"> Editorial - (Dezembro/2018)

28 de Dezembro de 2018

Editorial - (Dezembro/2018)

Com o fim de 2018, as empresas e autoridades monetárias vislumbram um cenário complexo para 2019. Receios acerca do ritmo de crescimento das economias do planeta trazem volatilidade para o mercado de commodities, enquanto as decisões dos formadores de políticas monetárias começam a modificar seus planos de voo para o futuro diante dos novos desafios que são impostos, trazendo um início de ano incerto para os mercados internacionais.

Um dos fatos que mais chamou a atenção nos últimos dois meses foi o movimento do petróleo no mercado internacional, que, até o fechamento desta edição, já caia 40,71% desde sua máxima, em 3 de outubro. As causas para essa mudança no humor no mercado de commodities vão desde a política interna norte-americana ao duelo travado entre os próprios Estados Unidos e a OPEP para decidir o rumo das cotações. Não é segredo que o presidente americano, Donald Trump, deseja preços baixos de petróleo para gerar preços melhores para a população americana, dando sustentação à sua estratégia de política populista, porém a Arábia Saudita, segundo maior produtor de petróleo do mundo e líder do cartel OPEP, passou o ano de 2018 negociando com os outros países da organização para impulsionar as cotações da commodity.

O imbróglio diplomático trazido pelo assassinato de Jamal Khashoggi dentro da embaixada saudita na Turquia foi bem contornado por Trump, que defendeu o príncipe árabe, Mohammed bin Rashid, isentando-o de qualquer culpa. Pouco depois, a Arábia Saudita afirmou que o petróleo poderia ficar na faixa dos 50 dólares por barril por um tempo estendido. Porém, os receios acerca da trajetória de crescimento global para 2019 trazem a percepção de que a demanda caia no ano vindouro. Por outro lado, a OPEP tem se mostrado incapaz de diminuir a oferta global. É verdade que a organização aprovou cortes na casa de 1,2 milhões de barris por dia para começar já em janeiro, porém os Estados Unidos vêm batendo recordes de produção de maneira consistente, de maneira que consegue neutralizar os efeitos dos cortes da organização. Ainda em 2018, Trump trouxe mais uma enxurrada de volatilidade aos preços do petróleo quando anunciou a isenção de sanções para 8 países que poderiam continuar comprando óleo iraniano, sendo eles: China, Turquia, Coréia do Sul, Grécia, Itália, Taiwan, índia e Japão. Com isso, mais de 1 milhão de bpd de petróleo iraniano permaneceram no mercado, contrariando as expectativas e colocando mais pressão baixista sobre os preços.

Passando para um olhar sobre o que esperar em 2019, um dos fatos a serem observados é a decisão dos Estados Unidos acerca das punições a países que negociam com o Irã, prevista para ocorrer em abril. A prisão da CFO da Huawei, justamente por negociar com companhias iranianas, traz a percepção de que os Estados Unidos deverão ter um pulso firme para punir o país persa no futuro, dificultando as chances de renovar essas exceções. Somente preços na casa dos 70 a 80 dólares por barril devem motivar Donald Trump a dar continuidade a estas exceções, em uma medida para tentar trazer as cotações da commodity para níveis mais baixos. Porém, a situação dos produtores americanos deve jogar contra esse aumento drástico nas cotações. Em 2018, a produção de petróleo nos Estados Unidos atingiu a marca de 11,4 milhões de barris, tornando o país o maior produtor de petróleo do mundo e um exportador líquido do produto, energeticamente independente. A bacia permiana, importante região texana produtora de petróleo de xisto, possui limitações estruturais que devem dificultar o escoamento do produto, limitando o avanço na produção. Porém é previsto que novos oleodutos sejam finalizados na segunda metade de 2019, o que permitirá novos aumentos na produção da região. Porém, o WTI é um tipo de petróleo mais fino e que não é tão demandado por refinarias internacionais, logo, em um quadro de contínuo aumento na produção dos Estados Unidos, os produtores seriam obrigados a baixar seus preços cada vez mais, limitando a lucratividade dos americanos, mas já sendo suficiente para manter os preços em níveis baixos. Do outro lado do “cabo de guerra”, a Arábia Saudita deve continuar lutando para elevar os preços da commodity. Com a divulgação do orçamento do reino nesse mês mostrando um dispêndio previsto de US$ 295 bilhões, calcula-se que será necessário um barril WTI entre US$ 85 e US$ 95 para atingir o equilíbrio fiscal, o que implica em uma valorização de pelo menos 90% nas cotações.

