"> Los Hermanos e sua “eterna” crise - Parte 3 de 3

11 de Abril de 2019

Los Hermanos e sua “eterna” crise - Parte 3 de 3

 

Um Artigo por: Welker Abner de Oliveira

 

Uma breve retrospectiva - Uma vez considerado como um prodígio sul-americano, a Argentina veria sua realidade econômica e política mudar drasticamente no século XX, o que se acentuaria tragicamente com a ascensão do regime militar, trazendo uma série de problemas ao país. A saída democrática, com Alfonsin, por outro lado, não pôde trazer melhores condições econômicas, marcando a Argentina com níveis inflacionários históricos que traumatizaram toda uma geração, de modo a despertar na população a necessidade de mudanças, mudança essa que viria através de Menem, mas bem… a  frase “cuidado com o que deseja” certamente encontrou-se bem materializada no governo do peronista.

Assim, precocemente instituído, o presidente, junto de seu famigerado ministro Cavallo, implementou a chamada Paridade com o Dólar, medida que, em linhas gerais, funcionaria sob três principais fatores: estabeleceria a relação de 1:1 entre o peso argentino e o dólar estadunidense firmada constitucionalmente; permitiria livres transações entre o uso do dólar e do peso a qualquer relação econômica de forma igual e, por fim, garantiria o depósito e saque de ambas as moedas, também como iguais. Cavallo, que ficaria pouco tempo em seu cargo, esperava assim garantir uma maior atração de capital ao país, o que se somou a fortes investimentos governamentais e à venda de uma série de estatais (se tornando então o “bom exemplo da classe”, pela agenda do FMI), o que em um momento inicial combateu ferozmente os índices inflacionários, contudo, eventualmente, por fatores internos e externos, o peso se mostraria cada vez menos valoroso em relação à sua prima (mais bem-sucedida) estadunidense,  de modo que cada vez mais empréstimos foram necessários para manter o fluxo de divisas cada vez mais acentuado, o que elevou o endividamento externo e a crise entre los hermanos.

Por fim, (se tornando então o “mau exemplo da classe”, pela agenda do FMI) os fundos internacionais acabariam por desistir dos empréstimos à Argentina, ao passo que De La Rúa, presidente na época, imporia limites nos saques semanais para evitar a sangria que se formava na perda de divisas, fazendo com que a população entrasse em revolta total, de modo que tanto o presidente, como o ministro, Cavallo (que impressionantemente tinha voltado ao seu cargo), teriam de renunciar às pressas.

Se arrastando para fora da crise, a Argentina entraria, já em 2002, na chamada Era K. Com um governo mais desenvolvimentista e atento às pautas sociais, porém um tanto custoso aos cofres públicos. Os Kirchners se tornaram um marco bastante presente, a bem e a mal, conseguindo , por certo  período reduzir, o déficit público negociando com seus fundos credores, contudo, a parte deles, os chamados Fundos Abutres, a situação não foi tão favorável, de modo a reverter todo processo positivo e acentuar os déficits públicos com gastos internos e a recompra de algumas das estatais vendidas durante o governo Menem. Christina Kirchner terminaria seu mandato com um novo pico de dívidas públicas (algo bem comum entre os presidentes anteriores, na verdade), deixando a população impaciente e necessitante de mudanças (mais uma vez), cenário no qual Macri, no fim de 2015, assumiria a presidência, prometendo então resolver essa “eterna crise” que assola los hermanos.


 

A esperança (?) liberal


 

Mauricio Macri - O empresário, engenheiro civil e político argentino, Mauricio Macri, surgiu nas eleições presidenciais argentinas como uma renovação política. Concorrendo à presidência pela coligação de direita Mudemos, estava num espectro político divergente da agenda centro-esquerda kirchnerista que levou a Argentina, após a derrota judicial contra os chamados Fundos Abutres, a um pico da dívida externa.

Sob essa perspectiva, o ex-prefeito de Buenos Aires, representava o novo. Um candidato liberal, sintonizado ao mercado e capaz de conter uma nova derrocada na economia do país, desenvolvendo o comércio, reduzindo gastos e assim assumindo em 10 de dezembro de 2015, prometeu um teto inflacionário de 25% durante o ano de 2016. Contudo, décadas de uma economia cambaleante não seriam tão fáceis de se domar, o primeiro ano se encerraria com um índice próximo a 41%, ao que se consta Macri dobrou sua meta.

