base de clientes para começar a gerar fluxos de caixa consistentes nos trimestres vindouros, porém não é o que parece se desenhar no futuro próximo da companhia.

Na sexta-feira (12), a Uber lançou ao público o seu relatório S-1, com informações financeiras para orientar os potenciais investidores acerca da situação real da empresa, visto que, até agora, os números operacionais da companhia nunca haviam sido conhecidos. A leitura desse relatório trouxe uma certa decepção para o mercado. Agora o público sabe que a situação da Uber apesar de parecer boa, inicialmente, com um crescimento sólido de 42,11% das receitas, que atingiram 11,27 bilhões de dólares, um lucro líquido de 997 milhões de dólares em 2018 e uma participação de 69% no mercado de transporte por aplicativo nos Estados Unidos, não é tão favorável assim. Com uma análise mais aprofundada na real situação da empresa, a situação começa a se mostrar mais complexa. Apesar de o lucro líquido ter batido os 997 milhões de dólares, o EBITDA ajustado foi negativo em US$ 1,85 bilhões, a participação de mercado vem caindo dramaticamente, com a Uber perdendo espaço para a Lyft, sua única concorrente real nos Estados Unidos. Adicionalmente, a própria empresa vê como impossível o alcance de lucratividade real no curto prazo e mina as expectativas para o médio prazo.

No que tange o fator de concorrência, é necessário chamar a atenção para a imagem da Uber tanto perante aos órgãos reguladores e governos quanto para os clientes. Sua principal rival no mercado americano, a Lyft, não teve nenhum caso relevante de conflitos com nenhum desses citados, já a Uber, por outro lado, teve muitos casos nas diferentes frentes. Quanto aos governos, provavelmente à sua natureza pioneira em um setor que era dominado por oligarcas e lobistas, a companhia travou diversas batalhas judiciais e explorou nos limites das legislações para se estabelecer, sempre contando com um preço “subsidiado” pelo capital de terceiros. No próprio relatório S-1 a empresa admite que a falta de desenvoltura nesse início de existência arranhou a sua imagem perante a governos e, principalmente, entidades reguladoras e que isso deve ser tratado no futuro. Além disso, a empresa se envolveu em diversos escândalos, desde casos envolvendo abuso sexual de motoristas como de funcionários da central a até casos de funcionários da empresa espionando celulares de pessoas de interesse. O peso da inovação também cobrou seu peso para a imagem da empresa, com casos de carros autônomos infringindo leis em São Francisco. Isso sem contar a tragédia que foi o movimento #DeleteUber, que fez com que cerca de 200 mil pessoas deletassem suas contas. Cada vez mais, a Lyft vem se aproximando da Uber em participação de mercado e, se as coisas continuarem dessa maneira, a previsão não é tão favorável para o futuro da companhia.

 

Participação de mercado da Uber e Lyft nos Estados Unidos. Fonte: CNBC

 

Voltando para o balanço de riscos do relatório, a empresa admite que teve prejuízo operacional de US$ 4 bilhões em 2017 e de US$ 3 bilhões em 2018 e adianta que as despesas operacionais vão crescer ainda mais no curto prazo a medida que ela continuará a tentar atrair novos motoristas, restaurantes e comércios em geral para a plataforma através de descontos e promoções; tentará, também, se inserir em novos mercados ainda não divulgados, assim como foi no caso da Uber Eats e da Uber Freight; gastará mais com marketing e etc. Pelo lado das receitas, o próprio relatório prevê a possibilidade de uma queda nas receitas, advinda da necessidade de novos incentivos para manter sua posição em um mercado cada vez mais competitivo (página 26). A conta simplesmente não fecha. Um mercado mais competitivo no meio de aplicativos significa uma contínua queda de preços, comprimindo as margens das empresas envolvidas. No caso da Uber, essas margens basicamente nunca existiram para que a empresa conseguisse dominar o mercado, agora haverão investidores cobrando lucratividade, em um momento que isso é justamente o contrário do que deve ocorrer.

Trecho do relatório em que a empresa admite a possibilidade de um futuro muito difícil à frente.

 

O diagnóstico do processo de abertura de capital da Uber é muito semelhante com o que falamos sobre a Netflix, uma empresa cada vez mais engessada por uma estrutura de capital endividada, com desafios muito relevantes acerca da geração de receitas e que começará a passar pelo escrutínio dos investidores do mercado aberto. A posição da empresa de tentar impulsionar o seu IPO usando como justificativa a sua participação de mercado não é algo muito sensato, se pensarmos no longo prazo. A Uber vem tendo problemas no core de suas operações, o ramo de transporte de pessoas, e vem perdendo espaço para outras marcas. A tentativa de se expandir para novos mercados é muito boa, mas não basta somente entrar nesses mercados, é necessário ter uma operação financeiramente sustentável. Os setores em que atuam o Uber Eats e Uber Freight são espaços que não foram explorados por uma empresa especializada anteriormente: as empresas sempre contratavam funcionários para executar esses serviços. Agora que a Uber entrou para suprir esse espaço, outras virão atrás e, até agora, o desempenho da Uber frente à concorrência não tem sido realmente satisfatório. As receitas vêm subindo muito, mas isso se deve muito mais ao crescimento do segmento do que à eficiência operacional. Caso o mercado decida pagar o que a Uber pede em seu IPO, podemos esperar muita oscilação nos preços das ações no curto prazo a medida que os resultados começarem a acabar com a euforia. No momento, a invés de se preocupar com o quanto vai se arrecadar em seu IPO, a prioridade da companhia deveria ser em se transformar em um caso de sucesso como a Amazon e não um ex-líder de mercado engolido pela concorrência, como foi o caso do Snapchat.

 

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