"> Editorial - (Março/2019)

29 de Março de 2019

Editorial - (Março/2019)

O tema que dominou os noticiários durante o último mês foi a evolução do processo de saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit. Cada vez mais a primeira-ministra britânica, Theresa May vê seu capital político sendo drenado pela incapacidade de propor um acordo que agrade tanto o parlamento inglês e o bloco europeu, que tem se mostrado irredutível nas negociações. Tendo em vista a história do processo de transição, o acordo sempre foi algo difícil de se obter. Como ressaltado pelo professor de estudos europeus da Universidade de Oxford, Timothy Garton Ash, em um de seus artigos, as raízes que motivaram a população britânica a votar em maioria a favor da separação do Reino Unido foram majoritariamente ligadas à questão imigratória. Na época do referendo que ativou o artigo 50, a crise migratória vinda da Síria estava em seu auge, enquanto a economia britânica apresentava níveis satisfatórios, com isso a atenção da população se voltou para o problema da entrada de imigrantes na ilha e da soberania nacional ao invés de avaliar os impactos econômicos da decisão. Na época, o então primeiro-ministro, James Cameron, focou sua campanha justamente nesses impactos, advertindo a população do risco de a economia britânica perder o investimento estrangeiro, jogando a ilha em uma recessão, porém teve sua voz suprimida pelo temor popular.

 

Pouco tempo após assumir o cargo de Downing Street, Theresa May anunciou a convocação de eleições gerais para o parlamento britânico com a justificativa de “assegurar certeza e segurança para os anos à frente” do Reino Unido. A intenção era assegurar um parlamento favorável ao processo do Brexit, porém os grandes vencedores foram os integrantes do partido trabalhista, partido este que ganhou 31 cadeiras no processo. Com o resultado, May se viu obrigada a negociar com os partidos irlandeses para conseguir passar o texto, porém a questão das fronteiras irlandesas foi justamente o fator determinante para o fracasso que se pode observar das tentativas da primeira-ministra. Devido a um acordo estabelecido durante os anos 90, a fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte deve se manter aberta, porém, para alcançar o objetivo anti-migratório do Brexit, não faz sentido manter essa porta de entrada para o Reino Unido aberta a imigrantes, visto que a República Irlandesa não faz parte da união britânica. Uma das medidas propostas para contornar a situação foi manter a fronteira entre as irlandas aberta, mas impor restrições à fronteira da Irlanda do Norte com o resto do Reino Unido, jogando os partidos irlandeses para o espectro oposicionista à primeira-ministra.

 

No dia 27 de março, Theresa May, em uma tentativa desesperada, ofereceu a sua renúncia em troca da aprovação de seu texto para o Brexit. A primeira-ministra com segui perder o apoio de seu próprio partido conservador frente à posição irredutível da União Europeia e a confusão que se instalou na política britânica, em consequência de uma mudança no humor da população britânica desde o referendo de 2016. Vendo seu capital político esgotado, May já acredita que o processo de separação do Reino Unido do bloco europeu deva ser liderado por outra pessoa, mais alinhada com a visão atual do parlamento. Já foi mostrado, em Editoriais passados, a visão de que um Hard-Brexit deva ocorrer, tendo em vista a incapacidade da primeira-ministra britânica em articular com as partes envolvidas no acordo, porém não havíamos considerado a aceitação da extensão dos prazos para a aceitação do acordo. No início do mês, o parlamento britânico determinou que não permitirá que o Reino Unido saia da União Europeia sem um acordo, pondo um fim a essa possibilidade de que ocorra um Hard-Brexit, pelo menos por enquanto. Nesta sexta-feira (29), Theresa May foi derrotada pela terceira vez no parlamento, o que deve enterrar de vez o acordo proposto por ela e jogando o Reino Unido para mais incerteza para as próximas duas semanas. Agora, o prazo final para um acordo está no dia 12 de abril, daqui a duas semanas, e a primeira-ministra já avisou na Casa dos Comuns que não há tempo para que se costure um acordo. Do outro lado das negociações, a União Europeia já declarou que um “No-deal” é uma possibilidade real para o desfecho a ocorrer na segunda semana de abril. A visão proposta por esse quadro nos meses anteriores foi aparentemente refutada pelos parlamentares britânicos, porém ainda não foi mostrada uma alternativa real para a solução do impasse que não seja um aumento do prazo para as negociações, o que somente gera mais incerteza. Tendo em vista o aspecto contraditório das decisões do parlamento britânico e da inexpressividade da presença de May, é difícil e perigoso fazer palpites – e aqui não chamamos de projeções devido à imprevisibilidade envolvida nas decisões do parlamento. A conferir

 