 

(Atual Presidente argentino, Mauricio Macri - dez, 2015)


 

O novo governo - Iniciando seu governo dentro de situação econômica delicada, com sérios déficits públicos, dificuldade de crescimento e uma inflação em expansão, Macri assumiu uma agenda liberal de clara inflexão às medidas dos Kirchners, com uma série de medidas com um viés liberal, insistindo em reformas como fórmula para solucionar a crise argentina. Nesse aspecto, vale ressaltar a importância das eleições presidenciais que ocorrerão neste ano, o que nos induz a observar o governo Macri como um todo, de modo que possamos entender suas falhas e acertos, tal como os próprios resultados práticos sobre a sociedade e economia do país, tal como também esboçar os possíveis cenários futuros que aguardam nosso hermanos. Assim, buscaremos observar um pouco mais das primeiras medidas adotadas por por Macri e seus respectivos resultados; em seguida, abordaremos de formas mais profunda o endividamento argentino e o financiamento obtido pelo FMI; paralelamente realizaremos uma breve contextualização do cenário econômico mundial e suas consequências ao agravamento da crise e, por fim, iremos analisar alguns dos possíveis cenários ao país aos anos seguintes.

Podemos então destacar três principais mudanças imediatas adotadas por Macri:

 

A revogação do controle cambial - Uma das primeiras medidas tomadas pelo novo Presidente em 2016 foi a revogação do controle cambial. Em outras palavras, as pessoas agora conseguiram adquirir livremente as divisas estrangeiras conforme suas vontades, contudo, como havia uma demanda reprimida pelo dólar estadunidense, a liberação fez com que a taxa de câmbio disparasse de algo em torno de 9,5 a mais de 15 pesos por dólar em um curto espaço de tempo.

Apesar do surto cambial, Macri seguiu a favor da medida argumentando que esta era necessária para atrair investimento estrangeiro, ademais também se projetava que de tal forma se reestabeleceria a normalidade no comércio exterior, permitindo a busca por novos parceiros comerciais e consequentemente uma dinamização da economia argentina, contribuindo então para uma recuperação do crescimento.

 

A restauração do Indec - Macri atuou rápida e diretamente sobre o Indec, órgão de estatística pública que havia sofrido intervenções governamentais em 2007 e moção de censura pelo FMI em 2013. Assim fazendo com que o órgão recalculasse alguns levantamentos econômicos como a inflação e o PIB de todos os anos da Era K, o que revelou um claro choque de datos, mostrando um crescimento mais reduzido e, paralelamente, um processo inflacionário mais acentuado, gerando grande comoção dentro da Argentina.

Argumentava-se que somente assim se poderia recuperar a credibilidade do Indec, permitindo uma maior segurança aos investidores e atraindo mais capital ao país.

 

O Tarifaço - Como meio de elevar suas receitas, o governo argentino instituiu um reajuste de tarifas em diversos setores, entre os quais se destacaram: energia elétrica; gás; água e afins. Afetando diretamente a população, sobretudo a mais carente, e gerando grande repercussão popular. Isso principalmente pela magnitude das mudanças, isto é, foi-se registrado, em algumas regiões da Patagônia aumentos que chegavam até 2.000% (dois mil porcento). Como resultado, a inflação sofreu uma mudança brutal e, como dito, a população mais pobre sentiu no bolso o resultado do encarecimento, de modo que Macri angariou a si forte antagonismo por parte da população ainda em seus primeiros meses de mandato.

Segundo o presidente, tais medidas foram um reajuste necessário à economia, isso pois os governos anteriores acabavam por represar algumas tarifas gerando dispêndios em demasiados elevados às contas públicas, de tal forma, sob a prerrogativa de atacar a dívida externa e melhorar definitivamente os índices econômicos, ações mais duras deveriam ser tomadas. Por outro lado, a alteração, sobretudo por sua velocidade, sofreu diversas críticas, algo razoavelmente plausível, isto é, de fato a absorção de um reajuste de tamanha magnitude foi uma tarefa um tanto problemática à população.


 


 

(Protestos contra o aumento tarifário - ago, 2016)

 

Ademais, Macri também investiu grandes esforços para restabelecer o comércio internacional argentino. Nesse sentido, percebeu-se uma maior busca por integração internacional, o que se realizou através da flexibilização comercial, facilitando importações e exportações. Somou-se ainda a isso a anistia financeira àqueles que trouxessem dólares ao país, visando assim permitir a entrada de divisas que foram enviadas ao exterior sem informações corretas prestadas ao governo argentino, a exemplo o dólar blue, o que veio como uma forma de aumentar a arrecadação de mais impostos.

