"> Editorial - (Janeiro/2019)

1 de Fevereiro de 2019

Editorial - (Janeiro/2019)

   O primeiro mês de 2019 foi marcado por situações de tensão em diversos âmbitos na macroeconomia internacional, se estendendo desde o polêmico Brexit, até a questão do shutdown do governo americano e minando a confiança no mercado de petróleo.

 

   Iniciando com um olhar na economia americana, o presidente Trump conseguiu um acordo com a ala democrata, que comandará o Congresso neste ano, para colocar um fim na paralisação do setor público americano, ainda que de maneira temporária. Esse foi o shutdown com maior duração na história da economia americana e, por esse fato, muitas estimativas sobre o impacto do evento no desempenho da economia vêm sendo levantadas. Cerca de 800 mil funcionários públicos foram dispensados de suas funções durante a paralisação e, com isso, deixaram de receber seus salários durante os 35 dias. A Casa Branca estima que os impactos no PIB ficarão na redução de 0,1 ponto percentual do crescimento a cada semana de paralisação. Mesmo com os funcionários públicos federais representando menos de 10% da força de trabalho dos Estados Unidos, o impacto do shutdown se dá devido à redução do consumo, fator que guiou o crescimento econômico americano no último ano. Conforme as famílias de funcionários públicos ficam mais tempo sem receber, o consumo delas no setor privado cai, reduzindo a demanda agregada e sendo muito prejudicial para empresas específicas, que necessitam da demanda de funcionários públicos para operar. Como a própria divulgação de indicadores econômicos do país foi afetado, visto que muitos dos órgãos responsáveis ficaram fechados, optamos por colocar nossa previsão acerca do crescimento do PIB americano em revisão, mas sem tomar uma decisão ainda neste mês, enquanto aguardamos um panorama mais detalhado do efeito real do shutdown na economia dos Estados Unidos.

 

   Enquanto isso, a guerra comercial americana mostra-se cada vez mais focada no campo tecnológico do que na questão diplomática e comercial, propriamente dita. Já é claro o incômodo dos Estados Unidos com a empresa chinesa Huawei, que atualmente desponta como a líder na tecnologia de 5G, que deve trazer avanços consideráveis às redes móveis com a aceleração da velocidade de transporte de dados. No final de janeiro, os representantes, tanto dos Estados Unidos quanto da China, vêm realizando reuniões para discutir o fim das hostilidades comerciais, conforme o acordo atingido no fim de 2018, estabelecendo um prazo até o dia primeiro de março para a solução do conflito. Caso esse prazo seja ultrapassado, Trump já declarou que irá aumentar a taxação de US$ 200 bilhões de produtos chineses em 15 pontos percentuais, o que irá gerar uma retaliação proporcional do regime de Xi Jinping. O fato é que a Huawei é uma das joias do governo chinês, recebendo pesados investimentos para se tornar uma líder, enquanto também se aproveita do patrimonialismo característico do regime chinês. Com o fechamento do cerco feito pela Justiça americana, que denunciou a empresa por roubo de dados, fraude bancária e de violar as sanções impostas ao Irã, juntamente com o pedido de extradição da CFO da empresa, Meng Wanzhou, torna-se mais difícil as negociações. Até o momento, Washington tem tomado a postura agressiva nos embates e nas negociações. Porém, o conflito já começa a causar um certo cansaço para o governo americano à medida que o boom econômico começará a se estabilizar em seu mercado interno. Donald Trump sabe que um alívio nas tensões comerciais pode trazer uma onda de otimismo para a economia internacional, e prolongar o bom sentimento econômico, principalmente no território americano. Porém, a China exigirá, em contrapartida a uma colaboração na solução da guerra comercial, um alívio na perseguição dos Estados Unidos à Huawei. Restará saber se os Estados Unidos optarão por deixar a empresa operando normalmente, mesmo com as suspeitas da Casa Branca de que a empresa seria usada para espionagem chinesa, ou se colocarão as negociações comerciais a perder em nome da segurança nacional.