Passando para a real situação econômica do Velho Continente, o ano começou lento e difícil para as economias da União Europeia. Neste mês, o Banco Central Europeu (BCE) cortou suas projeções de crescimento e inflação para a União Europeia, com o PIB devendo crescer 1,1% em 2019, ante uma expectativa de 1,7% anteriormente esperada. Já a expectativa de inflação para 2019 se reduziu de 1,6% para 1,2%. Com isso, o presidente da autoridade monetária, Mario Draghi adiou a primeira alta da taxa de juros pós-crise para 2020, sendo que essa alta era esperada para acontecer em setembro. O balanço de riscos para a comunidade europeia, adicionalmente aos riscos globais, como a desaceleração do crescimento chinês e os receios com a inversão da curva de juros americana, que preocupam todos os formadores de política monetária do um mundo, segue um ponto importante. A situação política da Itália ainda não teve um desfecho de fato, assim como o próprio Brexit, que segue se arrastando. Adicionalmente a isso, a Alemanha, líder do bloco europeu, vem enfrentando dificuldades relevantes para conseguir escoar sua produção, com a diminuição no comércio internacional. A economia alemã sempre se aproveitou de um ambiente benigno para a exportação, tendo a Europa como a base para sua balança comercial, porém, com um cenário mais protecionista que vem se moldando desde a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos, o país saxão vem tendo dificuldades para sustentar o crescimento econômico. Esses 3 fatores referentes a algumas das principais economias da Europa amarram as mãos do BCE, que não deseja arriscar uma decisão precipitada em um cenário tão permeado de incertezas. Anteriormente já havíamos manifestado nossa expectativa, de que a taxa básica de juros da Europa deva continuar em 0% durante todo o ano de 2019, porém aguardamos o desenrolar das situações políticas dentro da Europa para um maior detalhamento acerca do futuro da política monetária europeia.  

 

Nos Estados Unidos, o tema que dominou os noticiários no final desse mês foi a inversão da curva de juros de Treasuries, com a taxa paga para títulos de 3 meses ficando acima da taxa paga para títulos de 10 anos. O assunto já foi abordado no Editorial de dezembro 2018, quando houve a inversão das curvas de tempos de maturação diferentes, e a questão sendo ponderada é o risco de recessão no horizonte da economia americana. Desde 1956, todas as inversões na curva de juros americana foram seguidas por uma recessão. Quando há uma inversão na curva de juros, instituições que são devedoras de curto prazo e credoras de longo prazo, como é o caso de bancos, e isso diminui a oferta de crédito para a economia, visto que o investimento em títulos de curto prazo passa a ser mais vantajoso. Basicamente, o que começa a acontecer agora é um efeito inverso do que foi buscado após a Crise de 2008, com o Quantitative Easing. Frente ao cenário mais desafiador, os bancos terão que trabalhar mais para sustentar suas margens e isso levará a um encarecimento do crédito na economia americana, dificultando o financiamento de novos negócios e a continuação do ritmo de crescimento da economia do Tio Sam.

 

Esperamos uma diminuição no ritmo de crescimento da economia americana tanto para 2019 quanto para 2020, porém os temores que pairam para início de uma nova recessão não podem ser confirmados somente pela inversão na curva de juros. Já ressaltamos em editoriais anteriores que a política monetária adotada pós-2008 foi algo completamente novo, tendo sido “testada” somente no Japão no início dos anos 2000, e ainda há um amplo debate sobre o efeito natural que o Quantitative Easing teria sobre a curva de juros, com alguns autores defendendo que uma inversão seria natural e passageira. O Federal Reserve já anunciou o fim do ciclo de alta da FFR, inclusive é esperada uma queda na taxa básica de juros dos Estados Unidos ainda neste ano. Adicionalmente a isso, o mundo inteiro passa por um momento difícil, havendo muita incerteza envolvendo tanto o processo de Brexit quanto as relações comerciais sino-americanas e o próprio ritmo de crescimento da economia chinesa individualmente, que vem enfrentando uma desaceleração nunca vista nos últimos 20 anos. Com tantos fatores de risco no radar, é natural que investidores fiquem incertos quanto ao ritmo de crescimento para o curto e médio prazo da economia americana, buscando alocar seu capital em títulos de longo prazo e levando o yield dos títulos de 10 anos a níveis mais baixos.

 

Outro fator que também chamou a atenção no mês foi a situação no mercado de trabalho americano, com o relatório de emprego mostrando a criação de somente 20.000 novos postos de trabalho, enquanto que, em janeiro, foram criados 311.000. Este foi, aparentemente o pior desempenho para o mercado de trabalho americano desde setembro de 2017, porém a análise da situação do emprego nos Estados Unidos é um pouco mais profunda do que a criação líquida de vagas. Primeiramente, um indicador do nível de criação de empregos em uma economia como a americana, que vem trabalhando a pleno emprego, não é tão relevante, visto que a taxa de desemprego começa a se aproximar da taxa natural. Neste caso, faz sentido olhar para o crescimento real no nível de salários, que ficou em 3,4% no ano passado. Considerando o nível de inflação anual de 1,91%, fica claro que a situação para os trabalhadores americanos ainda é benéfica e os indicadores de consumo dos Estados Unidos devem continuar a serem beneficiados. Além disso, o mercado de trabalho se move em tendências, um relatório de emprego não pode ser analisado individualmente e, mesmo com um número que chamou a atenção pela modéstia, é necessário aguardar a divulgação dos relatórios de março e abril para definir se a situação no mercado de trabalho americano está virando ou se foi somente um mês atípico. Uma coisa fica clara, olhando pelos dados de emprego, a economia americana ainda parece distante de uma recessão.