 

Reflexo econômico - Ao fim das contas, a onda de otimismo em torno de Macri acabou por se revelar um tanto frustrada. Ainda em 2016, o país registrou uma inflação de 41%, maior resultado em 25 anos. Com isso, os alimentos tiveram alta de 33%, as contas básicas de 77% e o imposto sobre o aluguel de 30%. Ademais, o desemprego e a pobreza também subiram, fechando o ano, respectivamente, com taxas de 9,3% e 32,2%.

Já em 2018, segundo um anúncio feito pelo próprio Presidente em uma entrevista no fim de julho, a inflação estaria, apesar de ainda alta, mais controlada, em suas palavras à Radio Cadena 3: “Vamos terminar este ano com uma inflação de cerca de 30%, infelizmente, resultado desta tormenta e da alta do dólar". O fim do ano, contudo, seria marcado duramente por tais altas nas taxas de juros estadunidenses de modo que as previsões de Macri, um tanto otimistas, seriam completamente frustradas, 2018 se encerraria com uma inflação de 47,6%, maior resultado dos últimos 27 anos.

Isso pode ser explicado, sobretudo, pela política de expans adotada pelo governo kirchner e ampliada durante o mandato de Macri. A constante expansão da base monetária produziu uma desvalorização no preço da moeda, por consequência, a própria política cambial passa a ser afetada, disparando o dólar e proporcionando uma fuga dos investidores.

 

(Expansão da base monetária argentina)

 

Paralelamente ao avanço inflacionário, a dinâmica cambial atual contra o peso argentino, como dito anteriormente, agindo em reflexo da perda de poder de compra da moeda.

 

(USD/ARS - Taxa cambial entre o peso argentino e o dólar estadunidense)

 

Assim, a situação argentina que, a certos setores da sociedade, parecia estar melhorando, agora se apresenta bastante insatisfatória em um nível generalizado. Nesse sentido, ainda em 2017, o crescimento econômico do país foi bem reduzido, contudo certas melhoras foram identificadas - o setor agropecuário é um bom exemplo, começando a mostrar certos avanços. Ademais, registrou-se ainda um aumento de 2,8% no PIB do país durante o ano, situação que se manteve favorável durante o começo de 2018, contudo, o país se veria fadado a retrair-se novamente, encerrando o ano com uma retração de 2,6% em seu Produto Interno Bruto. Os resultados foram, porém, parcialmente compensados por certas melhoras durante 2018, o que se manifestou, sobretudo, através da redução déficit fiscal do país, de modo a conseguir contrair o índice a 2,4%, resultado inferior à meta estabelecida pelo FMI, de 2,7%, conforme abordaremos a seguir.

Desta forma, 2018 se encerraria assim como um ano, em suma, negativo à economia argentina. Conforme o ano passava e a situação comercial internacional tornava-se mais instável, o país veria seus índices alcançarem níveis alarmantes, além dos índices já apresentados, registrou-se um desemprego que, embora não tenha aumentado significativamente, alcançava cerca de 9% (índice que só não se tornou mais elevado pelos custos das demissões no país) e a perca de poder de compra em cerca de 10%, resultados que vêm em paralelo com uma dívida pública de cerca de 80% do PIB, ao passo que se prevê uma inflação de pelo menos 30% a 2019. Neste ponto, Macri ainda se viu sobre séria resistência do congresso quanto algumas das reformas que tentou realizar, tal como foi o caso da mudanças de leis trabalhistas, de modo a piorar ainda mais a imagem de seu governo, já bastante afetada pelo aumento do trabalho informal, que ronda 35%, além do aumento dos indicadores de pobreza, que chegaram em 33,6% (aumentando quase 5 pontos desde o início da gestão Macri).

 

(Foto de produtos de limpeza em supermercado argentino - jan de 2019)


 

A batalha contra a crise

 

A dívida - Para melhor compreender a complexidade dos problemas econômicos argentinos, faz-se necessário atentar-se ao déficit orçamentário pelo qual o país passa.