   Alterando o foco agora para os rumos da política monetária americana, na última semana de janeiro, o Federal Open Market Comittee (FOMC) mudou a sua postura, que era de incerteza ao fim da última reunião, realizada em dezembro, para um tom mais paciente e suave (dovish). A manutenção da taxa de juros americana no intervalo entre 2,25% e 2,5% já era amplamente esperada pelo mercado internacional, porém o anúncio do Federal Reserve de que o ciclo de apertos monetários deve ter chegado ao seu fim, gerou euforia nos mercados e abateu o dólar. O forte desempenho da economia americana deve continuar firme com o setor privado continuando a gerar empregos e com o gasto familiar subindo de maneira consistente, apesar dos ruídos da política interna. Porém, a inflação americana se mantém no alvo estabelecido pelo órgão, de 2% ao ano. Não é de se esperar grandes mudanças no CPI americano, visto que a economia já está funcionando a pleno emprego há alguns meses e os salários vêm subindo a uma taxa estável. Tendo isso em conta, cremos na estabilidade da taxa de juros americana até o quarto trimestre de 2019, quando ela poderá ser reduzida para o intervalo entre 2% e 2,25% para continuar a estimular a economia dos Estados Unidos.

 

   Ainda nos Estados Unidos, o cenário do petróleo começa a destoar do sentimento que rondava o mercado internacional no final de 2018 de que a máquina de petróleo americana estava à pleno vapor e sem mostrar sinais de exaustão, havendo alguns fatores que minaram a confiança na produção do xisto. Logo no dia 2 de janeiro, foi veiculado pelo Wall Street Journal, o resultado de um estudo feito pela Rystad Energy, uma companhia de research da área de energia, afirmando que a maioria dos campos americanos de petróleo de xisto estão produzindo menos do que o projetado por seus investidores. De acordo com o estudo, os campos americanos estariam produzindo, em média, 10% a menos do que o esperado, enquanto alguns chegam a produzir até 50% a menos do esperado. O grande problema reside na capacidade produtiva da economia americana a longo prazo, afinal, a menor longevidade dos campos de xisto já em amplamente conhecida pelo ramo. De acordo com um relatório da U.S. Energy Information Administration (EIA), a queda na produtividade vem sendo mais intensa nas regiões onde o fracking é a técnica mais utilizada. Por enquanto, os perfuradores não parecem muito preocupados com a situação. Quando os poços passam a produzir menos, os produtores optam por perfurar novos poços para compensar a queda na produtividade. Porém, em determinado ponto, os perfuradores serão obrigados a fazer poços em lugares de acesso mais difícil, à medida que as reservas forem se esgotando. A junção de um custo mais alto de produção com um resultado aquém do esperado dos campos atuais pode desincentivar a continuidade dos financiamentos de Wall Street ao ramo petrolífero americano, reduzindo a produção e jogando os preços da commodity em uma tendência de alta.

 

   Movendo nosso foco um pouco para o sul do mar caribenho, um dos fatos de destaque no mês foi o agravamento das relações entre a Venezuela e os Estados Unidos, quando o gigante norte-americano passou a reconhecer Juan Guaidó como presidente do país, afrontando Nicolás Maduro. Adicionalmente, os Estados Unidos continuam a trabalhar com sanções pesadas para o complexo petrolífero venezuelano, barrando importações de petróleo cru do país. É verdade que as refinarias do sul do território americano sempre foram dependentes do óleo venezuelano, porém a intensificação das sanções é uma tragédia anunciada há muitos anos, o que deu às empresas compradoras do regime bolivariano o tempo para recorrer a fornecedores alternativos de petróleo cru, como a Arábia, o que vem reduzindo o fluxo importador da Venezuela desde 2017. Por outro lado, a Venezuela depende muito dos Estados Unidos. A extração de petróleo atualmente gira na casa de 1,17 milhão de barris por dia, 37% do que era produzido em 2010 e as refinarias do país se encontram paralisadas. Assim, o regime venezuelano, apesar de ter as maiores reservas do planeta, depende da compra de produtos refinados do Estados Unidos. Em outubro, essas compras chegaram a US$ 3 milhões, o que, apesar de ser menos de 1% da produção americana, foi vital para o regime de Maduro.