 

No Brasil, o mês não veio com indicadores econômicos relevantes o suficiente para dominar um noticiário inundado com os imbróglios políticos que assolam o Governo Bolsonaro. Particularmente após a prisão de Michel Temer, houve uma reviravolta no Congresso, com Rodrigo Maia se colocando como um adversário do governo na aprovação da tão aguardada reforma previdenciária. A justificativa no presidente da Câmara foram os comentários infelizes de Carlos Bolsonaro, filho do presidente. Porém ficou claro a tensão em Brasília após a prisão preventiva do ex-presidente e de Moreira Franco, que é sogro de Maia, a ponto de que há um debate acerca da legitimidade da decisão. Em uma sinalização hostil aos planos do Governo Bolsonaro, Maia designou Marcelo Freixo (PSOL-RJ) para ser relator do pacote anticrime de Sérgio Moro. É importante ressaltar que as declarações do presidente da Câmara não foram de que ele passaria a ser oposição, mas suas ações soaram como uma ameaça a Bolsonaro, para lembrá-lo que é necessária uma articulação com regalias sendo cedidas a parlamentares

 

A governabilidade do Governo Bolsonaro já foi abordada no Editorial de janeiro, e as tensões envolvendo a reforma da previdência vêm sendo notáveis. O alívio momentâneo veio com a notícia de que Paulo Guedes tocará a articulação da reforma da previdência junto a Rodrigo Maia. A figura de Guedes ainda tem muito crédito para tratar com diversos setores diferentes, e, por se tratar do idealizador da reforma, tem mais influência do que o próprio presidente. As polêmicas nas quais Jair Bolsonaro se envolveu durante este mês, majoritariamente vindas de suas redes sociais, gastaram sua imagem perante à classe política, juntamente com a sua postura de dificultar repasses por meio de emendas parlamentares, como prometido em sua campanha para presidente.

 

Passando para ao que se refere ao desempenho da economia brasileira, os indicadores apontam para uma dificuldade ainda grande da retomada do crescimento. Todos os indicadores de produção industrial e de crescimento econômico mostraram uma degradação da situação brasileira. Por um lado, tivemos a divulgação do IBC-Br, que mostrou uma retração de 0,46% na atividade econômica brasileira, enquanto a taxa de desemprego do país voltou a crescer, se posicionando na casa de 12,4%. Já os dados fornecidos pela pesquisa PMI sobre a economia brasileira deixam margem para otimismo no futuro do país. O grau de otimismo medido pela Markit Economics segue sólido, com 64% das empresas seguindo com boas perspectivas para os próximos 12 meses, enquanto as vendas do setor privado foram as mais altas dos últimos 6 anos. O relatório do PMI do setor de serviços mostrou que o mês de fevereiro, impulsionado pelo sólido desempenho de saída de produtos, contratou trabalhadores, sendo a melhor rodada de admissão de novos empregados nos últimos 4 anos. Sustentada pelo grau de otimismo, a demanda interna continuou forte, e isso deverá garantir que a recuperação econômica deva continuar em andamento no curto e médio prazo, ainda que em um ritmo conservador.

 

Alinhada a esse fator, a taxa Selic foi mantida nesse mês, na reunião que marcou a estreia do novo presidente do Bacen, Roberto Campos Neto, à frente do Comitê de Política Monetária (Copom). Em nossa visão, o ritmo de recuperação da economia brasileira deixa espaço para uma nova redução na taxa Selic, para a casa de 6,25% ao ano. Porém, a situação política trava a ação do Copom, tendo em vista um balanço de riscos ainda dependente da aprovação da reforma da previdência. Caso a reforma não passe, haverá a necessidade de um maior prêmio pelo risco para o investidor dos títulos do governo brasileiro, o que faria com que a Selic fosse ajustada para níveis mais alto, na casa de 7,5% a 8%. Não é nessa possibilidade que acreditamos. O Governo Bolsonaro tem dificuldades em formar sua articulação política para a aprovação de seus projetos e as atitudes do presidente com respeito a Rodrigo Maia só complicam ainda mais a situação. Com a decisão de Paulo Guedes, de assumir a articulação da reforma, a situação fica mais tranquila frente aos riscos vindos dos deputados do legislativo. O principal risco passa a ser a aceitação da ala militar da proposta, tendo em vista a falta de influência do Ministro da Economia dentro do ramo, sendo o presidente o principal conciliador nesse caso. Passando para reformas adicionais que devem ser propostas no futuro, como a reforma tributária, esta sim deve sofrer com a pressão vinda do legislativo. É notável o desgaste pelo qual o Governo passou nos últimos 3 meses, e, levando em conta a estratégia do Governo Bolsonaro de articular com bancadas ao invés de partidos na formação de sua base governista, há um risco real de perda de apoio dentro do Congresso.

 

 

Escrito por: Matheus Bulascoschi

 

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