Apesar das tentativas da OPEP, os preços do petróleo não devem subir a níveis como vistos nas máximas deste ano, quando o WTI atingiu os US$ 76,41. A produção dos Estados Unidos é sólida e deve continuar num ritmo forte durante a primeira metade de 2019, atendendo à política da Casa Branca, que deve acirrar o cerco sobre o Irã. Com a exclusão do país do mercado internacional, a queda na oferta deve trazer um leve alívio no segundo trimestre de 2019 às cotações, que devem rumar para a casa dos 50 dólares. No segundo trimestre, com a renovação de recordes de produção dos Estados Unidos, os preços devem retomar o viés negativo, voltando para níveis abaixo dos US$ 45.

Nesse mês o Banco Central Europeu (BCE) finalizou o seu programa de Quantitative Easing, avaliado atualmente em 2,6 trilhões. Assim como já havia sido anunciado no meio do ano, o BCE deixará de realizar novas compras de títulos, porém reinvestirá o dinheiro vindo da maturação de títulos já comprados. O anúncio coincide com um momento de grande fragilidade da economia europeia que vem monitorando diversos riscos, como a possibilidade da economia italiana, terceira maior do bloco, entrar em recessão. A situação do Brexit, que ainda pode escalar para uma separação um tanto traumática para o bloco, assim como a redução no ritmo de crescimento chinês e a adequação dos emergentes à nova realidade da política monetária internacional também são fatores que pesam nas projeções do BCE. Essas projeções passaram a antecipar a desaceleração da economia global e cravam o crescimento do PIB europeu em 2019 na casa dos 1,7%. Porém o compromisso da autoridade monetária europeia está nos números da inflação, e, mesmo com a desaceleração econômica esperada, há a percepção de que os números do CPI europeu devem se manter em níveis próximos, mas um pouco abaixo dos 2% ao ano, patamar que é o objetivo do banco central. Devido ao fato de o compromisso do BCE se dar quase que exclusivamente para os indicadores de preços da economia europeia, não é de se esperar alterações drásticas na política atual, com a taxa de juros da zona do euro se mantendo em zero até, pelo menos, 2020.

Quanto ao Brexit, a primeira-ministra britânica, Theresa May, obteve uma importante vitória no início deste mês, ganhando o voto de confiança do partido conservador. A votação foi ganha com uma certa margem, com 63% dos parlamentares votando a favor da manutenção de May no cargo, tornando-a imune pelo próximo ano. Assim, dá-se continuidade ao processo de desfiliação do Reino Unido da União Europeia, ainda que a principal luta ainda não tenha sido decidida. O texto do Brexit ainda enfrenta grande oposição dos membros do parlamento, inclusive dos próprios membros do partido da primeira-ministra devido a problemas na fronteira das Irlandas e por ser “muito permissivo” com o bloco europeu, além de ter ideias de uma união aduaneira, contrariando o ideal de separação total. Ainda assim, a expectativa é de que, até março, o reino deve deixar de uma vez por todas a UE.

Nos Estados Unidos, o maior evento do mês foi a decisão do Federal Open Market Committee (Fomc) sobre a taxa de juros, como também o novo horizonte traçado pelo Federal Reserve para a economia americana. Apesar da, já esperada, decisão de elevar as taxas de juros para o intervalo entre 2,25% e 2,5%, o tom de incerteza do Fed trouxe muita pressão negativa sobre os mercados. Somando-se às outras projeções, o banco central americano diminuiu as previsões de crescimento em 2019 para 2,3%, ante uma expectativa de avanço de 2,5% no PIB. A antecipada inversão da curva de juros do país vem causando temores nos mercados internacionais, pois, nos últimos 60 anos, esse fato precedeu inícios de recessões econômicas. O achatamento da curva de juros americana pode ser visto como um processo natural diante da realidade econômica atual, não é, necessariamente, um presságio de uma recessão iminente.