 

(“Orçamento do governo argentino - porcentagem do PIB”)

 

(“Composição da dívida pública em milhões de dólares”)

 

Os cortes orçamentários apresentados por Macri começam a reverter a situação, contudo ainda de modo bastante incipiente. Assim, somado aos gastos durante o governo Kirchner , o próprio gradualismo de Macri foi visto, pela comunidade internacional, como uma grande pedra no sapato argentino. Neste ponto, apesar de se apresentar desde o início como uma figura liberal, o presidente argentino se viu acuado em meio a um cenário de forte participação sindical e uma já constante insatisfação pública, de modo que logo ao assumir seu mandato instituiu um aumento previdenciário e a certos cargos do funcionalismo público (o caso dos professores foi um bom exemplo). Paralelamente, grandes privatizações foram também evitadas, o que, somado aos ajustes insatisfatoriamente lentos, do ponto de vista dos investidores, acabou por culminar na retomada do dólar e, em linhas gerais, dos problemas argentinos, acentuando os problemas já conhecidos (alta na taxa de juros, inflação, fuga de divisas etc.). Por outro lado, o gradualismo de Macri, como já dito, não vem por acaso, isto é, as medidas como o tarifaço, extremamente repudiadas pela população, foram um bom reflexo do outras medidas mais radicais significariam.

Vale notar que o déficit médio dos últimos 3 anos de países com, o que é considerado, uma alta chance de “quebrar” (realizar calotes), como a Itália e a Grécia, por exemplo, corresponde a respectivamente 2,6% e 2,5% (o resultado grego é mais negativo pois é referente ao período de 2014, atualmente o país conseguiu um pequeno superávit). Nesse sentido a Argentina (com cerca de 4,63%)  perde somente para o Brasil (caso um pouco à parte), com um déficit médio nos últimos anos de 8,25%. Em valores absolutos, calcula-se que a dívida argentina, ao fim de 2018, correspondia a aproximadamente US$ 500 bilhões, resultado que já se soma com os recentes empréstimos obtidos através do FMI.

 

O financiamento da dívida - Mais do que a magnitude da dívida, a maior ameaça à Argentina são as parcelas às quais tem de arcar. Nesse sentido, percebe-se os EUA e o Japão como exemplos de países com dívidas astronômicas, porém com êxito financeiro em decorrência de suas taxas de juros - quase nulas no caso japonês. Por outro lado, como dito anteriormente, a taxa de juros chegou em 2018 a 45%, para então passar a índices que beiraram 70% ao ano, ou seja, utilizando uma alta taxa de juros como forma de atrair e manter o capital internacional dentro do país, o governo argentino acaba também, através da própria taxa, por dificultar o pagamento da dívida, o que vem como um sinal de alerta ao mercado.

 

(Visão geral do retorno dos títulos de um ano da Argentina)

 

Vale notar que, conforme a taxa dos títulos aumenta, o risco de impossibilidade de pagamento, portanto, calote também se amplia. Nesse sentido, apesar de ainda se manter longe dos picos recentes, a ascensão da taxa preocupa, isto é, dígitos que permeiem os 40% a 50%, como ocorreu no meio de 2018, indicam a iminência de uma possível inadimplência governamental acentuado, algo relativamente estranho à maioria das grandes economias mundiais, contudo, no caso argentino, se manifestaria como seu quinto calote argentino desde 1980.  

 

Os juros e o FMI - Nesse sentido, voltamos ao começo do artigo, quando apresentamos as gritantes taxas de juros argentinas.

Conforme surge a perspectiva da inadimplência governamental, a fuga de capital dentro do país fica cada vez mais alarmante, vide a taxa cambial. Como consequência, um efeito bola-de-neve se instala dentro do país, isso pois cada vez mais as pessoas param de comprar títulos de dívidas públicas temendo o calote, o que resulta num aumento maior da taxa, paralelamente se inicia a fuga de capitais estrangeiros, que, fazendo o mercado entrar em pânico, gera mais fuga de capital estrangeiro. Tal fuga diminui o número de divisas no país, gerando uma valorização do dólar em detrimento de uma diminuição do poder de compra do peso argentino e, portanto, o acentuamento do processo inflacionário, que por sua vez também incita todos eventos anteriores.

Ou seja, caos econômico.

Para conter o processo, Macri se utilizou, basicamente, de três principais medidas. Neste ponto, além da política de juros, já amplamente exposta, o presidente ainda atuaria sob dois outros pontos:

 

Maior arrecadação da receita - Apresentamos anteriormente a implantação dos tarifaços, responsáveis por um evidente desconforto social, ao passo que também, segundo o governo, necessário e efetivo. Contudo, além disso, também se instituiu um corte de gastos públicos, um dos momentos mais sintomáticos da ação foi quando se anunciou o corte de 25% de cargos de apontamento do Poder Executivo.