 

   O risco de agravamento de uma crise diplomática se relaciona aos impactos no financiamento do regime venezuelano. Conforme a Venezuela tem sua geração de renda cada vez mais limitada pelo avanço de sua crise econômica e pelas sanções americanas, o risco de um default da estatal PDVSA fica cada vez mais claro. Atualmente, a maior parte do rendimento de seus campos de petróleo já vai para o pagamento de empréstimos russos e chineses, porém a garantia para estes empréstimos são as refinarias da Citgo, um braço da PDVSA que atua no mercado americano. No caso de default, os russos tomariam essas refinarias para si como pagamento pela dívida. Resta saber qual seria a atitude de Trump diante de um cenário como esse, tendo em vista a tensão diplomática que já envolve os Estados Unidos, Rússia e China. Até o momento, parece que o presidente americano se sente confortável em empurrar a Venezuela para o calote da dívida, então não se pode descartar uma intervenção do Comitê de Investimentos Estrangeiros do Estados Unidos (CFIUS, na sigla em inglês) em nome da “segurança nacional”, no caso de os russos assumirem a operação da Citgo.

 

   O cenário no Velho Continente, apesar de positivo em termos econômicos, foi assombrado pelos temores que rondam o acordo da saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit. No dia 15 de janeiro a primeira-ministra britânica, Theresa May, sofreu uma grave derrota no parlamento com uma desvantagem substancial na contagem de votos (432 votos contra e 202 a favor). Apesar de May insistir que o acordo é a única saída para o dilema que assola os britânicos, Jeremy Corbyn, líder da oposição, encabeçou um processo de moção contra a premiê que, mais uma vez, conseguiu a vitória e, portanto, se manter no cargo. Porém, capital político da primeira ministra vai se esvaindo com suas falhas na aprovação de um acordo, gerando a impressão de que ela não é capaz de guiar os britânicos a uma saída harmoniosa do bloco europeu. Com o tempo se esgotando para o Reino Unido, acreditamos na possibilidade de se ocorrer o hard-brexit, ou seja, a falta de qualquer acordo entre as partes até o fim do prazo, no final de março. Por um lado, a União Europeia não deseja renegociar a proposta derrotada de May, se negando a fazer concessões ou alterações no texto, enquanto que, por outro lado, o parlamento britânico se negou a estender o prazo em votação realizada no último dia 29. Assim, a primeira-ministra britânica tem pouco menos de dois meses para achar uma solução, sendo que ela mal conseguiu manter seu próprio cargo na moção encabeçada por Jeremy Corbyn, quando ganhou por uma vantagem de somente 19 votos (325 a 306).

 

   Do outro lado do Canal da Mancha, a França já iniciou um plano de contingenciamento para se preparar para as consequências de uma saída compulsória do Reino Unido do bloco europeu. O primeiro ministro francês, Edouard Phelippe, declarou que “a responsabilidade do governo é de garantir que o país esteja pronto, que os interesses de nossos cidadãos sejam preservados”, justificando o preparo para o hard-brexit. O plano, avaliado em 50 milhões de euros deve incentivar pesados investimentos em infraestrutura, como postos de controle de fronteiras, estradas, parques e armazéns nos aeroportos, assim como contará com medidas legislativas e jurídicas para evitar a interrupção de negócios e prejuízos aos direitos dos cidadãos. A Alemanha de Angela Merkel também começou a se movimentar nesse sentido, enquanto amargou números ruins para o desempenho de sua indústria em novembro, que se contraiu 1,9%. O país saxão vem sofrendo com os impactos do esfriamento das relações econômicas internacionais, visto que se trata do maior exportador da União Europeia.

 

   Já no Brasil, o cenário político ganhou um maior destaque neste mês, com as manobras para se decidirem os comandos do poder legislativo e a costura de uma base aliada, por parte do Governo Bolsonaro.