Após a crise de 2008, os bancos centrais dos Estados Unidos, Europa e Japão utilizaram de rodadas de Quantitative Easing para estimular o crédito interno em suas economias. A verdade é que foi a primeira vez em que essas políticas foram adotadas em escala global, com episódios ocorrendo no Japão no início dos anos 2000 e nos Estados Unidos nos anos 30. Ainda há especulações acerca do efeito real dessa política no comportamento das curvas de juros, mas a ideia por traz do programa é, justamente, a queda de yields. É perfeitamente razoável a hipótese de que o achatamento da curva ser explicado pelos programas intervencionistas. Assim, é possível inferir que, quando houver o enxugamento do colossal balanço do Federal Reserve, os juros longos voltem a níveis mais altos, reposicionando a curva em uma trajetória ascendente.

Há também de se avaliar a economia real americana e os possíveis sinais de recessão que podem ser encontrados. A taxa de desemprego está em 3,7%, com os salários crescendo de maneira consistente, apesar de um ritmo relativamente lento. A taxa de poupança das famílias foi revisada para cima em julho deste ano e, apesar de ter caído nos últimos meses, ainda está em um patamar satisfatório para sustentar uma trajetória de crescimento no consumo. Os índices de confiança na economia americana foram abalados pelos imbróglios políticos ocorridos no decorrer do ano como a guerra comercial e as dificuldades de Donald Trump, porém ainda se sustentam em níveis historicamente altos.

Certamente, o ano vindouro reserva muita volatilidade no mercado internacional. O movimento recente dos mercados acionários americanos, que mostram seus principais índices entrando em bear market um a um, é um sinal da tensão que paira sobre os investidores. Donald Trump terá sua força muito reduzida, seguindo seus antecessores e se tornando um lame duck nos anos finais de seu governo. Ainda antes de os democratas assumirem a maioria no congresso americano, o presidente já enfrenta muita oposição interna com seus projetos acerca da fronteira com o México a ponto de provocar um novo shutdown do governo. A nova realidade do legislativo americano deve trazer um Trump mais “desarmado” em 2019, o que nos gera expectativas de um arrefecimento ainda maior das disputas comerciais com a China, que já vêm mostrando mais lânguidas após as conversas na reunião do G20, realizada em novembro. Em nossas projeções para o crescimento do PIB dos Estados Unidos, não acreditamos na hipótese de que há uma recessão a frente, com um crescimento esperado de 2,2% em 2019 e 1,9% em 2020. A economia americana, porém, deve sofrer consequências de fatores externos como o desenrolar do fim do Quantitative Easing na União Europeia, a queda no crescimento como um todo, que deve limitar a demanda global, e a recuperação de países emergentes.

Já para a economia brasileira, o cenário futuro vem se moldando como benigno diante dos avanços conquistados nos últimos dois anos e das expectativas acerca do próximo governo. Apesar da deterioração ocorrida durante a crise econômica, o país conseguiu controlar a sua política monetária de maneira eficiente sob o comando de Ilan Goldfajn, no Bacen, com a inflação caindo para níveis abaixo da meta e com a Selic caindo para o piso histórico e mantendo o nível por diversos meses.

Em dezembro, tivemos a conclusão acerca do fechamento da taxa Selic para o ano, com o Copom decidindo pela manutenção da taxa nos 6,5%, como era amplamente esperado pelo mercado. Durante as eleições, muita especulação entrou no radar do Comitê, o que gerou expectativas de que a Selic poderia ser elevada em 25 pontos-base na reunião pós-eleições ou até mesmo na reunião marcada para dezembro, sustentadas, entre outros fatores, por um IGP-M beirando a alta de 10% no ano e um IPCA que convergia para o centro da meta, de 4,5%. Porém, com o desfecho da eleição, as especulações no mercado cambial tiveram um fim e a atividade econômica continuou estagnada, amenizando o movimento inflacionário e impondo cautela para uma possível elevação nos juros. Os riscos monitorados pelo Comitê são baseados nas possibilidades da não aprovação de reformas estruturais no Brasil, em um cenário econômico internacional desfavorável para as economias emergentes e na ocasião de o elevado nível de ociosidade da economia brasileira frustrar as perspectivas de crescimento no futuro.