A medida de corte de gastos públicos pode parecer, porém, um tanto insubstancial economicamente, visto por exemplo os gastos nacionais com a mesma, contudo o quadro argentino diverge consideravelmente ao do Brasil. A Argentina, com sua população de 43,85 milhões de pessoas, tem cerca de 4 milhões de funcionários públicos, o que corresponde a aproximadamente 9% da população, portanto enxerga-se aí um possível setor passível de corte de gastos.

A título de comparação, o Brasil, país expressivamente maior, tem 4,2% de sua população como funcionários públicos, os números absolutos brasileiros são efetivamente maiores, contudo em quantidade per capita, os números de nosso país são proporcionalmente muito inferiores.

Por outro lado, ainda buscando o aumento das receitas, Macri e seu ministro da economia, Nicolas Dujovne, estabeleceram um polêmico imposto sobre suas exportações, o que significou a taxação de 4 pesos por dólar de bens primários, incluindo alimentos, e 3 pesos por dólar dos demais produtos. A medida, que causou grande desconforto dentro do mercado, resume bem o caótico estado atual no qual a economia se encontra.

 

 

O FMI - Antes de tudo, é preciso entender que os empréstimos obtidos pelo FMI não são utilizados para o pagamento das dívidas estrangeiras do país. A grande necessidade de empréstimo é, na verdade, a criação de um fundo de reservas internacionais, uma espécie de caixa que corresponderia ao lastro do peso argentino.

O grande ponto é passar uma mensagem aos investidores e, no caso argentino, à própria população (grande adepta ao uso do dólar). Uma vez que portem os pesos, cria-se certa insegurança quanto o depreciamento da moeda, assim, realizando um empréstimo do FMI, garante-se que haverá a possibilidade de troca de divisas quando necessário - a medida foi, inclusive, implantada no Brasil durante o plano real, acalmando os investidores nacionais e internacionais de forma a garantir que não houvesse grandes recuos no mercado.

A medida vem sendo um dos carros-chefe na política de Macri. A inconstância do mercado fez com que, no fim do primeiro semestre do ano de 2018, a reserva de dólares se reduziram em cerca de 9% dentro de 15 dias, em outras palavras, foi-se “queimado” cerca de US$ 5 bilhões em duas semanas como forma de retenção da queda do peso argentino.

A medida tem sido olhada com certa insatisfação popular, principalmente pelas condições de empréstimo aplicadas pelo Fundo Internacional, condições essas que exigem um certo comprometimento fiscal que se traduz em um corte de gastos.


 

(Manifestação em Buenos Aires contra as medidas econômicas adotadas por Macri - 2018)

(“Chega de demissões” - Manifestação contra corte de gastos estabelecidos por Macri - Buenos Aires, 2018)

 

Por fim, em maio deste ano, o FMI enfim concedeu o empréstimo à Argentina. Nesse sentido, no mês seguinte, o governo argentino anunciou uma arrecadação de divisas no valor de US$ 50 bilhões, cifra que, em setembro, se expandiu a US$ 57,1 bilhões, maior valor já negociado entre o país e o fundo.

De tal forma, a Argentina não assume somente o empréstimo, mas também a missão de reduzir seu processo inflacionário até a marca de 9% até 2021, conforme acordado em contrato com o FMI.

Vale ainda notar que o fundo monetário internacional, apesar de exigir uma série de requerimentos fiscais, apresenta uma das melhores taxas de juros do mercado, o que se traduz em um interessante meio de captação de divisas à economia argentina. De tal forma, fazendo Macri aderir aos requisitos contratuais (redução inflacionária) do órgão, que por sua vez significa adotar uma medida de rápido ajuste econômicos, lê-se aí os tão infames tarifaço e corte de gastos, fazendo com que a população repudie o fundo internacional e sua aliança com o país.

 

(Respectivamente, a Diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, e Presidente da Argentina, Mauricio Macri, em encontro de resolução do acordo de empréstimo - 2018)



 

Outros condicionadores da crise

 

A ascensão do dólar - Apesar de ser um golpe exclusivamente mais duro à Argentina, a valorização do dólar tem ocorrido do norte ao sul, causando um distúrbio cambial global. Os motivos ainda são bastante discutidos e há diversos choques de narrativas, afim de evitar aqui juízos de valor, nos limitaremos a admitir somente o fenômeno em si.