 

   No campo econômico, tivemos o fechamento da inflação de 2018, que ficou levemente acima de nossa expectativa, que era de um IPCA em 3,7%. O índice acumulou alta de 3,75% em 2018. A diferença sutil não trouxe grandes surpresas e não alteramos nossa visão para a condução da política monetária brasileira. A preocupação, atualmente, se refere ao rumo do emprego brasileiro. Um olhar na evolução da taxa de desemprego da economia mostra que não houveram grandes avanços no índice entre o fim de 2017 e o fim de 2018, quando a taxa passou de 12% para 11,6%. Apesar de mostrar uma queda e, superficialmente, uma melhora no quadro, a situação do emprego é, na verdade, uma corrida contra o tempo ao se considerar a ótica do trabalhador. O número de desalentados é o maior na história da série e o percentual da força de trabalho que vive em situação crônica de desemprego é quase duas vezes maior do que a média registrada nos anos que antecederam a crise econômica. O fato é que conforme o profissional fica mais tempo sem trabalhar, a sua produtividade cai e, com ela, as suas chances de admissão em um novo emprego também caem, assim como o contrário ocorre em um cenário de muitas contratações, onde as empresas investem em treinamentos, elevando a produtividade do trabalhador. Mesmo sendo claro que o quadro do emprego deve continuar melhorando gradualmente, o risco de um crescimento no desemprego estrutural brasileiro já é claro e deve continuar a ser monitorado.

 

   A votação para a presidência da Câmara e do Senado, prevista para ocorrer na tarde de sexta-feira que inicia o mês de fevereiro, traz bons sinais de governabilidade para o Planalto. No caso da Câmara, Rodrigo Maia conseguiu angariar um forte apoio durante o mês de janeiro e já adota um discurso liberal, em coesão com o discurso adotado pelo novo governo. O parlamentar ainda mostra muita disposição para tocar a agenda de reformas, prometendo começar pela reforma da previdência, que já deve ser colocada em pauta em fevereiro. O candidato alternativo à presidência da Câmara é Fábio Ramalho (MDB) que lançou sua candidatura de modo independente e, tendo em vista que o MDB fechou apoio para a candidatura de Rodrigo Maia, tem chances ínfimas de vitória. Porém, na ótica do Planalto, qualquer cenário é favorável visto que Fábio Ramalho é amigo pessoal do presidente Jair Bolsonaro e já manifestou que se posicionar a favor dos interesses reformistas do governo.

 

   Já no Senado, Renan Calheiros é o favorito para assumir a presidência da Casa pela quarta vez, apoiando os planos do Governo Bolsonaro. Quando questionado sobre a mudança de postura, afinal o parlamentar foi um grande aliado dos governos petistas e agora adota o discurso liberal em sua campanha para a presidência da Casa, Calheiros afirmou ser um “Novo Renan”, “renovado pelas urnas” e que se até o militar Bolsonaro adotou o discurso liberal de Paulo Guedes, ele também não poderia Com isso, o governo deve ter uma situação confortável para a tramitação das reformas planejadas nos próximos meses. Alguns fatores de risco para a harmonia do poder executivo e legislativo ficam para as declarações da equipe ministerial, que causaram um ruído significativo no primeiro mês de mandato e para a estruturação do Governo Bolsonaro de uma base. Diferentemente do que era usual em governos anteriores, o Planalto não negocia mais com partidos específicos e sim com bancadas, sendo as mais próximas do governo a bancada evangélica, a bancada ruralista e a bancada armamentista. O problema reside na fidelização de votos aliados aos projetos do governo. Quando há a negociação diretamente com partidos, as legendas têm um poder sobre os parlamentares para coagi-los a votarem de acordo com o previsto. Porém, este não é o caso de uma bancada, que é um “grupo informal” onde os deputados podem entrar e sair, de acordo com seus interesses. Com isso, a base de Bolsonaro tende a se tornar mais delicada e as votações mais imprevisíveis. A conferir.

 

 

Escrito por: Matheus J. Bulascoschi

Revisado por: Welker Abner e Raphael J. Bulascoschi
 

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