No caso da aprovação das reformas, a eleição de Jair Bolsonaro, aliada com a composição do congresso nacional, gera espaço para um arrefecimento na possibilidade de frustração nas aprovações. O futuro Ministro da Fazenda, Paulo Guedes, traz uma equipe econômica diferente das experimentadas nos últimos mandatos justamente por seu alinhamento com políticas liberais e favoráveis a temas como a reforma da previdência, trabalhista e tributária, em alguns casos propondo medidas mais profundas do que o esperado. Porém, o risco relacionado a alta ociosidade da economia brasileira se eleva, com o índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) mostrando uma continuidade no quadro estagnado em outubro, vindo de uma retração em setembro. Partindo para um olhar um pouco mais otimista, houveram bons resultados na taxa de desemprego para o trimestre encerrado em novembro, que ficou em 11,6%, dando continuidade à sua gradual trajetória de queda. Mesmo beirando a alta de 11% durante o decorrer do ano, o IGP-M encerrou 2018 com uma valorização de 7,54%, após os meses de novembro e dezembro mostrarem deflações de 0,49% e de 1,08%, respectivamente. O PIB brasileiro ainda deve crescer 1,4% em 2018, muito abaixo das expectativas do início do ano, que chegavam a prever um crescimento de 3%, mas em um ritmo satisfatório se forem levadas em conta as dificuldades encontradas neste ano, como a greve dos caminhoneiros e as intempéries eleitorais.

Quanto ao desenrolar da situação macroeconômica internacional, vislumbramos um cenário positivo para os países emergentes, amenizando o risco monitorado pelo Copom. O crescimento internacional está, aos poucos, sendo revisado para baixo, com o Fomc sinalizando uma redução no ritmo de elevação de taxas de juros americanas. O principal risco, em nossa visão, está na queda do crescimento chinês ocorrida nesse ano e prevista para continuar ocorrendo em 2019. Porém, como já exposto acima, acreditamos no arrefecimento das tensões comerciais entre Estados Unidos e China motivado pelo desarme a ser imposto a Donald Trump por um congresso democrata, abrindo espaço para uma recuperação no ritmo de crescimento chinês.

Iniciamos 2019 com uma projeção de crescimento da economia brasileira na faixa dos 2,2%, liderado pelo setor de serviços e sustentado pelo início da recuperação da indústria brasileira, que teve um segundo semestre muito negativo em 2018. O avanço das reformas estruturais econômicas deve ter um impacto no balanço de riscos monitorado pelo Copom, gerando um menor ritmo no aperto monetário vindouro. Quanto à Selic, esperamos um crescimento da taxa em somente 25 pontos-base, encerrando o ano em 6,75%. No início do ano a atividade econômica ainda deve manter um ritmo relativamente lento, sem grandes disrupções com o ritmo atual. Porém, o mercado de trabalho deve trazer novas quedas na taxa de desemprego que, aliado ao baixo custo de crédito e ao otimismo com a economia, este último podendo ser observado pela pesquisa de perspectiva de negócios da Markit Economics, deve trazer um melhor momento para o mercado de consumo brasileiro e elevando, sutilmente, a inflação. Esperamos um fechamento do IPCA de 2018 em 3,7% e em 2019 em 4,0%. Porém, espera-se que o novo governo deva trazer grandes mudanças para a conjuntura econômica nacional e já pudemos provar a volatilidade nas declarações de seus representantes nesses dois meses que sucederam as eleições. Por isso, se faz necessário o contínuo monitoramento da situação econômica nacional durante o ano vindouro.

 

 

Escrito por: Matheus J. Bulascoschi

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