Nesse sentido, num processo inédito em anos, o Banco Central estadunidense passou a subir consideravelmente a sua taxa selic. Como resultado inicia-se a chamada “fuga de capital”, processo de migração das divisas em nível global, atingindo sobretudo as economias de cunho mais periférico, o que, nesse caso, se traduz basicamente a todo o globo com exceção da UE. Isso pois, com a alta da taxa dos juros estadunidense, a rentabilidade em investimento também se expande isso para entidades investidoras nacionais e internacionais dos EUA. O resultado é uma desvalorização monetária que vai desde a Argentina até a China.

Paralelamente a taxa de títulos do tesouro americano também tem sofrido reajuste. A medida, com um impacto absolutamente mais positivo do que o da Argentina, tem atraído cada vez mais do capital estrangeiro ao país, o que culmina na atração do dólar e dificulta o planejamento argentino, sugando cada vez mais de seus fundos de reserva.

 

Quebra de confiança estrangeira - Como visto durante o artigo, a comunidade internacional tem seus motivos para duvidar da confiabilidade argentina, contudo, mais do que os motivos apresentados, ainda há outros fatores a tornar o mercado receoso.

Nesse sentido, pode-se voltar à alta de juros americana, que produziu inclusive várias outras crises internas em outros país - a exemplo temos a situação turca - e aumentou a instabilidade do mercado.

Ademais, já numa esfera interna, a própria Argentina passa por um período político bastante conturbado. Com uma série de escândalos de corrupção, o país assusta investidores, um dos casos mais polêmicos é o da ex-Presidenta e senadora Cristina Kirchner, que começou a ser investigada no início de agosto sob suspeita de desvio de até US$ 160 milhões em verbas públicas, além de envolvimento com propinas e afins. Kirchner, que se diz perseguida politicamente, teve inclusive sua casa revistada no fim de agosto.

Por fim, a própria guerra comercial estadunidense passa a ser uma ameaça à cambaleante recuperação argentina. Como foco de atenção global, as imposições tarifárias e sanções econômicas realizadas pelo presidente estadunidense Donald Trump, tem também contribuído para a quebra de confiança estrangeira: o problema, exterior à Argentina, tem na verdade ameaçado o desenvolvimento da economia global. Nesse sentido, Macri já fez diversas declarações solicitando o apoio e união de parceiros comerciais - incluindo o Brasil - como forma de contornar o protecionismo de Trump.

 

(Atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump)

 

 

O futuro dos Hermanos

 

Atualmente um dos maiores condicionadores econômicos argentinos voltou a ser o FMI. Vale ressaltar que o empréstimo do órgão pode se converter rapidamente a algo negativo ao país, isto é, o fluxo financeiro deverá ser realizado durante os dois próximos anos, contudo, este só se manterá mediante ao cumprimento do acordo fiscal estabelecido entre o órgão e o país, algo que, caso falhe, pode resultar rapidamente em um novo processo de moratória dentro da Argentina, impressionantemente afundando ainda mais a economia do país, pondo-o em um estado ainda pior do no fim de 2015 e, talvez, até semelhante ao do começo dos anos 2000.

Ademais, a iminência das eleições presidenciais argentinas é outro fator de grande expoência para entender o futuro do mesmo. Neste ponto, considera-se fortemente a volta de Cristina Kirchner à corrida presidencial, candidata que traz consigo um claro antagonismo político e ideológico com o atual presidente (fator que pode, inclusive, incidir negativamente sobre os empréstimos do fundo internacional nos próximos quatro anos, caso eleita). Paralelamente, embora não tão expoente, Roberto Lavagna, ex-ministro da economia que atuou ativamente para retirar o país da crise de 2001, também se apresenta como um possível terceiro nome muito importante dentro da corrida presidencial, o que, porém, implica na necessidade de apoio do partido peronista, até então filiado com Cristina.  

Faz-se ainda necessário observar a própria possibilidade de um segundo mandato de Macri. Apesar dos recentes resultados econômicos bastante negativos, o presidente ainda acumula certa popularidade, o que parece um ponto chave à sua reeleição, algo que, contudo, também depende do decorrer dos próximos meses e da forma com que a economia argentina irá se portar.

 

(Casa Rosada -Sede da presidência da república argentina, em Buenos Aires)

 

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